Parque do Bixiga, possível respiro na metrópole

Audiência pública sobre a criação do Parque na Câmara Municipal de SP

Ao invés de três torres e mil carros nas ruas estreitas do centro de SP, uma área para o cultivo da convivência, de árvores e pássaros. É possível participar desta luta, a partir de 5 de agosto

Por Cafira Zoé

Desta terra,
nesta terra,
para esta terra.
E já é tempo

(Oswald de Andrade)

Há 38 anos um território de 11 mil m² no bairro do Bixiga resiste ao avanço da especulação imobiliária no centro de São Paulo. Último chão de terra livre na região central, as terras entre as ruas Jaceguai, Abolição, Santo Amaro e Japurá, onde habita o Teat(r)o Oficina, são o marco de uma luta pelo direito à cidade, e, sobretudo, pelo direito a imaginar, descobrir e criar a cidade que queremos.

Circula na Câmara Municipal de São Paulo o projeto de lei (805/2017) que prevê a criação do Parque Municipal Do Bixiga, agitando os átomos da imaginação num exercício de constituição do comum sob o signo da diferença: Parque Municipal Das Terras do Bixiga, de toda gente, do rio do Bixiga que atravessa o terreno subterrâneo; do pomar tomado de pé de jaca, romã, pitanga, abacate, manga; das maritacas; dos beija-flores; de toda a sorte de flores, sementes e hortas pra matar a fome – tanto do estômago quanto dos pulmões que tem fome de ar no centro intoxicado de cimento, carros e prédios construídos já há muito tempo sem o charme e a sensibilidade arquitetônica de outras épocas.

Atravessado pelo Rio Do Bixiga que corre subterrâneo, e junto ao Rio Saracura e o Rio Itororó desembocam no Anhangabaú, o chão do futuro Parque Municipal do Bixiga pede por liberdade. Propriedade do grupo Silvio Santos, com seu braço imobiliário – Sisan, que desde a década de 80 vem comprando imóveis na região para demolir (incluindo a antiga Sinagoga e casas históricas), o território de 11 mil m², e o Bixiga, tradicional bairro de SP, tem sofrido com práticas conhecidas da especulação imobiliária: destruir para criar desertos de abandono e depois, no ato final da farsa capitalista, trazer a salvação: construções faraônicas, que não levam em consideração a história e a cultura de regiões como o Bixiga no centro da cidade, um bairro tombado pelo Confresp – órgão municipal de defesa do patrimônio. O mais recente projeto do grupo Sisan prevê a construção de 3 torres de 100m de altura, com uma injeção de pelo menos 1000 carros na frota das estreitas ruas do Bixiga, adensando e saturando também as saídas pro minhocão na altura da rua Jaceguai.

São Paulo realmente precisa de mais prédios, construídos a toque de caixa? De mais carros vomitando CO² nas nossas ruas a qualquer preço? O Bixiga guarda 1/3 dos imóveis tombados de toda cidade. O traçado das ruas aqui é tombado. Colocar uma frota de cerca de 1000 novos carros nas ruas estreitas do Bixiga, entupindo as saídas para o elevado, aumentando a poluição do ar num bairro com o menor índice de áreas verdes por habitante da cidade parece uma péssima ideia de progresso. Um empreendimento imobiliário como esse do grupo Silvio Santos é um retrocesso ecológico, social, econômico e cultural para o Bixiga, e para São Paulo. Se há o Tabu da propriedade privada, é preciso devorá-lo. No Art 5º da Constituição Federal se diz:
XXII – é garantido o direito de propriedade;
XXIII – a propriedade atenderá a sua função social;
XXIV – a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição.

Assim, além do direito de propriedade não ser um direito onipotente e isolado, tendo em vista os incisos anteriores citados, o terreno de 11 mil m² é área envoltória de bens tombados pelos órgãos de preservação do patrimônio, (Iphan, Condephaat, Conpresp), configura-se como uma área especial no centro da cidade, com direito a ser protegida e preservada. A especulação imobiliária cria desertos. São áreas mortas nas cidades, seja pela demolição desenfreada de bens, muitas vezes históricos, artísticos, culturais, que nos conectam a nossa memória viva, seja pela criação de uma arquitetura estéril, sem conexão estética, cultural, histórica, com as áreas escolhidas para construção. Ceder à tara dessa forma de especulação da vida nas cidades é uma maneira de nos entregar às políticas de morte dos tecidos urbanos, da terra, e de nossos próprios corpos.

O Parque Municipal do Bixiga é um desejo em movimento que se alia a outros territórios em disputa na cidade de São Paulo pelo direito à cidade, em luta pela terra, pela vida, por uma saída aos modos de existência impostos pela especulação imobiliária, pela sanha privatista, que vem massacrando a vida, os corpos e a ecologia nos grandes centros urbanos. O Parque Do Bixiga é uma cri(a)ção para uma ecologia cosmopolítica no centro de São Paulo, onde importa que possam existir das ruas aos rios, das construções aos corpos, sem o perigo do extermínio. É uma luta de todas e todos pela vida, pela terra, pela liberdade, numa cidade cinza como a nossa.

Nos conectamos aos mais de 40 territórios que compõem a Rede Novos Parques em luta por áreas verdes na capital; nos conectamos à luta dos povos indígenas pela terra; nos conectamos aos movimentos de agricultura urbana e agroecologia, e também à preservação de rios urbanos; nos conectamos à luta pela preservação dos nossos patrimônios históricos, artísticos e culturais; nos conectamos ao Bixiga, para que nosso bairro não sofra com mais essa violência urbana (a primeira, de grande porte, foi a construção do elevado Júlio de Mesquita Filho, que deixou a cicatriz de uma divisão estúpida no bairro).

Esse território especial, entre as ruas Jaceguai, Santo Amaro, Japurá e Abolição abriga um Teatro vivo, aliado dessas terras há 38 anos, cultivando-as no seu fazer artístico, protegendo-as do falso progresso da especulação imobiliária neoliberal: Oficina, obra de Lina Bo Bardi e Edson Elito, patrimônio artístico, arquitetônico e cultural, considerado o mais intenso e bonito teatro do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Atrás do Teat(r)o Oficina, em direção às ruas Santo Amaro e Japurá, existe um pomar, nele, pés de pitanga, abacate, manga, romã, cerejas selvagens, jaca, resistem há anos.

Essa é uma luta pelo direito ao respiro, pelo direito ao vazio que mantém livre da egotrip dos prédio essas terras. Um vazio não é um deserto, um vazio é um embrião de mundo, grávido de possibilidades… árvores, rio, frutos, hortas urbanas, um centro de distribuição de sementes crioulas, uma cozinha pública coletiva aberta, autogestão, cultivo das artes, dos corpos, da saúde, numa terra livre.

Você prefere um parque ou mais uma torre ao seu lado? Visite: http://bit.ly/CartilhaPqdoBIXIGA

Segurar o avanço da especulação imobiliária no Bixiga, um bairro tombado, é fundamental, abre precedente de uma luta vitoriosa, dando força e fôlego para que ela não chegue destruindo outros territórios em São Paulo. A luta por áreas verdes, de cultivo da vida, da terra, das artes, é uma luta pela vida de toda cidade.

No dia 5 de agosto, um grande ato pela transformação dessas terras em Parque Municipal acontecerá na Avenida Paulista, em frente ao MASP, a partir das 13h. Venham viver essa luta!

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Teatro Oficina: Silvio Santos ataca de novo

A grande janela do teatro, essencial para o contato com o entorno, pode ser bloqueada por duas torres imobiliárias

Dois espigões de cem metros podem descaracterizar terreno histórico do teatro e emparedar construção projetada por Lina Bo Bardi. Zé Celso prepara arraial e maratona de resistência

Por Cafira Zoé*

Na última sexta-feira (25), o IPHAN-SP, deu parecer favorável ao projeto de Edifício da RBV, Residencial Bela Vista Emprendimentos Imobiliários Ltda., aprovando as últimas alterações feitas pela Sisan Empreendimentos Imobiliários — braço imobiliário do grupo Silvio Santos, para a construção de dois mastodontes de concreto de 100m de altura — além dos andares de estacionamento subterrâneo — no último chão de terra livre do centro de São Paulo, entre as ruas Jaceguai, Abolição e Japurá, no Bixiga, onde vive e respira o Teatro Oficina.

O processo para a construção do empreendimento imobiliário, que havia sido encaminhado pelo IPHAN em Brasília, para análise e posterior decisão para a Superintendência do IPHAN em São Paulo, teve o parecer favorável do relator Marcos Carillho.

O Teatro Oficina foi tombado em 1983 pelo Condephaat, quando o órgão era presidido pelo geógrafo Aziz Ab’Saber. Depois vieram os tombamentos nas instâncias municipal, Conpresp, e federal, Iphan. Continuar lendo

Por que o Parque do Bixiga?

Captura de tela de 2017-12-11 17-42-01Como surgiu, no centro de São Paulo, um reduto de re-existência cultural, que dribla a especulação imobiliária. Como um projeto do Grupo Silvio Santos ameaça destruí-lo. Qual a alternativa?

Por Cafira Zoé e Camila Mota, com colaboração de Marília Gallmeister e Clarissa Mor | Imagens: Jennifer Glass

No dia 05 de dezembro de 2017 foi publicado um artigo de Gabriel Rostay, especialista em política urbana, afirmando que: no terreno de Sílvio Santos, “presente” seria um empreendimento de uso misto.

PARALELO HISTÓRICO

No dia 23 de outubro, depois da aprovação no CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) do empreendimento imobiliário referente a torres residenciais de 100 metros de altura e 3 andares de estacionamento subterrâneo no terreno pertencente ao Grupo SS, no entorno tombado do Teatro Oficina, área envoltória de outros bens tombados: Casa de Dona Yayá, TBC, Escolinha Primeiras Letras e Castelinho da Brigadeiro, uma grande campanha pública se iniciou, clamando a Silvio Santos que desse um presente à cidade de São Paulo: um uso público, coletivo, à área em questão, que se caracteriza como último chão de terra livre no centro da cidade.

É desejo público que o terreno de quase 11 mil m² no vale entre as ruas Jaceguai, Abolição, Japurá e Santo Amaro, receba o Parque do Bixiga, que já tramita como projeto de Lei (805/2017), e prevê a criação de uma área pública verde, de característica cultural, no coração da Bela Vista, Bixiga, se estruturando através de um programa público abrangente confluindo cultura, educação, saúde e ecologia. Trata-se, assim, da criação de uma área pública de cultura para lazer, práticas artísticas, ações formativas, ecológicas, hortas comunitárias, contando ainda com bosques para caminhadas e espaço coletivo, de estruturas efêmeras, para eventos culturais no bairro.

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Teatro Oficina propõe encontros Seminais

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Começam, em São Paulo, seminários da Universidade Antropófaga. Abertos ao público, apresentam e debatem linguagem desenvolvida em cada área de atuação do grupo

Estão sendo realizados no Teatro Oficina os encontros rituais “Seminais”, oito seminários abertos ao público para transmissão e troca de conhecimentos dos saberes da arte teat(r)al inspirada pela Antropofagia: direção de cena; audiovisual; iluminação; arquitetura e urbanismo cênico; comunicação antropófaga y mídia tática, atuação; desenho e engenharia de som e sonoplastia; música. Os seminários, já realizados nos dias 7 e 8, e ainda nos dias 13, 14 e 15 de dezembro, são resultado do trabalhos e pesquisas da 3ª Dentição da universidade Antropófaga, vinculados ao pragmatismo poético da preparação, montagem e dramaturgia de Bacantes, espetáculo que segue em cartaz no Teat(r)o Oficina.

A 3ª Dentição da Universidade Antropófaga tem o objetivo de refinar técnicas de atuação, dança, canto, artes visuais, vídeo, figurino, direção, arquitetura e urbanismo cênico, política, comunicação e filosofia com a antropofagia, como uma das linhas condutoras de pensamento e sua atuação concreta nas catástrofes do antropoceno. O projeto da Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona em 2016, em parceria com a Petrobras, é a manutenção de sua sede e do núcleo transdisciplinar que atua neste espaço, num trabalho entre arquitetura e atuação.

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Teatro Oficina convida: vamos resgatar a democracia?

Nesta segunda, em São Paulo, “um grande coro libertário para a criação de novas formas de política”. Ou, em outras palavras, “a felicidade guerreira contra a manifestação apática dos patos”

Por Redação | Foto: Lenise Pinheiro

O teatro Oficina, ou Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, dirigido pelo celebrado José Celso Martinez Corrêa, reúne na noite desta segunda, 04.04, artistas de teatro, música, cinema, samba, artes visuais, poetas, escritores, cyberativistas, povos de terreiros, arquitetxs e urbanistas, povos indígenas, movimentos de cultura popular, jornalistas, estudantes e professores para celebrar a “felicidade guerreira contra a manifestação apática dos patos”.

A ideia é juntar na sede do grupo no Bixiga, criada pela consagrada arquiteta Lina Bo Bardi – a mesma que idealizou o Masp com seu imenso vão livre, teto de tantas manifestações populares – “um grande coro libertário para a criação de novas proposições políticas em direção à democracia”.

“Vamos nos unir no Teat(r)o Oficina, território de efervescência cultural, pra celebrar a reexistência da liberdade, do afeto e da diversidade, só possíveis em uma sociedade democrática de fato”, afirmam. “Em tempos de ódio, a onda golpista, de aspecto fascista, surfa na mídia hegemônica pra disseminar narrativas de combate à diferença, ao pensamento múltiplo, aos corpos livres, às minorias.”

A iniciativa, além do Oficina, é do Circuito Universitário de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes (Cuca, da UNE), União Estadual dos Estudantes de São Paulo, Cooperativa de Teatro Paulista, Cooperativa dos músicos de São Paulo e Universidade Antropófaga.

Serviço
Data: Segunda, 4 de abril
Horário: 20H
Local: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Rua Jaceguai, 520 – Bixiga

Teatro Oficina: especuladores sofrem primeira derrota

Oficina: obra de Lina Bo Bardi, foi considerado “o teatro mais bonito do mundo”. Especuladores querem cercá-lo com quatro torres de cimento, e privatizar área diante dele | Foto de Jennifer Glass

Auê na audiência pública que debateu privatização do entorno. Subprefeito atônito diante das críticas. Tecnocratas ensaiam recuo – sem concretizá-lo, porém

Por Hugo Albuquerque

Visivelmente constrangido, o subprefeito Alcides Amazonas foi encolhendo em sua poltrona, à medida em que ouvia as críticas – até que se retirou do recinto, meia hora após iniciada a audiência pública. Alguns assessores, galhardos, tentaram defender a proposta em debate. Inútil. Dezenas de intervenções, vindas de integrantes da sociedade civil, reduziram o projeto a seu real tamanho. Ficou claro que a “requalificação urbanística” (disponível aqui) pretendida pela prefeitura de São Paulo para a área em torno do icônico Teatro Oficina é o que parece ser: mais uma tentativa de privatizar o espaço público, entregando-o, a preços módicos, a grandes corporações. Ficou tão claro, aliás, que os representantes do poder municipal recuaram – ao menos em palavras. Das duas ameaças que pairam sobre o Oficina (leia texto de Zé Celso Martinez Corrêa), uma saiu combalida, da tarde da última quarta-feira, 3 de fevereiro.

A audiência fora convocada às pressas, pela subprefeitura da Sé (que administra a maior parte do centro de S.Paulo) em virtude da pressão popular surgida pela maneira pouco democrática de como o edital foi construído. O processo licitatório prevê uma concorrência entre empresas e/ou consórcios pela concessão de uso dos baixios do Viaduto Júlio de Mesquita, defronte ao teatro. São mais de 11 mil metros quadrados. Os interessados terão de desembolsar no mínimo 12 milhões de reais. Quem dispuser destes recursos poderá servir-se, por dez anos, de vasto território, em área “nobre” da cidade. O vencedor da concorrência terá direito à exploração comercial e gestão do espaço.

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Zé Celso alerta: Oficina e Bixiga ameaçados em SP

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Grupo Silvio Santos tenta erguer torres de cimento no terreno do teatro; e prefeitura leiloa baixos do viaduto em frente. Todo Espaço Urbano será entregue ao Capital?

Por José Celso Martinez Corrêa

Há 58 anos o Teat(r)o Oficina cultiva a cultura no número 520 da rua Jaceguay, no Bairro do Bixiga y seu entorno. Há 34 anos lutamos contra o massacre predatório da especulação imobiliária no bairro, baixado, incorporado, no capital do grupo Sisan, empreendimento imobiliário – braço armado da especulação imobiliária do grupo Silvio Santos.

A partir de 2010, quando o Teat(r)o Oficina foi tombado pelo Iphan, o próprio Silvio Santos colocou francamente a questão: “Já que a partir de agora, não podemos construir mais nada em nosso terreno, eu não desejo empatar o trabalho de vocês, nem quero que vocês empatem o nosso, proponho a troca do terreno de propriedade do grupo por um terreno da União do mesmo valor”.  Continuar lendo