“Cracolândia”: há seres humanos aqui

A socióloga Marina Mattar expõe os resultados surpreendentes de sua pesquisa no bairro paulistano. Ao lado da degradação, solidariedade e afetos. O Estado pode promover acolhimento ou barbárie. João Doria fez sua escolha.

Entrevista a Antonio Martins

TEXTO-FIM

O drama dos refugiados, segundo Zygmunt Bauman

Para o filósofo, europeus chocam-se porque temem estar, no futuro, na mesma condição dos que chegam às suas praias

Vale muito a pena assistir (e, quem sabe, traduzir), uma animação recém-produzida pela Al Jazeera. Com texto (e voz) do filósofo polonês Zygmunt Bauman, o filme (republicado acima) destaca um aspecto especial do drama dos refugiados do Oriente Médio, que estão chegando em ondas sucessivas à Europa.

Bauman destaca a incerteza, situação em que vivem contingentes cada vez maiores de europeus, acossados pelo desemprego e precariedade. Eles miram os refugiados e constatam que, dessa vez, já não se trata de pessoas que se acostumaram à fome e ao desabrigo. Não: quem bate à porta agora é gente que tinha casa, emprego, formação, família — e que foi subitamente desprovida destas condições.

Num mundo cada vez mais inseguro, nota o filósofo, os europeus se reconhecem nos desabrigados — e isso amplia ainda mais sua sensação de desamparo. Não há saídas imediatas, diz Bauman. Mas um ótimo começo será o possível acolhimento e reconhecimento mútuos. Se a sombra da precariedade é comum, a busca de soluções humanizantes e transformadoras também pode ser…

Retratos de uma Europa esvaziada

130818-Alemanha

Queda absoluta da população alemã e seu envelhecimento rápido expõem desmonte do estado de bem-estar social e rejeição a estrangeiros

Por Gabriela Leite

E se o Velho Continente estiver envelhecendo ainda mais? Ao que parece, isso está acontecendo. Pesquisas recentes apontam que a população da Alemanha, país mais populoso do continente, diminui progressivamente. Em 50 anos, deve chegar a 66 milhões — 19% menor do que a atual, de 81 milhões. O país, que é um dos mais ricos, além de líder político da União Europeia, não é o único. A Letônia e a Bulgária, por exemplo, estão em situação até pior. Mas, em meio à crise, estes não têm como fazer nada para reverter o processo — ao contrário dos prósperos alemães, que gastam 264 bilhões de euros por ano em subsídios às famílias.

Porém, estas medidas não têm sido tão eficientes quanto deveriam. O processo de diminuição da população, segundo artigo do New York Times, começou nos anos 1970, no lado capitalista do país, quando a taxa de natalidade caiu para 1,4 — número que se mantém. Demógrafos calculam que para uma população manter-se estável, esta taxa tem que ser de 2,1 filhos por casal. Subsidiar as famílias parece não estar sendo suficiente por questões mais complicadas: os valores e costumes alemães, como sua histórica falta de hospitalidade com estrangeiros.

Continuar lendo

“Deitaço” em São Paulo: arte contra segregação social

Coletivo de teatro convoca, para esta quinta-feira, protesto poético na Praça da Sé. Polícia reprimirá quem deitar sobre papelões, estando “elegantemente trajado”?

Por Bruna Bernacchio

A situação é comum desde o início da política segregacionista do prefeito Kassab, mas quem a testemunhou não foi qualquer: um grupo de teatro de cerca de 15 artistas, a Cia Autoretrato, que passou a frequentar o centro de São Paulo com mais intensidade, ensaiando uma peça de “criação urbana”, a ser apresentada na própria rua, no dia 12 de abril – a artista Ana Cris lembra bem desta data-, viram agentes da Guarda Civil Metropolitana, arrancando pertecences de moradores de rua – papelão, cobertores, e até bolsas com documentos. O coletivo até gravou vídeo, disponível no youtube.

No mesmo dia, foram até a Defensoria Pública, com o objetivo de realizar uma ação civil pública de denúncia. Tiveram uma reunião com advogados e descobriram que não eram os primeiros a fazer a mesma denúncia, de atitudes agressivas por parte de funcionários públicas. Desde então, estão dialogando com o órgão, exigindo que a instituição seja realmente denunciada e fiscalizada. Continuar lendo