Outra Política: Fala Douglas Belchior, candidato a deputado federal

A presença nos movimentos negros. Periferias e Lulismo. Segurança, tema incômodo. Anti-racismo: Igualdade ou Meritocracia? Mudar a política por dentro ou por fora?

Entrevista: Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

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Paulo Motoryn: Junho é a única saída

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“Feminismo, periferia e movimento negro devem reinventar a luta social no Brasil. É inadmissível que as direções de movimentos sociais e partidos ainda sejam compostas quase sempre apenas por homens, brancos, heterossexuais e ricos”

Por Paulo Motoryn


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

É preciso entender os retrocessos e a perda de direitos que estamos submetidos, mas é ainda mais importante reconhecer um novo ciclo de lutas que eclodiu em junho de 2013 e constituiu a única saída possível para o atual momento político. Dar a devida importância às Jornadas de Junho é fundamental para compreender as ocupações de escolas em todo o Brasil 2015 e 2016, o movimento feminista e seus levantes cada vez mais potentes e o surgimento de inúmeros coletivos auto-organizados de arte e mídia do centro às periferias.

Não se tratam de “novos sujeitos”, como certos acadêmicos tentam rotular. São lutas históricas, mas que agora ganham novas estratégias: se apropriam das novas tecnologias de comunicação, apostam em uma interessante disputa de valores estéticos e se organizam de forma menos vertical e autoritária que os partidos e movimentos sociais da esquerda tradicional. É necessário que essas experiências reinventem a luta social no Brasil. Continuar lendo

Teatro e dança para questionar os “produtivos”

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Foto: Raphael Poesia

Encenada na periferia de SP, após dois anos de pesquisa, peça vê na loucura uma das formas de rebeldia contra o controle e sujeição dos corpos, em nome de certa concepção de trabalho


“Sociedade dos Improdutivos”, da Companha Sansacroma
Até 10 de dezembro
Quinta à sábado 20h
Casa de Cultura M´Boi Mirim — Av. Inácio Dias da Silva, s/n, Piraporinha, São Paulo
(mapa) (11) 5514-3408
Entrada grátis (retire ingressos na bilheteria meia hora antes do espetáculo)

Apresentado agora na Casa de Cultura M’Boi Mirim, depois de circular por outros espaços públicos de São Paulo, o espetáculo Sociedade dos Improdutivos, da Cia. Sansacroma tem direção de Gal Martins e é o resultado de dois anos de pesquisa teórica e de campo sobre a loucura.

O questionamento central do espetáculo contrapõe o corpo que é socialmente invalidado ao corpo que é socialmente produtivo. O primeiro é marginal, portador de algum tipo de loucura. O segundo é medicado, incluído e sujeitado ao modo de vida capitalístico – corpo explorado até o esgotamento das suas capacidades produtivas.

Trata-se da invalidez da reprodução. Força invisível chamada de loucura, transcender coletivo. A não-adequação social produtiva. É solidão. É a história, um itinerário da loucura em fusão para um embate contra o capital. O controle ocidental contrapondo a corporeidade do imaginário africano. São vozes potentes, negras, de territórios e seus povoamentos. Um cotidiano dos que estão à margem e dos que não estão.  São vozes da “Sociedade dos Improdutivos”. Continuar lendo

Cine debate em SP: Ela Volta na Quinta

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“Outras Palavras” exibe, antes da estreia comercial, filme premiado de André Novais. Obra destaca-se por estética ultra-realista e por raro mergulho no quotidiano das periferias brasileiras

Por Gabriela Leite


Cine debate do filme “Ela Volta na Quinta”, de André Novais
Convidados: André Novais (diretor), Thiago Macêdo (produtor), Douglas Belchior (UNEafro Brasil) e Silvio de Almeida (Instituto Luiz Gama)
24/2, quarta-feira – sessão do filme às 19h, seguida de debate
Rua Conselheiro Ramalho, 945 – auditório
Entrada gratuita, sujeita a lotação da sala
Saiba mais aqui

A série de cine debates que Outras Palavras promove desde o ano passado será retomada nesta quarta-feira (24/2), com uma obra incomum. Ela Volta na Quinta, de André Novais será exibido em primeira mão e debatido pelo diretor, pelo produtor e por dois ativistas intensamente ligados às periferias das metrópoles brasileiras — Douglas Belchior e Sílvio de Almeida. O evento é possível graças à parceria entre o site e a Vitrine Filmes, distribuidora de importantes longas-metragens do cinema nacional como O Som ao Redor (de Kleber Mendonça Filho), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (de Daniel Ribeiro) e Branco Sai, Preto Fica (de Adirley Queirós) — este também exibido em Outras Palavras, no começo de 2015.

Ganhador de diversos prêmios como de Melhor Filme no X Panorama Coisa de Cinema – Salvador e Melhor Filme na VII Semana dos Realizadores – Rio de Janeiro, Ela Volta na Quinta será lançado no circuito comercial no final da semana. Traz semelhanças com Branco Sai, Preto Fica. O diretor vem de fora do eixo Rio-São Paulo — André Novais é mineiro, sócio da produtora Filmes de Plástico. O filme retrata uma família de negros, cujos pais estão em uma crise no relacionamento. Já do ponto de vista da narrativa, são diferentes: enquanto o filme de Adirley é fantasioso, Ela Volta na Quinta é muito realista. Em suas sequências, mais longas do que estamos acostumados a assistir no cinema, fatos muito cotidianos: irmãos assistindo a vídeos engraçados no YouTube; o pai, em seu serviço, fazendo uma entrega de geladeira… Continuar lendo

O que o samba pode te ensinar

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Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços

Por Stephanie Ribeiro, do site Alma Preta | Edição de Imagem: Vinícius de Almeida | Imagem: Elifas Andreato

(Um texto para o meu avô, que aos domingos
colocava um álbum do Martinho da Vila
e me tirava pra dançar)

Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.

São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:

“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.

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Nina Simone e a música como expressão dos direitos civis

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No rastro do documentário “What happened, Miss Simone”, vale refletir sobre vida, música e lutas da compositora negra que dizia: “É obrigação artística refletir meu tempo”  

Por Kauê Vieira, no Afreaka

O movimento dos direitos civis é um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos, concentrado principalmente em estados do sul do país, os fatos ocorreram entre 1954 e 1968 e foram uma forma de resistência da comunidade negra que exigia o fim da segregação racial imposta por supremacistas brancos. O objetivo era questionar e boicotar decisões claramente racistas, como as proibições sociais cotidianas impostas aos negros e os direitos cedidos apenas às pessoas brancas o que, na visão dos estrategistas do movimento, provocaria uma crise e consequentemente um diálogo com as autoridades. Continuar lendo

Uma janela antirracista contra a violência policial

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“Monumento às Bandeiras”, em São Paulo: pichado como denúncia sobre massacre de negros e índios, que acompanha Brasil desde a chegada dos europeus

Projeto de lei torna obrigatório investigar todos os crimes em que agentes da lei estejam envolvidos — e pode enfrentar cultura de impunidade que leva ao extermínio de negros  

Por Joselício Junior

Já algum tempo o movimento negro brasileiro vem denunciando as práticas racistas e autoritárias dos aparatos repressores do Estado em espacial da Policia Militar — da abordagem ao encarceramento, processos em que o Poder Judiciário também tem um papel decisivo — ou mesmo no assassinato, que hoje caracterizamos como um genocídio, devido à prática recorrente e sistemática.

Dialogando com militantes mais velhos do movimento negro, eles lembraram que a grande dificuldade, no período final da ditadura militar, é que as denuncias da violência policial eram feitas a partir basicamente dos discursos dos militantes — depoimentos, relatos das vítimas e dos familiares. Na década de 1990 a música rap e o movimento hip hop tornaram-se uma grande caixa de ressonância e denúncia da violência a que a juventude preta e periférica estava submetida.

Nos anos 90, passamos a ter a produção de dados estatísticos, como o Mapa da Violência, que deram ainda mais legitimidade ao discurso do movimento negro e provocaram o Estado para que tomasse medidas. Os dados, inclusive, apontaram uma diminuição na morte de jovens brancos e um aumento da morte dos jovens negros — hoje 70% das vítimas. Os números absolutos de mortes colocam o Brasil no topo, entre os país mais violento do mundo.

Outro elemento revelado pelas estatísticas são os inúmeros casos em que as mortes ficam sem explicação e os inquéritos são arquivados. Apontam, além disso, o uso recorrente dos mecanismos de “autos de resistência” ou “resistência seguida de morte”, por meio dos quais o policial alega que o homicídio foi cometido a partir de um possível confronto e que agiu em legítima defesa.

Com a disseminação das novas tecnologias, entre elas, celulares que fotografam, filmam e têm fácil acesso à internet — surge um novo componente importante de denúncia. Vídeos que circulam nas redes sociais acabam furando o bloqueio dos grandes meios de comunicação, desmentindo as versões policiais.

Casos como o da Cláudia que foi filmada sendo arrastada por uma viatura da Policia do Rio de Janeiro, ou do jovem que basicamente filmou a própria morte, a chacina no Jardim Rosana em São Paulo ou na Cabula em Salvador, entre vários outros casos que poderíamos citar, conseguiram minimamente desmascarar as versões oficiais.

A repercussão desses vídeos é tão poderosa que acaba forçando a velha mídia a dar vazão as essas denuncias e constrange os agentes públicos a tomar medidas. Sabemos que muitas das iniciativas são paliativas e que o policial é muitas vez a ponta de toda uma estrutura social punitiva, que não garante direitos plenos aos cidadãos e se utiliza da violência como medida de controle social, legitimada por uma cultura do medo, da “guerra às drogas” e ao crime.

Por outro lado, temos que aproveitar essas janelas para provocar uma agenda pública para discutir em profundidade a questão da segurança pública e buscar ações que sacudam as estruturas. Não podemos continuar convivendo com resquícios da ditadura militar como os Autos de Resistência. Neste sentido, é fundamental a aprovação do Projeto de Lei 4471 que prevê que todos os casos de morte motivados por intervenção policial sejam investigados.

A ONU já sinalizou reiteradas vezes que é contrária à manutenção de uma estrutura militar como modelo de segurança interna de nosso país — o que convoca a debater a desmilitarização da policia. O Congresso Nacional acaba, de aprovar nesse inicio de legislatura três novas CPIs — uma no Senado, para investigar a morte de jovens negros; uma na Câmara dos Deputados, de mesmo teor; e uma terceira também na Câmara para investigar o sistema carcerário brasileiro.

Sabemos que estamos diante de uma conjuntura bastante adversa, onde as forças conservadoras vêm ganhando espaço em diversos setores — sobretudo na representação política. Isso se combina com um governo federal fragilizado politicamente, enfrentando uma crise econômica com medidas que atacam os direitos dos trabalhadores e mantêm os privilégios do mercado financeiro, sem contar a escandalosa blindagem midiática ao tucanato, sobretudo no Estado de São Paulo, em relação ao sucateamento do estado nos últimos vinte anos.

Não resta outro caminho senão a luta nas ruas, nas redes, em torno de ideias e valores sociais e emancipatórios. A unidade na ação dos movimentos deve estar na ordem do dia, o diálogo e incorporação dos novos atores sociais, suas formas de organização e tecnologias também devem compor nossa atuação. Acredito ser um momento oportuno para a construção de uma agenda pública antirracista que caracteriza a natureza racista do Estado Brasileiro, que escancare o debate da violência, que abre canais substantivos de melhoria da qualidade de vida da população negra que permanece em profunda desigualdade em relação aos não negros e apontem para mudanças na estrutura de poder em nosso país que passa por uma reforma política, democratização dos meios de comunicação, reforma urbana e agrária e tantas outras medidas necessárias.

Racismo e Sexismo na Mídia: uma questão ainda em pauta

É necessário tratar a discriminação perpetuada pela velha mídia. Muitas pessoas já estão questionando há algum tempo esse modelo de comunicação hegemônico

Entre os dias 29 de novembro e 1º de dezembro, foi realizada a oitava edição do seminário A Mulher e Mídia — Racismo e Sexismo na Mídia: uma questão ainda em pauta. Sua programação contou diversas discussões que ainda deixam as pessoas, de um modo geral, sem tantas possibilidades de intervenção, apesar de ser, sempre, com relação ao direito à comunicação e o racismo e sexismo, assuntos polêmicos.

Antes de falar de coisas mais formais, quais foram as instituições organizadoras, por exemplo, digo que apesar de trabalharem com algo diretamente ligado à comunicação, o seminário não contou com formas de divulgação em tempo real, como conexão à internet para os participantes, algo que seria fundamental para disseminar para mais pessoas o que estava sendo tratado. Se assim fosse, os conteúdos poderiam ser postados nas redes sociais com o link da transmissão ao vivo que estava sendo feita.

Realizado pelo Instituto Patrícia Galvão, Secretaria de Políticas para as Mulheres, Secretaria de Promoção de Políticas da Igualdade Racial, Fundação Ford e ONU Mulheres, com apoio do BNDS. Como um todo o processo contou com mais ou menos cento e quarenta participantes selecionadas (os) de 25 estados.

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