Análise: o que diz o novo Datafolha

Não há um furacão Bolsonaro. Marina está muito debilitada, mas Alckmin não. Ciro e Haddad têm enorme espaço para crescer – desde que evitem, na reta final, a tentação da disputa fratricida. Será possível?

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

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O poder econômico flerta com o fascismo

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes — que já assessorou Augusto Pinochet…

Como uma parcela crescente do mercado financeiro está voltando as costas para Alckmin e bandeando para o candidato que defende a tortura e a ditaduras

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

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Acabou a brincadeira: a campanha eleitoral começou para valer. Ontem à noite, o Jornal Nacional divulgou uma nova pesquisa do Ibope, de intenções de voto, mas os mercados financeiros sentiram o golpe hora antes. O dólar subiu mais 1,07% e atingiu R$ 3,96 – o valor mais alto em dois anos. Os investidores reagem aos sinais de que Lula mantém enorme popularidade e de que Geraldo Alckmin estacionou num patamar muito baixo – próximo aos 5%. Temem, em especial, uma outra pesquisa, da Confederação Nacional dos Transportes e do instituto MDA, segundo a qual Fernando Haddad já chega a 15%, quando se aponta aos eleitores que é o candidato de Lula.

Os sinais de que o programa de contrarreformas do golpe, muito favoráveis ao poder econômico, é antipopular e pode ser derrotado estão provocando um forte movimento entre os banqueiros e empresários. É algo que pode alterar profundamente o cenário eleitoral. Uma parte dos mais ricos começou a bandear claramente para o lado do ex-capitão Jair Bolsonaro, e a abandonar seu candidato natural, Geraldo Alckmin, do PSDB. A este movimento corresponde uma mudança de planos do deputado, que se aproxima das elites e adota posições cada vez mais distantes do nacionalismo, que ele fingia expressar.

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O golpe condenado também na Alemanha

Para Herta, ""O Judiciário brasileiro concentra-se na politização e não em métodos jurídicos e no Estado de Direito para eliminar adversários políticos, e proteger os interesses das elites"

Para Herta Däubler-Gmelin, “Judiciário brasileiro concentra-se na politização e não em métodos jurídicos e no Estado de Direito, ao eliminar adversários políticos, e proteger interesses das elites”

Na Universidade Livre de Berlim, ex-ministra da Justiça, Herta Däubler-Gmelin encontra-se com Dilma e tece duras críticas ao Judiciário brasileiro

Por Mario Schenk, do Amerika21, em Berlim

Com palavras diretas, a jurista e ex-ministra alemã da Justiça da Alemanha definiu como “injustificável” o Impeachment sofrido por Dilma Rousseff e chamou o processo em andamento contra o ex-presidente Lula de “escândalo”.

“Iniciativas contra a corrupção foram introduzidas particularmente no governo de Rousseff”, argumentou Däubler-Gmelin. Entretanto, o país vive agora uma “terrível reviravolta política e social”, acrescentou.

Däubler-Gmelin, que comandou o Ministério alemão da Justiça entre 1998 e 2002, criticou a politização do Poder Judiciário brasileiro pela falta de independência, parcialidade, além da manipulação de testemunhas, fatos e o tratamento dispensado aos acusados como aspectos que deixam dúvidas sobre um “julgamento justo” de Lula.

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Bolsonaro: fascismo à moda do 1%

A oligarquia financeira volta-se para o candidato favorável ao fechamento do Congresso e à tortura Que cenário torna isso possível? Como reagir?

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

Os monstros surgem nos interregnos – quando o velho ainda não sucumbiu e o novo não nasceu completamente –, escreveu Antonio Gramsci, em meio à ascensão de Mussolini. O árduo cenário brasileiro foi marcado, esta semana, pelo fortalecimento de Jair Bolsonaro, o candidato fascista às eleições de 2018. Ele está neste momento nos Estados Unidos. Anima reuniões de direitistas de churrascaria, homens de acaju e loiras de farmácia que o chamam de “mito”. Mas não viajou para isso. Terá, em Boston e Nova York, encontros com grandes investidores. O homem que defendeu o fechamento do Congresso e a tortura; e que continua dizendo, aos fanáticos de Miami, que dará carta branca aos policiais para matar, está se convertendo numa opção firme dos mercados financeiros – que alguns veem como muito sofisticados – para governar o Brasil. Como isso é possível? E quais os caminhos pra enfrentar Bolsonaro?

O avanço do ex-capitão, afastado da ativa do Exército por deslealdade, seria impossível em todas as eleições anteriores. Deriva do descrédito em relação à velha política. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, divulgado nesta segunda-feira (9/10), mostrou que mais de 78% dos eleitores não confiam nos políticos, nem nos partidos. Além disso – e mais importante – o percentual dos que preferirão, nas próximas eleições, “votar num candidato fora da política tradicional” é mais de 50% maior do que o daqueles que votarão como sempre.

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A ambiguidade de Safatle e a do Brasil

O artigo mais recente do filósofo pode sugerir tanto derrotismo quanto apelo à rebeldia e mobilização. É, nesse sentido, um espelho do cenário brasileiro

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

“Não haverá 2018”, escreveu no final da semana passada, num artigo na Folha de S. Paulo, o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle. A sentença repercutiu intensamente, em meio a uma atmosfera política já marcada pelo pessimismo. Mas a leitura cuidadosa do texto mostra que ele permite duas interpretações muito distintas – e até mesmo contraditórias – entre si.

A primeira interpretação é a mais óbvia e – é pena – a que tem sido mais frequentemente adotada. Ela conduz ao derrotismo, à desmobilização. Sugere que sofreremos uma enorme derrota política em breve e não há o que fazer diante dela – “não haverá 2018”. Os golpistas não quebrariam a legalidade, nem adotariam sua vasta agenda de retrocessos, argumenta Safatle, para entregar o poder de mão beijada. O golpe e seus horrores se prolongarão. A luta tornou-se vã. Continuar lendo

A tática do “vai passar”

Também a esquerda parece atônita com a Lista de Fachin – e cala-se, esperando a tempestade passar. Não vai dar certo, e há uma alternativa

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

Ontem, sob o choque que se seguiu à divulgação da Lista de Fachin, Brasília reduziu-se a um deserto – agora, não apenas de ideias, mas também de presença física. Câmara e Senado ficaram às moscas. Projetos cruciais da agenda de retrocessos – como o que obriga os Estados a promoverem privatizações e ajustes fiscais – não foram adiante.

Mas a paralisia atinge também a esquerda institucional. As principais lideranças do PT e PCdoB calaram-se. Os sites destes partidos, também. Nada falam do envolvimento, em denúncias graves de recebimento de propina, de todos os ministros importantes do governo Temer e de todos os caciques do PSDB. Estão silenciosos por um motivo óbvio: as delações também os atingem. Por isso, esperam a tempestade passar. Segundo especulações da mídia, aliás, Lula, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer têm se articulado, pessoalmente ou per meio de intermediários, para tentar algo que “salve a classe política”. Continuar lendo

Raduan Nassar insurge-se contra PEC da Desigualdade

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Lula com Raduan Nassar e alunos e professores do campus Lagoa do Sino da UFSCar | Fotos: Ricardo Stuckert

Escritor doou campus à UFSCar e teme que área seja privatizada, em função dos cortes no orçamento social. Ele avisa: nesse caso “será aberto grave litígio, por contrariar frontalmente objetivos da doação”

Em seu sítio em Buri, SP, o escritor Raduan Nassar recebeu para almoço, no dia 1º/11, o ex-presidente Lula, com o objetivo precípuo de visitar o Campus Lagoa do Sino – UFSCar, instalado na fazenda doada por ele ao governo federal, quando fez importante pronunciamento, acabando ovacionado por centenas e centenas de presentes.

Lula, em exercício em 2010, aceitou prontamente a doação, sem titubear um instante sequer, doação formalizada por escritura pública em 3 de fevereiro de 2011, tendo à época como Ministro da Educação o atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. A doação incluiu mais de 3.500 m² (três mil e quinhentos metros quadrados) de área construída, três pivôs centrais, quatro silos armazenadores, dois secadores de grãos, sistema de secagem a gás, maquinaria compreendendo: colhetadeira, tratores, pulverizadores, e muitos outros implementos. Continuar lendo

Lula, nem preso, nem livre

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Há anos, Noam Chomsky cunhou o termo “unpeople” (“não-pessoas”) para designar os que o poder global quer esquecer. É assim que a elite brasileira agora trata o ex-presidente

Por Antonio Martins

Os abusos e ilegalidades cometidos por Sérgio Moro contra Lula foram tantos e tão graves que, agora, até mesmo os velhos jornais brasileiros [para os internacionais, clique nos links 1 2 3 4 5 6] enumeram as arbitrariedades do juiz – reconhecidas, aliás, por diversos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A coerção para depor, em 4/03 era incabível, porque não foi precedida de uma convocação. Na interceptação das conversas telefônicas, e em sua divulgação, as irregularidades, todas de caráter criminoso, acumulam-se. Os diálogos envolvendo a presidente da República precisam ser remetidos ao STF. As gravações relacionadas aos fatos investigados devem ser mantidas nos autos, mas em sigilo (foram escancaradas por Moro). O juiz deve destruir as conversas privadas (e não entregá-las os jornais). Depois de tantas violências, seria de esperar que a mídia defendesse reparação ao ex-presidente – ou, no mínimo, o fim das perseguições.

Só que não. Experimente ler os sites ligados à Folha, Estado, O Globo e Editora Abril ou, pior, ouvir os noticiários da TV. Por dias, todos reproduziram, incansável e espetaculosamente, as gravações ilegais, sempre editadas contra Lula. Foi como se, a cada 24 horas, se produzisse um episódio de manipulação semelhante ao do debate presidencial que, em 1989, levou Collor ao poder. Agora, todos os noticiários alimentam a expectativa pela prisão de Lula. O ato absurdo do ministro Gilmar Mendes, que devolveu o ex-presidente a Moro, é visto como natural. Assim como as negativas ou delongas de colegas de Gilmar [1 2 3], para conceder o habeas corpus que proibiria uma prisão arbitrária. Continuar lendo

O quebra-cabeças político de Lula

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O primeiro ato – denunciar as arbitrariedades e o caráter elitista da Lava Jato – ele fez com maestria. Mas para prosseguir, terá de enfrentar as contradições de seu próprio projeto político

Por Antonio Martins

Certos gestos políticos têm a capacidade de transformar cenários. Até sexta-feira, o Brasil vivia o pesadelo de uma intensa ofensiva conservadora. As ações policiais da Operação Lava Jato eram complementadas, no Congresso, pela tentativa de impor, sem debate algum com a sociedade, uma vasta pauta de retrocessos. Esta agenda era comandada por parlamentares (Renan Calheiros e Eduardo Cunha, especialmente) implicados até o pescoço nas próprias investigações da operação. Agiam sem constrangimento algum da mídia – o que expõe o caráter hipócrita da suposta cruzada moralizadora. O governo Dilma, incapaz de iniciativa e interessado apenas em preservar o mandato da presidente, havia passado a colaborar com as medidas regressivas, imaginando talvez ser premiado com um gesto complacente dos que a pressionavam com o impeachment.

Todo este quadro está em questão, desde que Lula recusou o papel acovardado que alguns esperavam dele e denunciou não apenas a violência ilegal de que fora vítima — mas também o que descreveu como conspiração das elites para evitar que volte à Presidência e amplie sua obra em favor das maiorias. A resposta a seu gesto foi uma radicalização em três frentes, claramente desenhada no fim de semana. Primeira: as lideranças da oposição decidiram alterar sua postura no Congresso. Ao invés de manter o esforço para aprovação de sua pauta, que avançava com aval do governo, decidiram obstruir os trabalhos, para tentar mostrar que o país tornou-se ingovernável. Segunda: a chamada “força-tarefa” de delegados, promotores e juízes que conduz a Lava Jato produziu uma sequência impressionante de vazamentos de informação, voltada contra Lula. O último deles, nesta segunda-feira, já não esconde a intenção. Deseja-se encontrar, onde for possível, um artifício que bloqueie a candidatura do ex-presidente em 2016. Terceira: Jornais, revistas semanais e noticiários da TV também tornaram-se mais agressivos contra Lula, algo especialmente nítido no Jornal Nacional nas capas de Veja, IstoÉ e Época.

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