Eu avisei!, dizem Ciências Humanas sobre crise nos transportes

Caminhões fecham a Rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, 25 de maio

Ao contrário da maioria da população, pesquisadores já sabiam quanto poder o petróleo tem, nas condições atuais, sobre funcionamento da vida cotidiana

Por Antonio Gomes

A pesquisa acadêmica é, para nós das Ciências Humanas, um trabalho muitas vezes ingrato.

Não importa o quanto nos dediquemos, passando horas a fio queimando os miolos em uma biblioteca, discutindo interminavelmente nos grupos de estudo ou pensando em nossos temas de pesquisa no travesseiro antes de dormir: invariavelmente, somos questionados (inclusive por nós mesmos) sobre o sentido de passar anos vivendo de parcas bolsas para escrever um trabalho que possivelmente vá ficar “empoeirando em uma prateleira de biblioteca sem que quase ninguém o leia”.

Mais do que isso, somos acusados de “viver às custas do governo”, “torrando” dinheiro público em pesquisas “sem utilidade alguma” enquanto faltam remédios nos hospitais e livros nas escolas, e também nos acusam de viver em um mundo de fantasias, de teorias e conjecturas que “só existem em nossas cabeças”, enquanto a suposta “realidade” da vida prática seria mais simples e menos “metida a besta”.

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TEXTO-FIM

De Junho de 2013 a Maio de 2018

Quais as semelhanças entre estes momentos recentes e aparentados? Primeiro, a sensação difusa de insatisfação que se difunde rapidamente

Por Fran Alavina

Com a greve dos caminhoneiros formou e se alastrou uma babel político-midiática na qual entender o que está ocorrendo e escolher uma posição sensata tornaram-se tarefas das áridas. Em alguns setores à esquerda, as tentativas de compreensão são as mais diversas e diante das dificuldades de um entendimento mais profundo se tende a cair na polarização simplista: ou se é totalmente contra, ou completamente favorável; ou é grave de classe trabalhadora, ou paralisação de interesse patronal. Enquanto isso, grupos à direita agem de forma semelhante ao que fizeram em um passado recente. Assim, estamos ante um quadro político-social que cada vez mais ganha traços semelhantes ao que ocorreu em junho de 2013.

Nesse ponto do texto sei que grupo de leitores, defensores ferrenhos das jornadas de junho de 2013 já estão armados para defender atacando. Mas quando me refiro aqui a junho de 2013 aponto para aquilo em que se transformaram as jornadas: na criação da massa informe que direcionada para a negação das mediações políticas foi o terreno propício para o surgimento das massas protofascistas vestidas com o uniforme da CBF. Não por coincidência a frase de 2013 “vem pra rua” virou slogan e marca registrada de um dos movimentos verde-amarelo.

De fato, no corpo político e no tecido social, semelhanças não são simples coincidências e as similaridades não são meras repetições ocasionais. Ora, quais são então as semelhanças entre estes momentos recentes e aparentados? . Ontem, o aumento na tarifa de ônibus; hoje, o aumento no preço dos combustíveis. Evidentemente que os agentes catalisadores nas duas ocasiões são bem diferentes, porém o âmbito é o mesmo: mobilidade e circulação. Isto é, trata-se de algo que atinge diretamente o cotidiano da população.

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Caminhoneiros: Governo ensaia recuo. Esquerda permance ausente

Recurso às Forças Armadas parece fracassar. Balança uma das políticas essenciais de Temer. Porém, enorme potência rebelde da mobilização segue desperdiçada

Por Antonio Martins

I.
Tudo é móvel e pode se desfazer rapidamente nos momentos de crise aguda, mas a tendência principal, na manhã deste domingo (27/5) é um novo recuo do governo Temer, diante da paralisação nacional dos caminhoneiros. A forma em que ele poderá se dar foi ensaiada ontem à noite, em São Paulo. Sob mediação da OAB o governador Márcio França reuniu-se com lideranças da categoria em luta. Do encontro, saiu um pré-acordo, a ser levado aos bloqueios nas rodovias. Ele implica novas concessões por parte do Estado. O congelamento do preço dos combustíveis seria ampliado para 90 dias. O Procon fiscalizaria, nos postos, sua efetivação. Haveria importante redução nas tarifas dos pedágios, com o fim da cobrança pelos “eixos suspensos” (que significa ausência de carga) dos caminhões. Seriam anuladas todas as multas aplicadas. Os caminhoneiros autônomos passariam a ter representação na Agência de Transportes estadual.

Ficou claro, no encontro, que não se trata de acordo — mas, por enquanto, de sondagem. As primeiras reações, entre os caminhoneiros, foram contraditórias. Ainda assim, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, foi chamado às pressas, para participar de sua celebração. Declarou não apenas que concorda com os termos negociados mas também que proporá, a Michel Temer, sua adoção pelo governo federal. Afirmou que “os caminhoneiros já são vitoriosos”. Um novo encontro, no Palácio dos Bandeirantes, está marcado para as 15h de hoje.

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