A igreja católica devastada pelos conservadores

Um jornalista dedicado ao exame do catolicismo relata: Papas João Paulo II e Bento XVI perseguiram Teologia da Libertação, afastaram milhões de fiéis e criaram uma instituição submissa ao poder

Mauro Lopes entrevistado por Antonio Martins

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A igreja católica devastada pelos conservadores

Um jornalista dedicado ao exame do catolicismo relata: Papas João Paulo II e Bento XVI perseguiram Teologia da Libertação, afastaram milhões de fiéis e criaram uma instituição submissa ao poder

Mauro Lopes, entrevistado por Antonio Martins

Francisco: um passo a mais — em silêncio

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Em sua viagem de maior carga emocional, Papa homenageia humilhados pelo capital e fustiga os que se aproveitam da desigualdade crescente. Como era de esperar, jornais calaram-se…

Por Mauro Lopes

Foi a visita com maior carga afetiva-emocional e aquela na qual ele mais explicitou, com palavras e gestos, o desejo de retorno da Igreja à originalidade dos primeiros tempos — uma Igreja pobre com os pobres.

O ato final da visita talvez não tenha sido compreendido em sua verdadeira dimensão: o Papa escolheu Ciudad Juarez, na fronteira entre o México e o Império e, num gesto profético de denúncia e desafio, abençoou as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos durante o que parecia ser uma travessia para uma vida melhor.

O Papa, como o Cordeiro do livro do Apocalipse, o último da Bíblia, confronta-se com a Babilônia, a Roma dos tempos que escorrem. Não é à toa que fez, no México, a mais dura condenação aos ricos em seu tempo como Papa, ao dizer que eles prestarão contas sobre as fortunas construídas sobre o sangue e o suor e as lágrimas das pessoas; e, no avião de volta ao Vaticano, deixou claro que, para ele, Donald Trump não pode ser qualificado de cristão, por ser alguém que só tem projetos para construir muros a separar (como o muro entre os EUA e o México en Ciudad Juarez), muros de concreto e de ódio.

Francisco volta a provocar hierarquia católica

Sob olhar desconfiado: não se sabe ainda que resultado terão polêmicas abertas por Francisco, mas sua disposição renovadora é evidente

Sob olhar desconfiado: não se sabe ainda que resultado terão polêmicas abertas por Francisco, mas sua disposição renovadora tornou-se evidente no país dos milionários “Legionários de Cristo”

Em discurso surpreendente aos bispos mexicanos, Papa amplia polêmica contra Cúria romana e fustiga conservadorismo, fascínio pela riqueza e espírito burocrático encravados na igreja

Por Mauro Lopes, editor do site Caminho pra Casa

O discurso do Papa para os bispos mexicanos neste sábado foi surpreendente — mas Francisco não se cansa de surpreender. A chave de leitura para compreender o que ele disse ao episcopado mexicano é o seu duríssimo discurso à Cúria romana no fim de dezembro de 2014 quando denunciou as 15 doenças curiais (mexericos, carreirismo, oportunismo, acúmulo de riquezas, indiferença em relação às pessoas, perda do “primeiro amor” pelo seguimento do Cristo, Alzheimer espiritual e outras). Se quiser lembrar ou conhecer um discurso histórico e inédito de um Papa à burocracia vaticana, clique no link clicando aqui.

Um leitura combinada das duas manifestações do Papa indica claramente seu antagonismo com a hierarquia da Igreja, que, a partir da cúria romana, insurgiu-se contra o espírito do Vaticano II desde o primeiro momento, ainda nos anos 1960. Tal espirito foi contido por Paulo VI – João Paulo I acompanhava o passo de João XXIII e Paulo VI, mas sua morte, 33 dias depois de eleito (em agosto de 1978) interrompeu o caminho do espírito conciliar.

O conservadorismo prevalecente na cúpula da Igreja no Vaticano e, de uma maneira geral, ao redor do planeta, com exceções que confirmam a regra (como a Alemanha e, agora, a Espanha) não foi obra do acaso ou apenas do “espírito da época”.  Durante mais de 30 anos, as nomeações de bispos e cardeais obedeceram a três lógicas: 1) rigorismo (seguimento às regras e normas e não ao espírito do Evangelho); 2) conservadorismo político e social (afastamento dos pobres); e 3) visão institucional da Igreja (olhar para dentro e submissão à burocracia eclesial). A atual cúpula da Igreja é obra de construção metódica e obstinada, feita por corações e mentes alinhados com uma visão particular do cristianismo. Continuar lendo

Encontro histórico em Havana

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Reunidos pela primeira vez em mil anos, Papa e Patriarca ortodoxo atacam desigualdade e ordem global dominada por potências ocidentais. Prepare-se: velha mídia omitirá sentidos da declaração

Por Mauro Lopes

O documento assinado pelo Papa e o Patriarca russo supera qualquer expectativa. Difícil avaliar sua dimensão assim numa primeira leitura, mas vale destacar alguns pontos:

1. Uma visão sobre Cuba que é absolutamente profética. Francisco e Kiril colocam a pequena ilha como uma referência a ser considerada pelo mundo: “O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.”

2. O reconhecimento aberto do passado de separação entre as duas igrejas numa linguagem que foge ao “não dizer” diplomático e fala ao coração com um sincero desejo de reunião. Depois deste encontro, com suas identidades respeitadas, católicos e ortodoxos andarão lado a lado, sem desejos mal escondidos de supremacia de um sobre o outro.

3. A carta mexe com o cenário político mundial. Além da referência a Cuba, há um convite claro a um protagonismo da Rússia no cenário do Oriente Médio. Continuar lendo

Visita do Papa: os primeiros balanços

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Declarações de tolerância em relação aos gays repercutem em todo o mundo. Gilson Caroni vê sagacidade do pontífice, na entrevista à Globo

Que uma modernização real da igreja católica, sob Papa Francisco, é altamente improvável, o filósofo Toni Negri já argumentou, com razões de sobra, ainda antes da eleição do pontífice. Talvez as análises sobre o papel de Jorge Mario Bergoglio não devam focar neste ponto, superado — e sim no que ele, como expressão de um poder ainda influente, na ordem geopolítica do mundo, pode representar. É o que sugerem, entre outros, Immanuel Wallerstein.

A partir deste prisma, é possível ver sinais positivos, na primeira viagem internacional importante de Francisco, concluída este fim de semana, no Brasil. Num momento em que as ameaças do fundamentalismo religioso são cada vez mais graves, tiveram enorme repercussão as palavras amenas do papa em relação aos homossexuais: “se alguém é gay e procura Deus de boa vontade, quem sou eu para julgar?”. Veja, por exemplo, as matérias de hoje no Página12, The Guardian, Le Monde, ElPaís e New York Times — todas destacando este aspecto da última entrevista concedida por Francisco.

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