Iraque: depois dos EUA, o nacionalismo?

Nem EUA, nem Irã, sugere o clérigo xiita, vencedor das eleições. Com ele, o Partido Comunista

O fim de semana também foi marcado por eleições parlamentares no Iraque. Venceu a coalizão liderada pelo clérigo xiita Muqtada al-Sadr — que inclui, entre outros, o Partido Comunista. Al-Sadr é conhecido por opor-se à presença norte-americana no país, mas também à crescente influência iraniana. Sua vitória, porém, não foi completa. Num país fragmentado políticamente, sua coalizão obteve 54 das 329 cadeiras no Parlamento. Negociações para formar um novo governo — em até 90 dias, segundo a legislação do país — começaram ainda ontem.

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Venezuela: Maduro vence as eleições, mas não a crise

Abstenção superou os 50%. EUA e seus aliados internos parecem dispostos a inviabilizar o país

Ao final da noite de ontem, com 92% dos votos para a Presidência contados, as autoridades eleitorais venezuelanas anunciaram que o presidente Nicolás Maduro havia assegurado um novo mandato, de 5 anos. Maduro (Partido Socialista Unido da Venezuela — PSUV) teve 5,8 milhões de votos (68%), contra 1,8 milhões de Henri Falcón, um ex-chavista que concorreu pelo Avanço Progressista. “Quanto nos subestimaram. Quanto me subestimaram. E no entanto, estamos aqui, vitoriosos”, disse o presidente reeleito a seus correligionários. (veja matérias no New York Times, Le Monde e Russia Today)

No entanto, certas características do pleito indicam que a divisão política do país (e a crise econômica duradoura que a acompanha) não terminarão tão cedo. A maior parte da oposição já boicotara as eleições; e ontem, o próprio Henri Falcón considerou-as ilegítimas. Os Estados Unidos, previsivelmente, fizeram o mesmo. Os opositores do chavismo obtiveram algum sucesso: o comparecimento dos eleitores às urnas foi reduzido: apenas 46,1% votaram.

Em artigo publicado por Outras Palavras, na sexta-feira, o analista político norte-americano (de esquerda) Alexander Main, formula uma hipótese perturbadora para a tática de Washington e dos grupos venezuelanos aliados aos EUA. Talvez pudessem ter vencido o pleito, caso estimulassem a ida às urnas; mas querem, mais do que estar no governo, inviabilizar o país, dono das maiores reservas de petróleo do planeta — como fizeram, por exemplo, com a Líbia.

Como os EUA depredam a economia dos emergentes

Política protecionista de Trump combinada com elevação da taxa de juros pretende novo desenho na economia mundial, com prejuízos brutais para os países subdesenvolvidos e emergentes

Por André Galhardo*

Os impactos das guerras comerciais que se instalaram podem ser inúmeros e potencialmente destruidores. Não que na era pré-Trump não houvesse fortes disputas comerciais. Para nos aproximar de um assunto que tem se tornado o eixo central do novo protecionismo dos Estados Unidos, é importante ressaltar que foram abertos 41 processos de investigação de dumping junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) só tratando sobre aço, em 2015 — contra 23 em 2012 e 2013.

O assunto em si não é novo. Representando quase um quarto do PIB mundial, as trocas de mercadorias entre os países são constantemente alvo de disputas judiciais e discussões que fazem estremecer as relações diplomáticas dos protagonistas de um conflito comercial. O fato é que, desta vez, levando em consideração a excentricidade de Donald Trump, a situação parece um pouco mais delicada.

Nos últimos dois anos (2016 e 2017) os Estados Unidos realizaram um déficit comercial da ordem de US$ 1,56 trilhão. No mesmo período, o déficit mensal médio foi de US$ 65 bilhões. Resultado que foi parcialmente suavizado pelos recorrentes superávits nos intercâmbios de serviços. Não é pouca coisa e, apenas para dimensionar o que são US$ 1,56 trilhão, vamos converter isso ao Real (R$), usando a cotação comercial de 23 de março, R$ 3,31. O resultado é de R$ 5,18 trilhões, quase tudo o que o Brasil demora um ano para produzir.

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Como os soldados-robôs tornarão as guerras mais devastadoras

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Máquinas não comandadas por humanos estão sendo desenvolvidas em potências bélicas para atuar no lugar de combatentes; organizações humanitárias preocupam-se com possível cenário

Por Mariana Gonçalves*

Os sistemas de armas autônomas são tecnologias desenvolvidas para buscar, identificar e atacar alvos num conflito armado sem nenhuma intervenção de um operador humano. Sem alguém que a comande para agir, o sistema pode aprender a adaptar seu funcionamento de acordo com as circunstâncias em que é posto, a partir de algoritmos e programas que lhe são registrados.

Essa tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento, e armas desse tipo ainda não foram levadas aos campos de batalha. Os principais países que têm estudado e buscado aprimorar esses robôs são Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e Israel, querendo reforçar seu potencial militar. Apesar de as armas mais avançadas ainda não existirem, sistemas autônomos mais básicos, como drones capazes de selecionar e mirar alvos, já foram levados a batalhas no Iêmen, por exemplo. O tema está no centro de debates e pesquisas da área, e é possível que se torne uma característica da guerra no futuro.

Defensores desses sistemas argumentam que, além de poupar vidas de combatentes, os sensores sofisticados e a inteligência artificial empregada pelas máquinas as torna melhores que os humanos na hora de identificar objetivos militares para atacar, evitando danos não intencionais (à população civil, por exemplo) num conflito. Outra vantagem é que as armas não seriam influenciadas por emoções negativas como medo, raiva ou desejo de vingança.

Ainda não há consenso, no entanto, sobre a capacidade dessas armas de fazer avaliações complexas e dependentes de contexto durante as ações. Algumas questões que levantam dúvidas dizem respeito à sua competência para diferenciar objetivos militares de bens de caráter civil e para alterar, cancelar ou suspender ataques quando é evidente que seus danos serão desastrosos. Uma máquina também não teria emoções positivas, como a compaixão.

. Por que essas armas podem ser um problema

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EUA à beira de nova onda macartista

O senador norte-americano Joseph McCarthy, que liderou nos anos 50 onda de histeria anticomunista. Ela resultou em perseguições a intelectuais, jornalistas e políticos acusados de simpatia pela União Soviética ou de homossexualismo

O senador norte-americano Joseph McCarthy, que liderou nos anos 50 onda de histeria anticomunista. Ela resultou em perseguições a intelectuais, jornalistas e políticos acusados de simpatia pela União Soviética ou de homossexualismo

Como há 60 anos, país procura na Rússia bode expiatório para seus problemas internos. Editor de “The Nation” demonstra, ponto a ponto, inconsistência das alegações sobre “interferência de Moscou”

Você acredita nas “matérias” e comentários cada vez mais frequentes na velha mídia, segundo as quais Putin aliou-se a Trump para influenciar as eleições norte-americanas? Então leia, por favor, um artigo (http://bit.ly/macartismo) publicado há uma semana, em The Nation, por Stephen Cohen, editor associado à revista e professor emérito das universidades de Princeton e Nova York. Abismado com o volume gigantesco de propaganda anti-russa nos jornais e sites norte-americanos (inclusive “alternativos”), Cohen concentra-se em dois pontos.

Primeiro, ele desconstroi, um a um, os seis “argumentos” que supostamente “demonstrariam” a aliança. Trump fez elogios a Putin? Saiba, então, o que Roosevelt falou de Stálin, e o que Bill Clinton disse de Boris Yeltsin — inclusive comparando-o (favoravelmente…) a George Wasgington e Abrahan Lincoln. Hackers russos ligados ao Kremlin invadiram o servidor de emails do Partido Democrata? Fora a lenda, não há evidência alguma a este respeito — e sobram sinais de que as mensagens comprometedoras a Hillary Clinton foram vazadas por gente de seu entorno, ou pelas agências de espionagem dos próprios EUA.

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Outro Brasil: A opção pela América do Sul

Celso Amorim explica: só superaremos condição subalterna resolvendo conflitos artificiais com nossos vizinhos. O projeto do Espaço Econômico Sulamericano. Por que os ataques conservadores ao “bolivarianismo” são risíveis. Trapalhadas e grosserias de José Serra

Entrevista a Antonio Martins (segmento 2)

[Este é o primeiro vídeo temático produzido a partir da entrevista de Amorim a “Outro Brasil” — um programa feito em parceria por Outras Palavras e o Canal Mova. A íntegra da entrevista (1h20) está aqui. A primeira parte, sobre o lugar do país no mundo, aqui. Acompanhe a assine, também, nosso canal no YouTube.]

 

Nice: a “Guerra ao Terror” fracassou

Como as potências ocidentais participaram diretamente da criação da Al-Qaeda e do ISIS. Por que a restrição às liberdades e novos bombardeios fortalecem o fundamentalismo e deixam populações desprotegidas. Quais as alternativas

Por Antonio Martins | Edição de vídeo: Gabriela Leite

A década de 2010, que começou com o frescor da Primavera Árabe e as rebeliões dos Indignados e Occupy, pode converter-se em retrocesso e tragédia globais. Os fundamentalismos alimentam-se reciprocamente, numa espiral descendente que destrói vidas e liberdades – e, pior, pode comprometer as chances de sair da crise civilizatória de forma positiva.

Diante da brutalidade e covardia do atentado em Nice – provavelmente cometido por um fundamentalista islâmico – , as potências ocidentais estão respondendo de forma bruta e covarde. O presidente francês, François Hollande, anunciou ainda ontem à noite a prorrogação do Estado de Emergência – que suspende direitos fundamentais – e novos ataque na Síria e Iraque. Só aí, a intervenção ocidental matou centenas de milhares de pessoas, além de desencadear uma guerra civil sem fim e tornar o país praticamente inviável. Mais guerra poderá deter o terrorismo?

No vídeo de hoje, vamos examinar dois aspectos centrais ligados ao terror. Primeiro: qual o papel do Ocidente na origem da Al-Qaeda, ISIS e outros grupos? Segundo: por que a proposta atual dos governantes ocidentais – responder à violência do terror com mais violência – satisfaz a indústria da guerra, mas tornará a carnificina maior, expondo as populações civis e desencadeando um enorme retrocesso civilizatório. Continuar lendo

Um caminho para a esquerda autêntica

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Nos EUA, nova arrancada de Bernie Sanders revela: é possível vencer preconceitos da mídia — desde que se apresente propostas concretas, em vez de discurso doutrinário

Por Cauê Seignemartin Ameni

Diminui a cada dia, nos EUA, a distância que separava a candidata oligárquica do Partido Democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, do outsider à sua esquerda, o senador Bernie Sanders. O próprio New York Times reconhece: em um mês, Hillary viu sua vantagem de 20 pontos percentuais, entre os membros do partido aptos a votar nas eleições primárias, derreter para 7 pontos. Outras sondagens já mostram uma virada na primárias de dois estados importantes. Em Iowa, onde começa a disputa (em 1º/2) e New Hampshire (9/2), Sanders está à frente com 5 pontos de vantagem. Sua liderança concentra-se entre os candidatos mais jovens, onde tem o dobro de preferência. Quais as razões? A esquerda brasileira teria algo a aprender com elas?

A primeira grande barreira que Sanders parece saber enfrentar é a do preconceito. Para frear o ascensão do candidato, seus adversários apostam no desgaste da palavra que o senador emprega para definir a si mesmo: “socialista”. Contudo, Sanders não se presta ao papel de espantalho, analisa Robert Reich, professor de Políticas Públicas da Universidade de Berkeley e ex-ministro do Trabalho (no governo de Bill Clinton). Segundo ele, as pessoas começaram a entender que o senador não é o socialista retratado nas caricaturas da Fox News, mas alguém capaz de tratar a aristocracia financeira com a dureza necessária. Continuar lendo

Ocidente restringe liberdade na internet: contra o terror?

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França e EUA querem proibir criptografia. Paris planeja acabar com wi-fi público. O verdadeiro alvo podem ser os movimentos sociais e dissidentes

Por Antonio Martins

A onda de ataque às liberdades civis, desencadeada em diversos países ocidentais após os atentados de Paris, ameaça agora atingir a internet. Na França, documentos do ministério do Interior, vazados pelo jornal Le Monde, propõe fechar as redes de wi-fi públicas e proibir o uso do software Tor, que permite navegar na rede sob anonimato. Nos EUA, o presidente Obama encontrou-se ontem (7/12) com Hillary Clinton, pré-candidata à presidência pelo Partido Democrata para debater medidas semelhantes. Ao final da reunião, lançaram um apelo às empresas de tecnologia do país, para que deixem de incluir, em suas plataformas e produtos, mecanismos de proteção à privacidade.

Apresentadas como proteção necessária contra a ação de grupos terroristas, as medidas podem ter um objetivo totalmente diverso. Primeiro, porque grupos como o Estado Islâmico (ISIS) parecem capazes de zombar das restrições ao uso da internet criadas contra eles, segundo revela hoje um texto do New York Times. Horas após os atentados de San Bernardino, em 2 de dezembro, diversos perfis do Twitter lançavam desafios jocosos aos norte-americanos. À medida que eram deletados, outros idênticos surgiam. Segundos depois que a 99ª conta foi suspensa, uma centésima, denominada @IslamicState100, exibia um bolo com cem velas, troféus e fogos de artifício… Em outros casos, como nos atentados de Paris, mostra o mesmo texto, os terroristas sequer usaram ferramentas de criptografia. Continuar lendo

Paris, hipóteses sobre um massacre (II) — Os Jovens da Jihad

Jovens de origem árabe participam de treinamento do ISIS, na província síria de Ibidl. Calcula-se que dezenas de britânicos estejam entre eles

Jovens de origem árabe participam de treinamento do ISIS, na província síria de Ibidl. Calcula-se que dezenas de britânicos estejam entre eles

Militarmente, extremistas estão sendo derrotados. Têm uma só chance: mergulhar governos ocidentais no terreno da barbárie e atrair muçulmanos que se ressentem de exclusão. Exatamente por isso, podem vencer…

Por Antonio Martins

A julgar pelas respostas que os governos ocidentais lhe dão, desde o 11 de Setembro, o extremismo islâmico é uma força militarmente temível. Desde os atentados às Torres Gêmeas, dezenas de países tornaram muito mais draconianas suas legislações de vigilância sobre os cidadãos. Introduzidas nos EUA pelo Patriot Act, ainda em 2001, políticas de ampliação do poder policial, de quebra de privacidade (inclusive sobre todo tipo de comunicação via internet), de detenção arbitrária, de restrição generalizada às liberdades e de assassinato seletivo de civis sem julgamento (neste caso, até o momento, uma exclusividade norte-americana) espalharam-se pelo mundo, desde então. Por que elas são tão impotentes?

Para chegar à resposta, é preciso compreender as raízes do poder do ISIS e do espantalho anterior, a Al-Qaeda. Ambos os grupos tiveram comprovadamente, em algum momento, simpatia geopolítica e assistência militar dos Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio. A Al-Qaeda é criação direta de Washington na “guerra fria” – como admite, sem meias palavras, Zbgnew Brezinsky, ex-assessor especial da Casa Branca. As operações do ISIS na Síria só persistem com a cumplicidade da Turquia, um país membro da OTAN que abre suas fronteiras para o tráfico de armas e passagem de jihadistas rumo ao país vizinho. Porém, o poder essencial do ISIS não está na força militar.

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