Agenda: Para tirar a Economia das mãos de “especialistas”

Ciclo “Economia e Crise da Democracia” convida sociedade a debater os temas que, segundo pensamento convencional, deveriam ficar restritos ao “mercado”. Próximo encontro em 20/3

Por Felipe Calabrez


DEBATE
“Economia e Crise da Democracia”

Com Nelson Marconi, professor de economia e de administração pública da FGV-SP
Dia 20 de março, terça-feira, das 19h às 21h
Tapera Taperá – Av. São Luiz, 187, lj 29, Galeria Metrópole, São Paulo

No próximo dia 20, na Tapera Taperá, acontece o segundo encontro do ciclo Economia e crise da Democracia. Considerando que economia é assunto importante demais para ficar restrito a especialistas, concebemos um ciclo de debates que visa discutir de forma clara e acessível questões que o país enfrenta e que envolvem a vida de todos.

O próximo encontro contará com a presença de Nelson Marconi, professor de economia e de administração pública da FGV-SP, importante expoente da escola novo-desenvolvimentista e próximo a Ciro Gomes, candidato à Presidência. O primeiro contou com a presença do professor Luiz Gonzaga Belluzo, que debateu a economia enquanto área do conhecimento, seus pressupostos e sua forma de abordar nossos problemas reais.

A conversa abordará a profunda recessão pela qual o país vem passando, a dificuldade de retomada da atividade econômica e dos investimentos, além da alta persistente do desemprego. Quais seriam possíveis estratégias micro e macroeconômicas para um novo ciclo de desenvolvimento econômico? Como torná-lo mais sustentável em termos dos objetivos de redução das desigualdades, ampliação do emprego formal e do bem-estar da população, incorporação de avanços tecnológicos, aumento da produtividade e justiça socioambiental? Essas são algumas das questões que norteiam o debate.

TEXTO-FIM

“Recuperação” econômica segundo a Folha de S.Paulo

pipocaComo a mídia conservadora comemora o fim do emprego formal e vê, no carrinho de pipoca, um elemento estruturante para o fim da crise

Por Artur Araújo*

A Folha de S.Paulo, cumprindo seu papel histórico de arauto da modernidade fashion e excludente, nos entusiasmou no último domingão (7/1).

No texto de sua primeira página, narra com fervor: “Marmitas na calçada e sanduíches na praia ajudaram quase 250 mil brasileiros a deixar o desemprego no último ano. (…) O avanço desses ambulantes correspondeu a cerca de 11% da geração de vagas de emprego informal (sic), que sustentam a melhora do índice,  no trimestre encerrado em outubro”.

Na reportagem interna, mais vibração:

“Esses trabalhadores estão por toda parte. Vendem sanduíches na praia ou bombons em porta de faculdades. Carregam caixas de isopor com marmitas na calçada de empresas no intervalo do almoço. Montam barracas pela manhã para vender café com leite em locais de grande fluxo, como portas de hospitais ou terminais de ônibus.”

É instigante imaginar o futuro dessa “economia do empreendedorismo”, com o rapaz do cachorro-quente fazendo escambo com a tia do bolo de fubá, porque demanda efetiva e monetizada, nome sofisticado para comprador com dinheiro no bolso, é detalhe ausente do modelito Frias.

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*Artur Araújo é administrador hoteleiro, consultor em gestão pública e privada e do Projeto Cresce Brasil, liderado pela Federação Nacional dos Engenheiros (FNE)

Aluguéis: nova crise à vista

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Déficit habitacional volta a crescer. Classe média compromete grande fatia da renda com pagamento a proprietários. Poderá mobilizar-se?

Conhecida por calcular regularmente o déficit habitacional do Brasil, com números aceitos pelo ministério das Cidades, a Fundação João Pinheiro (FJP), de Minas Gerais, está fechando os cálculos para um novo relatório. Mas Luiza Souza, cordenadora do órgão, já adiantou, em entrevista ao “Valor”: os números só vão piorar, em função da crise e, em especial, das dificuldades para pagar aluguel. Em 2014, o fenômeno já atingiu 3 milhões de domicílios — quase o dobro de há três anos.

Poucos sabem, mas o conceito de “déficit habitacional” não se refere a gente morando nas ruas — e sim ao número de domicílios em que estão presentes uma de quatro condições: a) ônus excessivo com aluguel; b) coabitação familiar; c) habitação precária ou d) adensamento excessivo.

 

O gráfico acima (produzido pelo “Valor”, com dados da FJP) revela: aluguel oneroso — ou seja, que consome mais de 30% da renda familar — já se destacava, em 2014, como condição explosiva. O déficit habitacional brasileiro, que caiu um pouco até 2011, voltou a elevar-se a partir daquele ano. Desde entao, desemprego acelerado e paralisia do “Minha Casa, Minha Vida” só podem ter agravado o quadro, diz Luiza Sousa.

Nos anos 1980 e 90, surgiram, em diversas cidades brasileiras, movimentos com o dos “Inquilinos Intranquilos”, que exigiam tabelamento dos alugueis, condições mais favoráveis para os locadores e outras políticas semelhantes. Mais recentemente, a luta pela moradia tornou-se central nas metrópoles, mas por algum motivo não toca a classe média. O novo cenário pode alterar esta situação.

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O jornalismo insensível e a banalização do desemprego

170201-Desemprego

Que a velha mídia oriente-se pelos dogmas de mercado, já não se estranha. O grotesco é não enxergar o drama humano de 12,3 milhões de pessoas

Por Cristina Fróes de Borja Reis e Fernanda Graziella Cardoso

A estatística recém-divulgada da pesquisa PNAD contínua do IBGE é desoladora: 12,3 milhões de pessoas desocupadas no país no último trimestre de 2016. Em relação ao mesmo período de 2015, o crescimento foi de 36%, ou seja, três milhões de pessoas desocupadas a mais. Quando se compara a 2014, a quantidade de pessoas desocupadas simplesmente dobrou.

Números tão expressivos, envolvendo tantas pessoas e famílias, demandam uma reflexão cuidadosa e responsável. O que teria acontecido com a economia, a política e a sociedade brasileira em apenas dois anos para implicar tal catástrofe socioeconômica? Mas, ao contrário, as manchetes da mídia de massa são análises superficiais, banalizando tais acontecimentos. Milhões de desempregados adicionais são tratados pela grande mídia com a mesma negligência e irresponsabilidade com que defendem as reformas conservadoras em marcha desde que Temer se tornou presidente interino.

Não é de hoje que no Brasil o jornalismo econômico tem uma lógica tacanha de funcionamento, via dois gatilhos principais. De um lado, aguardam as estatísticas (especialmente as de inflação, produção, emprego, balança comercial e, diariamente, da cotação do dólar e dos movimentos das bolsas de valores) para tratar da conjuntura superficialmente, sem refletir sobre as raízes estruturais que as implicam. Ou de outro, aguardam novidades da política econômica que pretendam enfrentar aquela conjuntura superficialmente analisada. Tais políticas são apresentadas seletivamente e com viés favorável aos interesses de grupos específicos (que também controlam a grande mídia), sempre preocupados com o humor do mercado. Entrevista-se meia dúzia de “especialistas”, fracamente diversificados em termos de abordagem e ocupação. Pertencem, quase que invariavelmente, a instituições como consultorias, bancos e universidades correlacionadas àqueles mesmos grupos no poder. Em meio às frases entrecortadas, propõem parcamente o contraponto (para validar a “ética” da notícia), geralmente encaixado de forma obscurecida e deturpada.

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