O dia em que o Occupy ganhou as ruas

Pouco depois de reprimido em Nova York, movimento realiza dezenas de manifestações nos EUA, reúne milhares de pessas e parece ampliar aliança com sindicatos

Por Karen Matthews, no Huffington Post | Tradução: Daniela Frabasile

Os protestantes do movimento Occupy Wall Street encheram as ruas e fecharam o trânsito em várias cidades dos Estados Unidos na quinta-feira (17/11), para marcar que se passaram dois meses desde o nascimento do movimento e mostrar que não desistirão, apesar da dispersão de muitos acampamentos pela polícia. Centenas de pessoas foram presas, a maioria delas em Nova York.

As manifestações – que aconteceram em cidades como Los Angeles, Las Vegas, Boston, Washington e Portland – foram majoritariamente pacíficas. A maior parte das prisões for por bloquear ruas, e as interrupções do tráfico foram breves.

Cantando “o dia inteiro, a semana inteira, fechar Wall Street” (“”All day, all week, shut down Wall Street”), mais de mil manifestantes reuniram-se perto da da bolsa de valores de Nova York e sentaram em vários cruzamentos. Policiais com capacetes dispersaram alguns encontros, e as operações no mercado de ações não foram interrompidas.

Ao anoitecer, uma coalizão de sindicatos e grupos progressistas juntaram-se aos manifestantes do Occupy, em comícios realizados em pontes importantes em diversas cidades dos Estados Unidos. Seu alvo principal eram as altas taxas de desemprego.

Em Nova York, uma multidão de milhares de pessoas, lideradas por membros do Sindicato Internacional dos Empregados em Serviços e carregando faixas, lotou a Foley Square, em Manhattan, e marchou pacificamente pela ponte do Brooklyn na parte destinada a pedestres.

Enquanto andavam, uma luz forte projetava o slogan “nós somos os 99%” (uma referência aos norte-americanos que não são super ricos) de um lado de um arranha-céu. Policiais penderam pelo menos vinte pessoas que andavam na pista de carros da ponte. Fora isso, a passagem da marcha se deu sem incidentes. Algumas semanas atrás, uma tentativa de marchar pela ponte chamou pela primeira vez a atenção internacional ao movimento Occupy. Mais de 700 pessoas foram presas.

Os protestos de quinta-feira aconteceram dois dias depois da polícia ter invadido e destruído o acampamento em Zuccotti Park, que servia de quartel general do movimento e os manifestantes e sindicatos aliados tentaram recuperar a energia.

“Esse é um momento crítico para o movimento, dado o que aconteceu algumas noites atrás” disse o manifestante Paul Knick, um engenheiro de software da Montclair. “Parece que há um esforço concentrado para acabar com o movimento, e eu estou aqui para ter certeza de que isso não irá acontecer”.

Pelo menos 300 pessoas foram presas em Nova York. Algumas foram feridas durante as prisões. Um homem foi detido por jogar um líquido, possivelmente vinagre, nos rostos de policiais, segundo as autoridades. Muitos dos manifestantes estavam carregando vinagre, como um antídoto ao spray de pimenta. Um policial, Matthew Walters, precisou de 20 pontos na mão por ter sido atingido por um pedaço de vidro, disse a polícia.

Em Los Angeles, aproximadamente 500 simpatizantes marcharam no centro da cidade cantando “os bancos foram salvos, nós fomos vendidos”. Mais de vinte pessoas foram presas.

A polícia prendeu 21 manifestantes em Las Vegas, e vinte foram levados com algemas de plástico em Portland, por sentarem em uma ponte. Pelo menos doze pessoas foram presas em St. Louis durante a noite, depois de terem sentado em uma tentativa de bloquear uma ponte sobre o rio Mississippi. Outros foram algemados por bloquear pontes na Philadelphia e em Minneapolis.

Em Chicago, centenas de manifestantes organizados por grupos de trabalho e de comunidades marcharam em direção ao rio Chicago. Eles pararam na ponte do rio e a fecharam na hora do rush. Policiais desviaram carros e pedestres. As pessoas assistiam ao protesto pelas janelas dos escritórios e em pontos de ônibus.

Em Seattle, centenas de manifestantes do Occupy Seattle e trabalhadores fecharam a ponte da Universidade como uma parte de um dia nacional de para exigir empregos. O trânsito ficou parado em volta do Distrito Universitário, já que dois protestos marchavam em direção à ponte.

Várias manifestações coincidiram com um evento planejado meses antes pela coalizão de sindicatos e grupos liberais, incluindo Moveon.org e SEIU, na qual pessoas desempregadas andaram em pontes de diversas cidades para protestar contra as altas taxas de desemprego.

As demonstrações nas ruas também marcaram dois meses desde que os movimentos Occupy surgiram em 17 de setembro em Nova York. Eles também haviam sido planejados muito antes da ação da polícia em muitos acampamentos nos últimos dias, mas foram vistas por alguns ativistas como uma maneira de demonstrar sua determinação em acabar com a repressão.

As demonstrações de quinta-feira em Wall Street pararam táxis e caminhões de entrega, mas a polícia foi muito efetiva em manter os manifestantes confinados a apenas alguns quarteirões. Os policiais permitiam que as pessoas que trabalham em Wall Street passassem pelas barricadas, mas apenas depois de mostrarem suas identificações. O prefeito Michael Bloomberg disse que a polícia estava esperando até 10 mil manifestantes, com base no que os ativistas disseram online. Mas ele disse que houve um “transtorno mínimo”. “A maioria dos manifestantes agiu com responsabilidade”, disse ele, depois de visitar um policial ferido no hospital.

O comissário da polícia Raymond Kelly disse que os policiais confiscaram objetos de metal que alguns manifestantes aparentemente planejavam usar para se prenderem na entrada dos prédios de Wall Street. A manifestação que reuniu milhares de pessoas na Foley Square durante a noite foi uma raridade no movimento Occupy: organizadores de sindicatos obtiveram uma autorização da cidade, e permitiu-se o uso de equipamentos de som.

Entre os manifestantes presos em Nova York estava Ray Lewis, um capitão aposentado da polícia da Philadelphia, que foi detido vestido com seu uniforme. Entre outros, estava o ator e diretor Andre Gregory, que disse esperar o movimento leve a uma ação nacional contra a injustiça econômica. “É o possível início de algo positivo”, disse ele. Alguns espectadores aplaudiram os manifestantes de janelas abertas. Outros gritavam “arranje um emprego!”.

“Eu não entendo a lógica deles” disse Adam Lieberman, enquanto lutava para passar pelas barricadas da polícia para chegar ao seu trabalho na JPMorgan Chase. “Quando você entra nos negócios, você entra para tentar ganhar tanto dinheiro quanto você consegue. E é isso que os bancos fazem. Eles estão tentando lucrar”.

Gene Williams, operador do mercado financeiro, brincou que ele era um dos “maus”, mas que simpatizava com os manifestantes: “O que importa é que existe um abismo entre os ricos e os pobres, e esse abismo está se alargando”.

Os confrontos foram seguidos por prisões pela manhã em outras cidades. Em Dallas, a polícia expulsou dezenas de manifestantes perto da prefeitura, alegando razões de saúde e segurança. Dezoito manifestantes foram presos. Dois manifestantes foram presos e aproximadamente vinte tendas foram removidas da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Autoridades da cidade e manifestantes estavam tentando decidir os próximos passos a serem tomados na Philadelphia, onde aproximadamente cem manifestantes receberam ordens de sair para dar lugar a uma renovação da praça de US$ 50 milhões, planejada há algum tempo. Líderes do sindicato pressionaram os manifestantes a sair, dizendo que empregos na construção civil estavam em jogo.

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