Derrubada de avião russo: o mundo próximo à guerra

Noam Chomsky explica: Turquia, que é aliada dos EUA e disparou míssil, tornou-se ameaça à democracia e à paz internacional. Washington já é incapaz de gerir seu império

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Por Antonio Martins

O fantasma de uma guerra global voltou a se manifestar esta manhã, quando dois aviões de caça turcos dispararam contra um bombardeiro russo, que atacava instalações militares do Califado Islâmico na Síria. O avião, que voava próximo à fronteira sírio-turca (há controvérsias sobre a localização exata) foi derrubado e destruído. Os dois pilotos ejetaram-se da cabine, mas foram capturados e mortos por terroristas. A Turquia integra a OTAN, aliança militar dirigida pelos EUA. É a primeira vez, desde os anos 1950, que ocorre uma escaramuça de tal natureza entre duas potências nucleares. Ainda não se sabe como reagirá Moscou (Vladimir Putin considerou-se “apunhalado pelas costas”), mas num mundo à beira de um ataque de nervos as consequências podem ser dramáticas. Por que a Turquia agiu deste modo? Quais podem ser os desdobramentos?

Dois textos de Noam Chomsky, intelectual norte-americano dissidente, ajudam a explicar os motivos – e, ao fazê-lo, tornam o fato ainda mais dramático. O primeiro, ainda sem tradução em português, foi publicado ontem, na revista digital Alternet. A Turquia está se convertendo rapidamente num foco de grandes tensões, bem no centro de uma região tradicionalmente explosiva, explica o filósofo e linguista. Pressionado por oposição de esquerda e por uma situação geopolítica desconfortável, seu governo tenta manter-se com base em repressão interna e na busca de um inimigo externo. Seus serviços de segurança são acusados de cumplicidade no atentado a bomba que matou 99 manifestantes pela paz, em meados de outubro (a autoria direta foi reivindicada pelo ISIS). Mais recentemente, o presidente Recep Tayyip Erdogan voltou-se contra a liberdade de expressão.

O SU-24 russo abatido por caças turcos, enquanto agia contra o ISIS. Dois pilotos foram mortos por terroristas, após ejetarem-se da cabine

O SU-24 russo abatido por caças turcos, enquanto agia contra o ISIS. Dois pilotos foram mortos por terroristas, após ejetarem-se da cabine

Para reconquistar maioria parlamentar nas eleições de 1º de Novembro, Erdogan silenciou a imprensa opositora. Os prédios do grupo de comunicação Ikea – sedes de dois jornais (Bugun e Millet) e duas redes de TV – foram invadidos pela polícia. O Estado assumiu o controle do grupo, demitiu 71 jornalistas e impôs nova linha editorial. No dia das eleições, ambos estamparam, em manchete, fotos do chefe de Estado, acompanhadas dos títulos “O presidente entre o povo” e “Turquia unida”. Após o pleito, dois jornalistas foram encarcerados e 30 processados, a pretexto de “insultar o presidente” e “fazer propaganda terrorista”. Na recente reunião do G-20, realizada na cidade turca de Antalya, dezenas de jornalistas locais foram barrados. Tudo isso, num país que os governos ocidentais rotulam como aliado democrático.

O descontrole de Erdogan deve-se, em parte, à situação delicada em que ele próprio colocou a Turquia, no cenário de um Oriente Médio em que o poder norte-americano declina. Aliado de Washington, o país foi pivô, desde 2011, do esforço norte-americano para usar a mão-de-gato do ISIS contra Bashar Assad, o presidente da Síria. Pela fronteira turco-síria, propositalmente escancarada, passaram milhares de fundamentalistas e enorme quantidade de material militar que alimentaram o terrorismo, relata Patrick Cockburn em A origem do Estado islâmicoum livro indispensável sobre o tema.

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Porém os EUA, perdidos num emaranhado de alianças contraditórias na região, precisaram atender também a outros interesses – o que deixou a Turquia em sinuca geopolítica. Há dois meses, quando Moscou aliou-se ao governo sírio e lançou sua aviação contra o ISIS, Washington viu seu poder ameaçado. Reagiu dando apoio militar às guerrilhas curdas. Quando o fez, contrariou Erdogan, que promove uma guerra implacável contra o possível surgimento de um Estado curdo. A situação do presidente turco tornou-se ainda mais delicada após os atentados de Paris. Erdogan teme que os Estados Unidos fortaleçam os curdos, ao ampliar o apoio militar que dão a eles.

O ataque ao avião russo é certamente uma provocação com objetivo de sacudir o tabuleiro. Erdogan tem instrumentos para tentar reconquistar os EUA. O New York Times especulou há pouco que, a pedido da Turquia, a OTAN realizará, ainda hoje, uma reunião de emergência. Washington estará dividida. Manterá o apoio militar aos curdos, correspondendo à pressão da opinião pública internacional para derrotar o ISIS? Ou cederá à Turquia, um aliado que não deseja abandonar, para que as ambições geopolíticas norte-americanas não se degradem ainda mais no Oriente Médio?

O segundo texto de Chomsky – uma entrevista concedida em março último à revista Jacobine e já traduzida por Outras Palavras – enxerga o problema de uma perspectiva de mais longo prazo. O filósofo dissidente vê os EUA como um império decadente, que já não é capaz de construir hegemonia, porque tornou-se incapaz de satisfazer aliados ou neutralizar inimigos e agora age apenas segundo seus próprios interesses.

Foi esta condição declinante, explica Chomsky, que levou Washington a criar, no Oriente Médio, a situação ideal para formação do ISIS. Os EUA devastaram Iraque, Afeganistão e Líbia, em três guerras insanas. Estes países são exatamente, os santuários onde os fundamentalistas formam e treinam os terroristas que promoverão atentados como os que abalaram Paris.

Embora sempre esperançoso, Chomsky reconhece, na entrevista, que há razões para uma atitude mais cautelosa e alerta. Do contrário, frisa ele, “o mundo que estamos criando para nossos netos será cada vez mais ameaçador”.

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11 comentários para "Derrubada de avião russo: o mundo próximo à guerra"

  1. o governo americano pedeu-=se ante o poderio das industria de bens e serviços bélicos….estava demorando para acontecer eventos assim e eles irão se tornar cada vez mas frequentes.As potencias nao podem eleger uma zona de guerra do tamanho do estado de Minas Gerais, atacar tudo o que se move e tudo o que voa, sem uma operação conjunta muito bem coordenada….pena são as crianças, explodidas sem piedade..realmente a Humanidade não merece continuar no planeta…e quem acreditou na Nova Era deve estar realmente atonito e muito frustrado com tudo isso…

    • Vinícius Stoqui disse:

      “Os dois pilotos ejetaram-se da cabine, mas foram capturados e mortos por terroristas. “.. que contradição ein! Não gosto desse tratamento alegando que os terroristas são sempre os do lado de lá.. e os daqui são o que então? Santos em busca do santo graal na “guerra contra o terror”? Deprimente esse ponto de vista!

      • disse:

        Outro ponto a levantar é que um dos pilotos foi resgatado pelos russos.
        Os dois se ejetaram, um foi morto a tiros antes de chegar ao solo e o outro, resgatado, está vivo.

  2. LuísM Castanheira disse:

    Foi muito triste e incompreensível uma tal atitude por parte da Turquia. Vi imagens dos paraquedas dos pilotos e depois uma foto de um deles abatido. Não havia necessidade do abate do avião. Mesmo que tivesse invadido o espaço aéreo da Turquia – o que duvido -, haveria sempre forma de o fazerem regressar à Síria. Espero que a OTAN pondere bem o que está em causa e um aliado que procede desta forma não deverá por em causa a organização, nem comprometer os restantes aliados.
    Este é um muito bom artigo, que talvez explique bem as causas por detrás destas “jogadas” de tabuleiro.

  3. Norberto disse:

    Grandes erros nessa matéria. Os pilotos russos não foram mortos por terroristas mas sim por rebeldes anti-governo no lado sírio da fronteira com a Turquia.

    • Antonio R. disse:

      Os “rebeldes anti-governo no lado sírio da fronteira” são a Al-Nusra, Al-Qaeda e ISIS. Compreendeu agora o porque de eles serem corretamente chamados de terroristas?! Não há “rebeldes moderados” na Síria (como alegam alguns países ocidentais – USA, Arábia Saudita, Qatar, Turkey… – os mesmos que forneceram e continuam fornecendo armamentos, equipamentos e intel para os terroristas na Síria).

    • Como você sabe disso? Estava lá?
      De onde partiu esta informação que você propaga?
      Você se crê mais habilitado que Noam Chomsky a obter informação de qualidade na conjuntura atual?

  4. anti disse:

    Não é dificil saber para o porquê destes eventos… Não foi por acaso que a turquia abateu o caça russo, foi para provocar uma guerra Nato/russia… Em que a china pode-se meter ao barulho e está montado uma guerra mundial em que o médio oriente é o campo de combate.
    E porquê perguntam vocês? Porque primeiro a russia quer manter al-asad no poder, coisa que os estados unidos já não querem, porque já não precisam dele… Então toca de provocar a russia.
    Segundo, os estados unidos tem uma divida externa gigante! Como é que um país como os EUA para essa divida ou a reduz? provocando uma guerra… Assim não só vende armas como arranja um pretexto para atacar os países a quem tem a dívida (grande parte dela à china), ora se esta se junta ao barulho, os EUA esfregam as mãos de contente, podendo destabilizar mais uma parte do mundo que é uma grande pedra no sapato. Terceiro, continuam a destruir o médio oriente, que já se viu que se se unem, podem ser a próxima super-potência, porque com tanto petroleo, podem gerar grandes riquezas. Daí que após a primeira guerra mundial, foi prometido ao império otomano, dividido pela guerra, a criação do “grande estado arábe”. Em vez disso esse grande estado foi dividido em pequenos países, em que foram colocados governos fantoche… E a partir daí está o caldo entornado no médio oriente.
    Leiam bem o que digo: os EUA vão fazer tudo para provocar uma guerra, dá-lhes muito jeito e como é bem longe da casa deles, ainda mais jeito dá… Por isso desde a 1ª guerra do iraque que andam a arranjar pretextos para invadir paíes do médio oriente, nada mais é que criar baes para poder atacar rapidamente a russia e a china. E já agora destruir aliados dessas potências, como poderia ser o iraque, a síria, etc etc…

  5. Adilson Calazans disse:

    Terroristas mortos por terroristas. isso sim.

  6. O presidente Obama conseguiu desmoralizar o povo americana, quando reatou as relações diplomáticas com Cuba, através de seu ditador, Raul Castro.
    Raul Castro, não fez qualquer sinal, a analistas internacionais e muito menos abriu uma fresta de liberdade ao povo cubano.
    A Venezuela comunista afronta e o Obama nada faz, e muito menos deixou de comprar o petróleo desse país comunista.
    Será que Obama tem coragem de enfrentar à Rússia?

  7. Jayme Leitão disse:

    O que se vê é que o grande perigo no processo histórico mora na decadência de poderes hegemônicos, e não na sua consolidação. Não há dúvida de que o surgimento do Isis é obra pura e direta de Washington, ao travar guerras insanas e não completar o serviço, conquistando esse países após a natural (e desproporcional) vitória militar, através de apoio econômico e social, numa espécie de Plano Marshall para as terras arrasadas do Iraque e do Afeganistão. Deixou-se para trás a devastação, o caos e o ressentimento, um campo fecundo para o Estado Islâmico. Estamos só no começo, e as portas abertas da Europa permitirão a entrada de muitos terroristas. Só uma ação militar conjunta seguida de um grande plano de recuperação e de estímulo à economia e à educação no Oriente Médio poderá finalmente começar a sarjar a ferida de todos os erros cometidos ao longo do último século por Inglaterra, França e Estados Unidos nesse remendo lamentável que é a região, quadro agravado pelo encurralamento da sociedade, presa num beco sem saída para este século, com a sua visão petrificada do Alcorão…

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