Automóveis? Nem a eletricidade salva

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Novo estudo revela: emissões de carbono dos motores continuarão crescendo, enquanto modelo baseado no transporte individual não for substituído

Por Antonio Martins

Nos últimos anos, os defensores do automóvel animaram-se com a possibilidade de garantir a sobrevida do produto que defendem. Um número crescente de montadoras lançou modelos elétricos ou híbridos. Além disso, uma evolução notável na tecnologia de construção das baterias tem ampliado a autonomia dos carros que se reabastecem na tomada de energia de seus donos. Haveria, enfim, compatibilidade entre o transporte individual e o planeta?

Um estudo recém-publicado do Instituto de Estudos sobre Transporte, uma organização civil norte-americana, demonstra que não, por dois motivos. Em primeiro lugar, o mundo está diante de uma perspectiva aterradora. Nos próximos quinze anos – até 2030 – o número de automóveis em circulação irá duplicar, atingindo a marca de 2 bilhões de veículos. O gráfico abaixo mostra que a curva do crescimento “populacional” do automóvel cresce de modo vertiginoso e não há perspectiva de se estabilizar – se mantidas as políticas de transporte atual. A imensa maioria destes veículos será movida a combustíveis fósseis: a falta de restrições reais à sua circulação, ou de estímulos efetivos às novas tecnologias garantirá este prognóstico. O automóvel elétrico continuará sendo, para efeitos estatísticos, uma peça publicitária.

Em segundo lugar, também a matriz energética da maioria dos países está estagnada, ou tornando-se mais suja. Na grande maioria dos casos, abastecer um automóvel elétrico significa, também, consumir petróleo ou carvão. A única diferença é que o combustível fóssil não é queimado no motor, mas numa usina termelétrica…

Por tudo isso, mostram os cálculos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os motores dos veículos são responsáveis por ¾ das emissões gás carbônico geradas, no planeta, por uso de energia. A alternativa real, frisa o estudo, é o transporte coletivo – muito mais racional, seguro e limpo.

Mas o automóvel está associado a individualismo, competição e ilusão de infinitude – três marcas ideológicas do capitalismo. Talvez por isso, a substituição exija uma mudança de mentalidade tão profunda e enfrente tantas resistências.

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Um comentario para "Automóveis? Nem a eletricidade salva"

  1. Pedro disse:

    O automóvel está associado a individualismo, competição e ilusão de infinitude – três marcas ideológicas do capitalismo.
    Bem lúcida sua matéria. E sua frase acima sintetiza o porque da grande dificuldade de ser mudada a matriz de transporte.
    Possivelmente, Eua já detem alguma tecnologia, além da elétrica, hidrogênio, etc. Entretanto, o fechamento das atuais montadoras, que já seria um gigantesco transtorno para a economia, é apenas um dos problemas. Assim, o fechamento das indústrias de auto peças, e todo o demais circuito envolvido no atual sistema, poderia mexer com a economia mundial (o sistema capitalista) de uma forma não benquista por aquele país.
    Parece que eles, Eua – embora já não sejam mais os ‘donos’ deste segmento – estão procedendo lentamente para não serem afetados. A venda da Chrysler para a Fiat seria um dos primeiro passos. Após se fartarem, por décadas, dos royalties, estariam, agora, terceirizando o problema.

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