Mudança climática devasta os bancos de coral

Eles são o grande criadouro da vida marinha — mais ameaçada que nunca

Por Antonio Martins

A edição da revista Nature que passou a circular nesta quarta-feira (18/4) aponta uma consequência pontual, até então desconhecida, do aquecimento global. Em 2016, uma grande onda de calor devastou o maior banco de corais do mundo, a chamada Grande Barreira Australiana. Um novo estudo, conta Nature, apurou que 30% dos corais morreram só naquele ano, em consequências das mudanças físico-químicas provocadas pela mudança da temperatura oceânica.

A preservação dos bancos de coral é considerada indispensável para a sobrevivência da vida marinha. Estas formações ocupam menos de 0,2% da superície dos mares, mas abrigam 30% das espécies animais, servindo de nutrição básica das cadeias alimentares e de refúgio para os peixes. Sua devastação é uma das principais causas do rápido despovoamento dos oceanos e dos riscos de extinção em massa das espécies marítimas.

TEXTO-FIM

Ana Amélia enxerga algo nas Arábias

Senador confunde Al Jazeera com Al Qaeda, mas flerta com ditadura abarrotada de petrodólares

Por Reginaldo Nasser

A senadora Ana Amélia é tudo, menos idiota. Na mesma semana que “confundiu” Al Jazeera e Al Qaeda, ela foi relatora de proposta de criação de grupo parlamentar Brasil-Arabia Saudita — e tornou-se presidente do organismo. Pode ter sido coincidência. Como se sabe Al Jazeera é do Catar que esta se chocando permanentemente com Arábia Saudita

Conhecida pelo caráter ditatorial de seu regime e pelo desrespeito constante aos direitos humanos, a Arábia Saudita acusou o Catar, no ano passado, de apoiar terrorismo — e fez o maior estardalhaço internacional . Sei nao, acho que tem coisa ai.

Guerra comercial: a China contra-ataca Trump

Resposta cirúrgica de Pequim atinge estados agrícolas dos EUA e pode deixar presidente sem maioria parlamentar, em novembro. E há outras cartas na manga

Por Antonio Martins

Em 23 de março, com a grandiloquência usual, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o início de uma “guerra comercial” contra a China. Acusou Pequim de discriminar produtos norte-americanos. Impôs sobretaxas e limites a importações chinesas que, segundo assegurou, causariam prejuízo de US100 bilhões a seu concorrente. Este reagiu com extrema cautela. O ministério do Comércio chinês divulgou, dias depois, uma lista inicial de apenas 128 produtos norte-americanos sobretaxados. Seus valores mal somam US$ 3 bi. Mas uma reportagem publicada hoje no New York Times revela que a ação de Pequim pode ter sido extremamente cirúrgica — além de expansível no futuro.

O NYTimes viajou aos estados do meio-oeste norte-americano. Grandes produtores de cereais (em especial soja e milho), Iowa, Kansas, Minnesota, Indiana, Missouri e Dakota do Norte são, também, bastiões eleitorais do Partido Republicano. Foram, em especial, chave para sua vitória em 2016. Pesaram muito mais, segundo o jornal, que o rust belt o cinturão industrial degradado que também apoiou o atual presidente.

A reportagem revela um meio-oeste desolado. A sobretaxa de 25% sobre os cereais, imposta pelo governo chinês, pode arruinar milhares de agricultores. Pesará, em especial, sobre as eleições para a Câmara e Senado dos EUA, marcadas para novembro. O NYTimes crê: os fazendeiros prejudicados pela “guerra” que o próprio Trump abriu podem ser decisivos para tirar-lhe maioria legislativa em alguns meses.

E Pequim nem usou suas armas mais poderosas, lembra outra análise, agora do Centro para Estudos Internacionais Estratégicos, também norte-americano. A autora, Samm Sacks, relaciona um conjunto de medidas administrativas que os chineses poderão adotar em breve para ferir o setor de Tecnologia da Informação nos EUA. Nesse caso, o prejuízo político pode não ser alto – mas o econômico é astronômico.

A atitude de Trump, por fim, perturba economistas de repercussão internacional como Nouriel Roubini – quem primeiro previu a grande crise financeira de 2008. Nesta entrevista, ele adverte que atos como o do presidente norte-americano, num cenário instável como o atual, podem desencadear uma “guerra comercial em larga escala”. Segundo Roubini, seria extremamente danosa tanto para as grandes corporações como para o “livre” comércio – uma das pedras angulares do Consenso de Washington.

Em Cuba, desafios de uma nova era

Diaz-Canel (à esquerda) com Raul Castro

Diaz-Canel, o novo presidente, enfrentará situação econômica difícil — marcada por duas moedas, desigualdade crescente e incertezas sobre setor privado

Por Antonio Martins

Foi como se esperava. Os deputados cubanos elegeram nesta quarta-feira (18/4), como novo presidente do país, Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez, um engenheiro eletrônico de 57 anos, que respondia pela vice-presidência e desempenha há décadas papeis de liderança no Partido Comunista. A eleição marca uma ruptura. Pela primeira vez desde 1959, o país será dirigido por alguém que não participou da luta revolucionária que derrubou Fulgencio Baptista e levou ao poder Fidel Castro (aqui, a relação dos novos dirigentes). A transição completa, porém, ainda levará alguns anos. Raúl Castro, presidente até ontem, manterá, além do mandato de deputado, o posto de dirigente máximo do PC Cubano.

Quais os desafios do período pós-”geração histórica”? Vale ler texto publicado em março nos Cadernos do Sul e reproduzido por Outras Palavras. No artigo, o analista político basco Daniel Cubilledo Gorostiaga, argumenta que o Díaz-Canel, o novo presidente, terá de se defrontar sobretudo com quatro problemas econômicos.

São eles: a) a existência de duas moedas paralelas (o peso e o CUC, atrelado ao dólar). O abismo de poder de compra entre as duas moedas cria desigualdade crescente, ao favorecer a parcela da população que tem acesso ao CUC (por receber remessas em dinheiro do exterior ou trabalhar em contato com o turimo); b) a existência de um grande número de trabalhadores “por conta própria”, ou seja, que não recebem do Estado. Ela expressa dinamismo empreendedor necessário a Cuba, mas não estão claros, legalmente, os direitos e os limites à atuação deste contingente; c) o status das empresas privadas (inclusive estrangeiras). Sua atuação é vista por alguns como germe de desigualdade, desafio ao poder Estatal e ameaça ao “poder socialista”.

Crise financeira: a próxima pode ser maior

Endividamento global já supera nível atingido às vésperas do terremoto de 2008. Bancos resistem a regulações. EUA, maior devedor do mundo, aprofunda déficit, ao isentar milionários de impostos

Por Antonio Martins

Deflagrada há pouco menos de dez anos (em setembro de 2008), a crise financeira atual ainda não terminou. Nos países centrais (especialmente na Europa), os ataques aos direitos sociais (para salvar os bancos) jamais foram revertidos. E a queda internacional dos preços das matérias-primas interrompeu ciclos de redistribuição de renda importantes em nações da periferia, como o Brasil. Mas há, ao menos, horizonte positivo à vista.

Não, alerta um relatório divulgado ontem pelo FMI. Ao contrário: uma década depois, o principal fator que detonou o terremoto financeiro (o aumento extraordinário das dívidas) agravou-se. A dívida total, que equivalia a 213% do Produto Interno Bruto (PIB) global, acaba de chegar a 225%. O crescimento econômico é relativamente alto (3,9% ao ano, em 2018), o que permite uma rolagem relativamente tranquila dos débitos. Mas cairá em breve, adverte o Fundo. Em consequência, pode haver fortes turbulências para países e empresas mais endividados.

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Quarto Camarim: bem mais que um “documentário LGBT”

Construído a partir do reencontro entre cineasta e sua tia travesti, filme tenta borrar fronteiras entre vida e arte, registro e ficção, fato e memória.

Por Fabrício Lima

Quarto Camarim não é exatamente mais um filme LGBT. Não que a temática LGBT não seja organicamente afirmada nos 101 minutos do primeiro longa da dupla de cineastas baianos Fabrício Ramos e Camele Queiroz (“Cruzes e Credos”; “Muros”) mas, o grande condutor da narrativa é a busca da diretora pelo destino de sua tia Luma, com quem perdeu contato aos 6 anos de idade. Essa busca por Luma, que Camele conheceu como ‘tio Roniel’, é o gatilho para que a diretora revisite – agora como adulta – as histórias das suas relações familiares sob uma nova perspectiva e tenha meios para compreender o fascínio que a riquíssima figura de Luma sempre lhe exerceu.

Militarização: o jogo acabou?

Guerra aos pobres, governo do medo, subjetividades que desejam o extermínio do Outro. A pergunta: como é possível produzir zonas de resistência? Debate agora na Vila itororó, no Bexiga


Game Over: Crise e Intervenção Militar, o medo como forma de governo
Vila Itororó – Rua Pedroso 238, Bela Vista,
1º de março, 19 horas

Acontece hoje, na Vila Itororó Canteiro Aberto, no Bixiga (São Paulo), a conversa-ato Game Over: Crise e Intervenção Militar, com Acácio Augusto (Unifesp); Jacqueline Sinhoretto (Ufscar); Hugo Albuquerque (advogado ativista); Edson Teles (Unifesp) e Rosane Borges (Usp), com a presença de Richard Pereira, poeta de Slam.

É possível falar na produção do medo generalizado como condição de uma forma de governo? Cinquenta anos após o Ato Institucional nº 5, em 1968, vivemos um momento de suspensões. A guerra aos pobres é hoje um regime normalizado de disciplina que vem, a seu modo, reatualizando as configurações do que conhecemos como democracia.

Os debatedores discutem a intervenção militar no Rio de Janeiro, o avanço da militarização e poder da polícia nas periferias, o Estado de exceção, a necropolítica, e perguntam: como é possível produzir zonas de resistência em um cenário de autoritarismo radicalizado?

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Convite a uma viagem etílico-cultural

Como serão os encontros de Literatura Brasileira e Cachaça que têm início no próximo sábado, harmonizando José Lins do Rego com aguardentes da Paraíba

Por Maurício Ayer


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Corrupção: quem o Judiciário protege

Temer, Serra, Aécio, Rodrigo Maia… Um ano depois da Lista da Odebrecht, nenhuma investigação contra políticos conservadores avançou. Casos começam a prescrever e revelam poder partidarizado

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

Em 22 de setembro de 2016, o ex-ministro Guido Mantega viveu um pesadelo. Às 7 da manhã, ele acompanhava sua esposa, Eliane Berger, em internamento para cirurgia contra um câncer (ela faleceu 14 meses depois). Foi surpreendido por uma ordem de prisão preventiva, decretada pelo juiz Sérgio Moro. Voltou às pressas para casa, onde a Polícia Federal o aguardava desde às seis, acompanhada de uma multidão de repórteres. “Faz as malas, reúne as coisas”, disse o delegado que chefiava a operação. Horas depois, diante da repercussão negativa provocada pela brutalidade do ato, Moro revogou a prisão. Um único fato havia servido de pretexto para decretá-la. Preso alguns dias antes, o empresário Eike Batista dissera vagamente – sem jamais oficializar a declaração ou oferecer circunstâncias – que havia pago R$ 5 milhões a Mantega, para obter vantagens do governo federal.

O caso do ex-ministro é um entre dezenas. Entre 2015 e 2017, as chamadas “delações premiadas”, oficializadas ou não, dominaram o notíciário pobre do velho jornalismo brasileiro. Os vazamentos de informação eram permanentes. Interessados em notoriedade, procuradores e policiais antecipavam para jornalistas o suposto conteúdo das denúncias. Repórteres e editores aéticos divulgavam as informações com estardalhaço, sem a menor preocupação em apurar sua veracidade. O país acreditou estar vivendo uma “cruzada contra a corrupção”. Os alvos principais eram políticos da esquerda. Mas de repente, tudo mudou – exatamente no momento em que vieram à tona as delações da Odebrecht. Continuar lendo

Quatro hipóteses sobre o novo Datafolha

Lula cresce: intocado em meio ao bombardeio, encarnou o anti-golpe. Vem aí uma nova disputa pelo “centro”; Huck pode voltar. Força de Ciro sugere articulação contra retrocessos

Por Antonio Martins

I.

Saiu nesta madrugada (31/1) uma nova pesquisa Datafolha, de intenção de voto para a Presidência. Os resultados revelam, antes de tudo um fenômeno político extraordinário. Lula sofreu, a partir de quarta-feira passada (24/1), o bombardeio mais intenso lançado contra um político ao menos desde o fim da ditadura. Condenado pelo TRF-4 em jogo de cartas marcadas, foi dado por toda a mídia como candidato liquidado, à porta da prisão (“à beira do precipício”, segundo Veja). Resistiu sem um arranhão, revela a enquete, realizada no início desta semana (29 e 30/1). Mantém o mesmo patamar (entre 34% e 37% dos votos, dependendo dos adversários) do levantamento anterior.

Só um fenômeno explica este resultado. O ex presidente tornou-se imune aos ataques que lhe são lançados pelo Judiciário, os políticos conservadores e a mídia – ou seja, pelo bloco de forças políticas que consumou o golpe de 2016. É como se uma vasta fatia do eleitorado, que sente na pele o efeito dos retrocessos, desqualificasse o bombardeio, por compreender (ou intuir) os interesses que há por trás dele.

Este fato tende a provocar, nas próximas semanas, forte tensão política. Uma impugnação da candidatura de Lula só poderá ocorrer em setembro – e mesmo sua possível prisão de Lula, em dois meses. O ex-presidente parece ter percebido que, desafiado pelos adversários e deixado sem outra saída, só tem futuro se dobrar a aposta. Anuncia que criará fatos políticos de grande relevância: entre eles, novas caravanas pelo país e o lançamento, em algumas semanas, de uma nova Carta aos Brasileiros, dirigida às maiorias que reclamam direitos, e em particular às classes médias. Num ambiente de crise social, este aceno de mudanças tende a repercutir com intensidade. Obrigará os adversários a uma tentativa de defesa, difícil e desgastante. E a prisão de Lula será vista como vingança da elite, como tentativa de calar quem se opõe às injustiças. Se o candidato executar, de fato, o que tem prometido, criará condições para manter a candidatura inclusive encarcerado – em desafio aberto à coalizão jurídico-midiática. Continuar lendo