Agenda: Golpes e Mídia em debate em Florianópolis

Nilson Lage e Bernardo Joffily dialogam sobre a relação entre o poder autoritário das elites e a tentativa de naturalizá-lo

Por João Victor, do Círculo de Tradutores de Outras Palavras

Cada vez mais o debate público tem se aproximado das teses que identificam o golpe de 64 a um tipo de golpe “branco” jurídico-parlamentar em 2016 que depôs a presidente eleita, Dilma Rousseff, de seu mandato. Nessa conjuntura, vozes e perspectivas analíticas destoam do coro dominante apontando caminhos interpretativos diversos que permitem ampliar a reflexão do longo período autoritário no Brasil, a sua abertura democrática, e o seu espirito do tempo atual. Dado o papel central dos meios de comunicação em suas novas fronteiras tecnológicas, é imprescindível retomar o debate a partir das experiências jornalísticas que participaram destes eventos históricos no século passado.

Nesse sentido, O Instituto Ignacio Rangel (IIR) em parceria com o Laboratório de Estudos Urbanos e Regionais (LABEUR) e o Núcleo de Estudos Asiáticos (NEAS) da Universidade Federal de Santa Catarina convida o público para o DEBATE no dia 07/06  na Universidade Federal de Santa Catarina, – AUDITÓRIO ANEXO “E” Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH/UFSC:

“O GOLPE DE 64, A DITADURA MILITAR E O BRASIL HOJE”
com a presença dos ilustres jornalistas Nilson Lage e Bernardo Joffily, e do geógrafo Armen Mamigonian.

 

PALESTRANTES:

Nilson Lage,

jornalista, nascido em 1936, mestre em Comunicação, doutor em Linguística e Filologia. Foi professor da UFRJ e do Departamento de Jornalismo da UFSC. Como jornalista trabalhou no Jornal do Brasil, Última Hora, TV Educativa do Rio de Janeiro, entre outros veículos de comunicação. Colabora, atualmente, com o blog Tijolaço.

Bernardo Joffily,

jornalista, nascido em 1950, participou da resistência à ditadura, tendo sido vice-presidente da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) entre 1968-1970. Filiou-se ao PCdoB em 1973, sendo eleito para o Comitê Central deste partido em 2005.

DEBATEDOR:

Armen Mamigonian,

geógrafo, nascido em 1935, com doutorado na França e livre docência na USP.

TEXTO-FIM

Teatro Oficina: Silvio Santos ataca de novo

A grande janela do teatro, essencial para o contato com o entorno, pode ser bloqueada por duas torres imobiliárias

Dois espigões de cem metros podem descaracterizar terreno histórico do teatro e emparedar construção projetada por Lina Bo Bardi. Zé Celso prepara arraial e maratona de resistência

Por Cafira Zoé*

Na última sexta-feira (25), o IPHAN-SP, deu parecer favorável ao projeto de Edifício da RBV, Residencial Bela Vista Emprendimentos Imobiliários Ltda., aprovando as últimas alterações feitas pela Sisan Empreendimentos Imobiliários — braço imobiliário do grupo Silvio Santos, para a construção de dois mastodontes de concreto de 100m de altura — além dos andares de estacionamento subterrâneo — no último chão de terra livre do centro de São Paulo, entre as ruas Jaceguai, Abolição e Japurá, no Bixiga, onde vive e respira o Teatro Oficina.

O processo para a construção do empreendimento imobiliário, que havia sido encaminhado pelo IPHAN em Brasília, para análise e posterior decisão para a Superintendência do IPHAN em São Paulo, teve o parecer favorável do relator Marcos Carillho.

O Teatro Oficina foi tombado em 1983 pelo Condephaat, quando o órgão era presidido pelo geógrafo Aziz Ab’Saber. Depois vieram os tombamentos nas instâncias municipal, Conpresp, e federal, Iphan. Continuar lendo

De Junho de 2013 a Maio de 2018

Quais as semelhanças entre estes momentos recentes e aparentados? Primeiro, a sensação difusa de insatisfação que se difunde rapidamente

Por Fran Alavina

Com a greve dos caminhoneiros formou e se alastrou uma babel político-midiática na qual entender o que está ocorrendo e escolher uma posição sensata tornaram-se tarefas das áridas. Em alguns setores à esquerda, as tentativas de compreensão são as mais diversas e diante das dificuldades de um entendimento mais profundo se tende a cair na polarização simplista: ou se é totalmente contra, ou completamente favorável; ou é grave de classe trabalhadora, ou paralisação de interesse patronal. Enquanto isso, grupos à direita agem de forma semelhante ao que fizeram em um passado recente. Assim, estamos ante um quadro político-social que cada vez mais ganha traços semelhantes ao que ocorreu em junho de 2013.

Nesse ponto do texto sei que grupo de leitores, defensores ferrenhos das jornadas de junho de 2013 já estão armados para defender atacando. Mas quando me refiro aqui a junho de 2013 aponto para aquilo em que se transformaram as jornadas: na criação da massa informe que direcionada para a negação das mediações políticas foi o terreno propício para o surgimento das massas protofascistas vestidas com o uniforme da CBF. Não por coincidência a frase de 2013 “vem pra rua” virou slogan e marca registrada de um dos movimentos verde-amarelo.

De fato, no corpo político e no tecido social, semelhanças não são simples coincidências e as similaridades não são meras repetições ocasionais. Ora, quais são então as semelhanças entre estes momentos recentes e aparentados? . Ontem, o aumento na tarifa de ônibus; hoje, o aumento no preço dos combustíveis. Evidentemente que os agentes catalisadores nas duas ocasiões são bem diferentes, porém o âmbito é o mesmo: mobilidade e circulação. Isto é, trata-se de algo que atinge diretamente o cotidiano da população.

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Caminhoneiros: Governo ensaia recuo. Esquerda permance ausente

Recurso às Forças Armadas parece fracassar. Balança uma das políticas essenciais de Temer. Porém, enorme potência rebelde da mobilização segue desperdiçada

Por Antonio Martins

I.
Tudo é móvel e pode se desfazer rapidamente nos momentos de crise aguda, mas a tendência principal, na manhã deste domingo (27/5) é um novo recuo do governo Temer, diante da paralisação nacional dos caminhoneiros. A forma em que ele poderá se dar foi ensaiada ontem à noite, em São Paulo. Sob mediação da OAB o governador Márcio França reuniu-se com lideranças da categoria em luta. Do encontro, saiu um pré-acordo, a ser levado aos bloqueios nas rodovias. Ele implica novas concessões por parte do Estado. O congelamento do preço dos combustíveis seria ampliado para 90 dias. O Procon fiscalizaria, nos postos, sua efetivação. Haveria importante redução nas tarifas dos pedágios, com o fim da cobrança pelos “eixos suspensos” (que significa ausência de carga) dos caminhões. Seriam anuladas todas as multas aplicadas. Os caminhoneiros autônomos passariam a ter representação na Agência de Transportes estadual.

Ficou claro, no encontro, que não se trata de acordo — mas, por enquanto, de sondagem. As primeiras reações, entre os caminhoneiros, foram contraditórias. Ainda assim, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, foi chamado às pressas, para participar de sua celebração. Declarou não apenas que concorda com os termos negociados mas também que proporá, a Michel Temer, sua adoção pelo governo federal. Afirmou que “os caminhoneiros já são vitoriosos”. Um novo encontro, no Palácio dos Bandeirantes, está marcado para as 15h de hoje.

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Enfim, um robô para mulheres – e não é apenas para sexo

Henry, o andróide da Realbotix: é possível escolher entre 12 padrões de personalidade e uma gama de pênis de silicone

Será preciso muito para um androide superar o que os homens fazem pelas suas parceiras?

A RealBotix, uma empresa norte-americana que produz robôs de companhia, anunciou que lançará em breve um androide destinado ao público feminino, de nome Henry. Além de parceiro sexual, ele terá capacidade de mostrar-se companheiro, fazendo perguntas sobre como sua proprietária passou o dia e reagindo diante de seus desejos e temores. Henry mede 1,80m, pesa 38kg e custará entre 11 e 15 mil dólares, dependendo dos itens opcionais. A Realbotix, que no momento produz apenas robôs com corpo feminino, tem sido criticada por objetificar o corpo das mulheres. Será preciso muito para um androide superar o que os homens fazem pelas mulheres?

Como a Grã-Bretanha trata os miseráveis

Sem-teto: multa de até 1100 libras e prisão, por “pedir” ou “vagabundear”

Sem-teto são multados, processados e encarcerados devido apenas… a sua condição de excluídos

Operações cruéis de ataque a pedintes e moradores de rua — como o ex-prefeito de S.Paulo, João Dória, orgulhava-se de fazer — seriam uma aberração brasileira? Ou estão se tornando norma, no capitalismo contemporâneo? Uma reportagem na edição de hoje do Guardian ajuda a responder. O jornal londrino revela que um número crescente de sem-teto britânicos estão sendo multados, processados ou encarcerados devido apenas a… sua própria condição de excluídos.

Tudo começou em 2014, quando a atual primeira-ministra (então secratária do Interior), Thereza May concedeu, a autoridades locais, poderes para endurecer o combate a “atitudes anti-sociais”. Com base nas leis de acesso a informações públicas, o Guardian apurou que centenas de pessoas em condição vulnerável têm sido importunadas, a cada ano, por “pedir”, “pedir agressivamente” ou “vagabundear”. As multas chegam a 1.100 libras (cerca de R$ 5 mil), obviamente impagáveis. Há casos grotescos, como o de um juiz que escreveu: “estou mandando um homem para a prisão por ter pedido comida, quando estava faminto”. Ou de um morador de rua condenado a uma multa de 105 libras depois que uma criança depositou uma moeda de 2 libras em seu sleeping bag.

A aristocracia financeira teme os hackers

Bunker de “defesa” da Mastercar, com relógio indicando número de ataques num dia

Sistema dos bancos globais é vulnerável. Perdas anunais equivalem ao PIB da Suécia

Uma longa reportagem no New York Times revela hoje o temor crescente do mundo financeiro global — bancos e outras instituições de crédito — diante da possível invasão de seus gigantescos sistemas de dados e comunicação. Eles são bastante vulneráveis, ao contrário do que se pensa. Só no ano passado, as invasões teriam custado 445 bilhões de dólares — pouco menos que o PIB da Suécia. Como são imensos, os bancos suportaram as perdas. Mas temem um ataque devastador, que comprometa sua capacidade de operar. Por isso, montam centros de “defesa” que, segundo a reportagem, assemelham-se cada vez mais a bunkers militares.

O fantasma norte-coreano tira o sono de Trump

Trump e o linha-dura John Bolton, que quer fazer da Coreia do Norte “uma Líbia”

E mais: uma provocação da Casa Branca levou o coreano Kim Jong Un o por em questão o diálogo com Washington

O New York Times revelou que o presidente norte-americano, Donald Trump está indeciso e iniciou consultas a aliados e conselheiros, para saber como agir em relação a seu encontro previsto com Kim Jong Un, líder político da Coreia do Norte. A reunião está marcada para junho, em Singapura. A política norte-americana tem seguido zigue-zagues. Por anos, Kim Jong Un foi tratado como ditador, à frente de um governo sanguinário. Nas últimas semanas, porém, começou uma lua-de-mel, com setores do establishment norte-americano sonhando em transformar Pyongyang num aliado de Washington bem próximo ao coração da China.

Mas na quinta-feira veio o banho de água fria. Um porta-voz do governo norte-coreano afirmou que os EUA devem esquecer a hipótese de que a Coreia do Norte aceite pressões para se desfazer unilateralmente de suas armas nucleares. Além disso, colocou em dúvida a própria realização do encontro com Trump. A imprensa norte-americana admite: esta reação, que alguns viram como intempestiva, foi resposta a declarações de John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca. Dias antes, este afirmara que as negociações entre Washington e Pyongyang deveriam “seguir o modelo líbio” — ou seja, desarmar o adversário para em seguida atacá-lo militarmente…

Iraque: depois dos EUA, o nacionalismo?

Nem EUA, nem Irã, sugere o clérigo xiita, vencedor das eleições. Com ele, o Partido Comunista

O fim de semana também foi marcado por eleições parlamentares no Iraque. Venceu a coalizão liderada pelo clérigo xiita Muqtada al-Sadr — que inclui, entre outros, o Partido Comunista. Al-Sadr é conhecido por opor-se à presença norte-americana no país, mas também à crescente influência iraniana. Sua vitória, porém, não foi completa. Num país fragmentado políticamente, sua coalizão obteve 54 das 329 cadeiras no Parlamento. Negociações para formar um novo governo — em até 90 dias, segundo a legislação do país — começaram ainda ontem.

Itália: o novo governo-Frankenstein e suas razões

Anti-sistema? Luigi di Maggio, líder da bancada do Movimento Cinco Estrelas

Poderão um partido que se diz anti-sistema e outro xenófobo governar o país? Começa um experimento curioso

Porta-vozes de dois grupos políticos italianos — o Movimento Cinco Estrelas (MVL) e A Liga anunciaram ontem que apresntarão nas próximas horas, ao presidente do país, Sergio Mattarella, o nome do possível novo primeiro-ministro. MVL e Liga anunciaram na sexta-feira que haviam chegado a um acordo para governar a Itália. Têm em teoria, votos parlamentares para sustentar um gabinete bipartidário (na Itália, parlamentarista, forma o governo quem tem mais cadeiras na Câmara e Senado). Mas tanto o programa quanto a composição deste governo serão esdrúxulas — um experimento político inédito, em meio à crise global da democracia.

Formado há menos de dez anos, sob liderança do comediante Beppe Grillo, o MVL considera a si próprio como “anti-sistema” e cresceu, essencialmente, ao fazer a denúncia da decadência da democracia e das políticas de “austeridade”. Nas últimas eleições (em março), tornou-se, individualmente, a maior força política do país. Até agora, sempre havia rejeitado coalizões. Já a Liga descende da Liga Norte, um partido originalmente elitista, separatista e xenófobo. Há alguns anos, moderou seu discurso e tornou-se o partido mais importante de uma coalizão de centro-direita que inclui a Forza Italia, de Silvio Berlusconi.

Como juntar estas duas correntes sem criar um governo-Frankenstein, incapaz de se sustentar? MVL e Liga apostam num programa que inclui crítica ao euro; rejeição das medidas de “austeridade” determinadas pela União Europeia; retomada dos serviços públicos e dos gastos sociais — mas, ao mesmo tempo, restrições à entrada e aos direitos dos imigrantes. Há alguma chance de sucesso? O que se sabe, por enquanto, é que o novo governo está incomodando os burocratas europeus, incapazes de tolerar qualquer tipo de crítica a sua cartilha neoliberal.