Camila Jourdan, presa política

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Quem é a professora de Filosofia encarcerada no Presídio de Bangu, sem que Polícia ou Justiça fluminenses apresentem indício de ilegalidade que tenha cometido

Por Ronai Rocha, editor de Coisas do Campo | Imagem Alexandre Noronha Machado

Camila Jourdan formou-se em Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2002. Fez seu mestrado na PUC do Rio, em 2005, e também na PUC concluiu em 2009 seu Doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Depois, foi bolsista CAPES-PRODOC na Universidade Federal do Paraná, entre 2009 e 2010. Nos dias de hoje é professora adjunta do Departamento de Filosofia da UERJ e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Eu a conheci aqui em Santa Maria, nos encontros anuais dos Colóquios CONESUL sobre filosofia das ciências formais, onde apresentou, por mais de uma vez, o resultado de suas pesquisas.

Camila Jourdan está presa, hoje, no Rio de Janeiro, em Bangu. Foi submetida a exames de corpo de delito e permanecerá, junto a dezoito outras pessoas, na prisão por cinco dias. Todos são acusados de formação de quadrilha, pelo que se lê na imprensa. Nos termos do jornal El Pais, de hoje (13.07), são “19 ativistas anti-Copa do Mundo ‘suspeitos de participar em atos violentos’, informaram fontes oficiais. Os militantes (…) respondem por crimes de formação de quadrilha armada, com pena prevista de até três anos de reclusão.”

Há um clima no Rio de Camila, hoje. Segundo o mesmo jornal El País, “para cada três felizardos que assistirem no domingo a grande final do Maracanã, haverá um policial (ou soldado) vigiando.” Foram mobilizados milhares de policiais, soldados e agentes, com a missão de evitar incidentes durante a partida”, etc… E, por óbvio, hoje é a ultima chance de algum protesto relacionado ao Fifacountry que vivemos nesse mês.

Camila Jourdan participava de protestos contra a Copa. Basta olhar a página dela no Face para ver que sim. Ela faz parte de um contingente de brasileiros que não contém a indignação nos limites privados. Ela ia para as ruas e fazia lá o seu protesto. Como é garantido a todos nós. Nesse momento, está metida num pacote de acusações demasiadamente pesadas e graves para que a gente fique esperando no que vai dar. Não vai passar desapercebido a ninguém que há uma rara combinação de contexto (a final da Copa) e a fragilidade das evidências que pretensamente sustentam a acusação de crime que leva a anos de prisão. Me contem outra. Eu sou um velho conservador, não preciso ser lembrado disso. Mas mais do que conservador, sou velho o suficiente para não cair no conto de que nossa democracia é frágil ao ponto de precisar dessas peneiras policiais grossas, que arrestam Camila e outros.

Faz poucos dias que um brasileiro precisou dar uma aula sobre a revolução francesa para provar que era um professor e não era um marginal, escapando assim de um linchamento popular. Nem todos os linchamentos são apenas populares. Alguns são mais sofisticados.

O que todos nós, amigos e colegas de Camila Jourdan esperamos é que nossa democracia, ainda pouca e frágil para tantas esperanças, seja madura o suficiente para não esmagar a nossa colega de colóquios e debates nas malhas de um equívoco estúpido. Camila muito nos honra e representa com sua coragem de ir para a rua e tem centenas de amigos que estão com ela nessa hora. Não queremos confundir essa brutal mis-en-cene (trapalhada? tragédia?) com encruzilhadas da democracia.

Terminado o jogo final da copa, quem sabe, termina esse sobre-esforço de criminalização de gente como Camila. Voltaremos ao Brasil, mesmo que com perdas. Afinal, um país que condenar Camila Jourdan por crime de formação de quadrilha ficará menor diante do si-mesmo que pode ser.

TEXTO-FIM

5 ideias sobre “Camila Jourdan, presa política

  1. Isso é fato terrível em uma democracia como a nossa. A moça só falta ser tratada como terrorista e ativista a bomba em eventos públicos.
    Ridículo essa prisão dessa mulher tem que ser revista com urgência.

  2. A sensação que eu tenho é a mesma de Foucault diante da prisão de Antonio Negri, numa viagem que aquele fez à Itália: “A filosofia, na Itália, está presa” (algo assim). Pura armação policial-midiática, contando com o beneplácito vergonhoso de uma parcela do judiciário. Provas do crime a ser cometido? Joelheiras, tornozeleiras, máscaras de gás, restos de gasolina numa garrafa pet, jornais, livros, bandeiras…? Depois acrescentaram, mentirosamente, haverem encontrado pólvora na residência de Camila e Igor.

  3. E agora que mostraram as gravações que provam que ela se associou a pessoas para produzir artefatos explosivos? Vai ter retratação deste texto?

  4. Parem de utilizar de modo leviano a expressão “preso político”! É um desrespeito aos que verdadeiramente foram e são perseguidos e mortos nas ditaduras. Essa “professora” é apenas uma criminosa comum, que deveria ser destituída de qualquer função pública. Vergonha!

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