Neoludismo: desconectar para encontrar

 

Em meio a novos sinais de invasão de privacidade pelo Facebook, cresce movimento que propõe enxergar a tecnologia de modo crítico e abandonar a busca da conexão permanente

Por Maria Cecília Oliveira Gomes

Vendo em um espelho negro uma imagem animada de nós mesmos e reconhecendo que ela apenas existe porque nós seres humanos a criamos. É o momento em que num lampejo de consciência nos questionamos: “Qual é mesmo a natureza daquilo que anima o que é animado?”[1]

TEXTO-MEIO

Essa pergunta leva o ser humano a fazer a mesma pergunta que já se fazia nos primórdios do pensamento filosófico, na eterna busca pela própria identidade: “Quem sou eu?”.

Qual é a minha verdadeira natureza, a animada, correspondente à representação virtual de mim mesmo na Internet? Ou, esse ser corpóreo que tenta, no ato de animar, criar uma personalidade melhorada de si mesmo, para representar um papel online.

E assim chegamos na crise existencial do sapiens na era pós-moderna.

Ambiguidade do ser: o eu digital e o eu humano

A imagem refletida no espelho negro nos faz questionar a nossa própria natureza. No caso, se aquilo que criamos, animamos, de fato representa quem nós somos. Essa ambiguidade, entre o ser que anima e a criatura que é animada, é fruto da nossa busca por representarmos algo em sociedade. O ser virtual, o ser construído nas redes sociais, não existiria se a sociedade e a cultura assim não quisessem. Ele apenas existe porque vivemos em um momento histórico no qual é importante nos fazermos presentes, representados, perante o mundo através do desempenho de um papel virtual. O virtual é o verdadeiro palco no século XXI.

Com o advento da tecnologia, foi criado o termo “tecnocultura”[2], por volta de 1960, para representar a influência mútua entre tecnologia e cultura com foco em seus pontos e meios de contato. Mais tarde, a tecnocultura passou a ser associada à resistência criada por diversas correntes e movimentos culturais tecnologicamente inspirados em face das instituições tecnocráticas organizacionais e governamentais. Neste caso, a tecnocultura constitui-se um campo de disputa que pode ser orientado para elevar ou para subverter regimes dominantes[3].

Fato é que com a expansão da tecnocultura foi disseminada uma crença, pelos grandes promovedores dela — a mídia digital — de que “vivemos em uma sociedade conectada” e que, por isso, precisamos estar conectados a todo o momento. Ou seja, foi desenvolvido o pensamento de que todos nós, sapiens no século XXI, precisamos – ou melhor, necessitamos — nos fazer representados no meio virtual, uma vez que isso estimula a globalização e a imersão em um mundo cada vez mais “feliz” e conectado. Conectar para existir.

No entanto, existem aqueles que não querem que a sua relação com a tecnologia se desenvolva dessa forma, não querem ter uma representação virtual de si mesmos e não se sentem confortáveis com a “pressão social” deste século. Estes são os atuais outsiders[4] do sistema tecnológico. Esse conflito entre tradição cultural e vontade fez com que fosse criado um movimento contrário à tecnologia, por volta de 1990, o chamado neoludismo. Este seria a reformulação do ludismo, movimento ocorrido durante um breve período da Primeira Revolução Industrial (1811-1812), no qual os homens promoviam a destruição de máquinas, uma vez que acreditavam que elas ameaçavam os seus postos de trabalhos. Desconectar para existir.

O neoludismo questiona o culto à tecnologia e o impacto dela no coletivo, não se autodenominando avesso à tecnologia, mas apenas consciente do seu papel e da sua representação no meio social. Claro, como em qualquer movimento, existem personagens que de fato abominam o uso da tecnologia. Contudo, numa era de extremos[5], parece que precisamos escolher entre estar super conectados ou super desconectados.

A verdade é que o ser humano sempre constrói tradições, cria regras, costumes, normas e em contrapartida, ele questiona essas mesmas tradições e sempre as destrói ou as reformula. Isso é natural e parte de toda construção histórica da sociedade. Dessa forma, o atual conflito existente na tecnocultura é apenas um movimento histórico da pós-modernidade. Sobre esse conflito, vale ressaltar a reflexão da filósofa Maria Lucia de Arruda Aranha[6]:

A condição humana é de ambiguidade porque o ser do homem não pode ser reduzido a uma compreensão simples, como aquela que temos dos animais, sempre acomodados ao mundo natural e, portanto, idênticos a si mesmos. O homem é o que a tradição cultural quer que ele seja e também a constante tentativa de ruptura da tradição. Assim, a sociedade humana surge porque o homem é um ser capaz de criar interdições, isto é, proibições, normas que definem o que pode e o que não pode ser feito. No entanto, o homem é também um ser capaz de transgressão. Transgredir é desobedecer. Não nos referimos apenas à desobediência comum, mas àquela que rejeita as fórmulas antigas e ultrapassadas para instalar novas normas, mais adequadas às necessidades humanas diante dos problemas colocados pelo existir. A capacidade inventiva do homem tende a desalojá-lo do “já feito”, em busca daquilo que “ainda não é”. Portanto, o homem é um ser da ambiguidade em constante busca de si mesmo.

Somos, portanto, ambíguos, transgressores, eternamente insatisfeitos com as regras e padrões que nós mesmos criamos e alimentamos diariamente. E nessa busca pelo existir, independente de estarmos conectados ou desconectados, fato é que acreditamos que perdemos um pedaço de nós para o virtual, para o nosso ser animado; que deixamos de ser algo, que em algum momento nos desencontramos de nós mesmos seja pelo uso excessivo, seja pelo receio de usar, e o “Quem sou eu?”, passou a ser mais o “Quem somos nós?”.

Desconexão como um direito

Considerando tudo isso, vale questionar o que aconteceria se decidíssemos nos desconectar e/ou excluir o ser animado: será que nós nos teríamos de volta? Será que a desconexão nos faria encontrar a nós mesmos?

Para uma sociedade hoje virtualizada, essa saída de cena poderia ser considerada como uma transgressão. Se hoje a regra é existir no virtual, e você deseja se desconectar, é como se você deixasse de existir — portanto, você é um transgressor do sistema.

Você precisa ter Facebook para interagir; você precisa ter Linkedin para procurar um emprego; você precisa ter um aplicativo de mensagens para se comunicar com o seu trabalho e família; você precisa ter um aplicativo mobile para se locomover e futuramente apenas um cartão virtual para usar transporte público; você precisa ter biometria para votar; você precisa ter uma boa avaliação para poder trabalhar em aplicativos; você precisa ter um score para ter um direito a crédito. Você precisa, você precisa… você é forçado a precisar.

E o ato e a obrigação de precisar faz com que você “transgressor” da tecnologia e do atual conceito de existir tecnocultural, seja colocado de lado, como um outsider desse sistema. Somos aquilo que criamos e somos também aquilo que deixamos de criar.

A verdade é que você continuará existindo, só deixará de pertencer a bolhas sociais diferentes — isto porque o ato de existir no mundo virtual corresponde a uma manifestação cultural da era pós-moderna, o existir humano não é natural, mas cultural. E é cultural por ser simbólico, já que todo contato é intermediado pelos símbolos, isto é, pelos signos – arbitrários e convencionais – capazes de representar o mundo[7]. Portanto, o ato de se desconectar é uma escolha e para uma ínfima parcela do mundo um ainda pequeno e parcial direito adquirido.

Essa ambiguidade entre conectar ou desconectar demonstra que o ser humano é um equilibrista que continua na corda bamba nietzschiana[8] — perigoso caminhar, perigoso cair — buscando encontrar um meio termo entre a sua existência física e virtual, para entre esse caminho longínquo de dúvidas, conseguir – ou pelo menos acreditar que vai — chegar a um fim e elucidar o seu sentido, a sua própria existência.

Nessa tentativa de tentarmos ser onipresentes, tornamo-nos cada vez mais representados para o mundo e cada vez mais ausentes de nós mesmos.

Consciência e Tecnologia

Acredito que chegamos em um momento em que precisamos remodelar a nossa relação com a tecnologia. Isso não significa ser/estar (des)conectado, mas sim, utilizarmos a tecnologia para um propósito maior e um objetivo social mais concreto. Cada vez mais a ambivalência entre conexão/desconexão nos leva a pensar se não podemos desenvolver tecnologias que nos proporcionem experiências, que não sejam apenas uma troca de dados por uma prestação de serviços (data-driven society), mas que possam nos proporcionar uma relação mais calma e equilibrada com a máquina.

A tecnologia pode ser utilizada de forma consciente. Estarmos conscientes de quem nós somos e qual é a melhor forma de interagirmos com todas as coisas boas que a tecnologia nos proporciona é um caminho — porque ela proporciona e já proporcionou grandes mudanças positivas no mundo. Pensar no desenvolvimento (design thinking) de tecnologias não invasivas é também um caminho, não se trata de apenas pensar em privacy by design ou privacy by default para dispositivos, mas em ferramentas para irmos muito além disso.

Parece que, em algum momento da história recente, abrimos mão do controle da tecnologia e deixamos que ela passasse a nos controlar, a decidir a nossa rotina, a forma como enxergamos o mundo e a forma como nos relacionamos com as pessoas. A natureza gregária do sapiens foi transposta, pela primeira vez na história da humanidade, para um mundo paralelo, o virtual.

Não se trata de apenas ficar consciente e se policiar acerca do uso pessoal que você faz da tecnologia: esse é um olhar micro. O que precisamos é estar conscientes do impacto da tecnologia nas nossas vidas, no nosso inconsciente coletivo[9] nas próximas décadas, e passar a utilizá-la de forma mais empoderada e a desenvolvê-la de um modo que favoreça essa consciência e que não nos cause problemas de ordem física e psicoemocionais.

Nas palavras de Haraway, “A tecnologia não é neutra. Estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de nós. Vivemos em um mundo de conexões – e é importante saber quem é que é feito e desfeito[10]”.

No final do dia, quando estamos cansados e olhamos pela última vez para o espelho negro do nosso celular, podemos começar a pensar: quem é que define a sua existência, você ou a sua cópia virtual?

____________________________

[1]HARAWAY, Donna. KUNZRU, Hari. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. organização e tradução Tomaz Tadeu. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. pág. 11.

[2]GENOSKO, Gary. When technocultures colide: innovation from below and the struggle for autonomy. Ontário. Wilfrid Laurier University Press, 2013. pág. 01.

[3]GOMES. Raquel Salcedo. GOMES, Marcelo Salcedo. Mobilidade e Tecnocultura: Q linguajar é esse? In: Encontro da Rede Sul Letras, 4, 2016, Palhoça, SC. RAUEN, Fábio José (Org.). Anais. Tubarão, Universidade do Sul de Santa Catarina, 2016. p. 755. Disponível em: <http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/eventos/sulletras/PDF/Raquel-Gomes-1.pdf>. Acesso em: 03 fev. 2018.

[4]“Todos os grupos sociais fazem regras e tentam, em certos momentos e em algumas circunstâncias, impô-las. Regras sociais definem situações e tipos de comportamento a elas apropriados, especificando algumas ações como “certas” e proibindo outras como “erradas”. Quando uma regra é imposta, a pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista como um tipo especial, alguém de quem não se espera viver de acordo com regras estipuladas pelo grupo. Essa pessoa é encarada com um outsider”. BECKER, Howard S. Outsiders, estudos de sociologia do desvio. 1 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, pág. 15.

[5]“Vivemos num mundo conquistado, desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo, que dominou os dois ou três últimos séculos. Sabemos, ou pelo menos é razoável supor, que ele não pode prosseguir ad infinitum. O futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. As próprias estruturas das sociedades humanas, incluindo mesmo algumas das fundações sociais da economia capitalista, estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar. Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e — se os leitores partilham da tese deste livro — por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão”. HOBSBAWN. Eric. Era dos Extremos, o breve século XX (1914-1991). 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pág. 446/447.

[6]ARANHA, Maria Lucia de Arruda. MARTINS, Maria Helena Pires. Temas da Filosofia. 1 ed. São Paulo: Moderna, 1992, pág. 35.

[7]ARANHA, Maria Lucia de Arruda. Filosofia da educação. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1994, págs. 14/15.

[8]“Jung entendia essa cena como uma metáfora para o próprio Nietzsche, seu ego inflado tentando caminhar acima da multidão e sua sombra renegada e inconsciente que o derruba. Vivemos em um mundo que é uma corda bamba. Nos vangloriamos de nossas armas e edifícios altos, bancos e companhias de seguros que se erguem acima da comunidade humana. Falamos sobre fazer o nosso próprio destino e desenvolver poderes ilimitados (como se soubéssemos o que fazer com eles), apesar de não termos a menor ideia de quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.  JAROW, Rick. Criando o trabalho que você ama. 1 ed. Rio de Janeiro: Mauad X: Inverd, 2014. pág. 70.

[9]“O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade”. JUNG. Carl. J. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 2. ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2000. pág. 53.

[10]HARAWAY, Donna. KUNZRU, Hari. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. organização e tradução Tomaz Tadeu. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. pág. 32.

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Maria Cecília Oliveira Gomes

Advogada especializada em Regulação de Novas Tecnologias e Cofundadora do Digital Rights

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