O capitalismo precisa de Celso Roth para substituir o Celso Roth

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

O sistema precisa de medidas mirabolantes – e duras – para se dar a impressão de que está sendo consertado, quando se está fazendo apenas um remendo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Com o Inter de Porto Alegre praticamente rebaixado no Brasileirão, as piadas de adversários tomaram as redes sociais. A melhor delas – e a mais inquietante – é a seguinte: “O Inter precisa contratar o Celso Roth para substituir o Celso Roth”.

Celso Roth comandou o time – que nunca caiu – durante a maior parte do campeonato. Não é um técnico conhecido pela criatividade, ou por um vasto repertório de jogadas, pelo conhecimento tático. Mas como aquele que vai “dar um jeito”, nem que seja na base do grito, da pressão. Por isso ficou conhecido como técnico que salva times do rebaixamento. Paradoxalmente, participou do rebaixamento do Vasco, no ano passado, e do provável rebaixamento do Inter. Continuar lendo

Brasil precisa de uma Crítica da Aceleração Cínica

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O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cínicos tomou o Planalto, referendada por cínicos de toga e por multidões de cínicos políticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu sua “Critica da Razão Cínica” em 1983. Mais de 30 anos depois, podemos usar o mote para pensar na extensão do cinismo em terras brasileiras, nestes tempos recentes. A ética das conveniências – uma ética às avessas, portanto – tem sido invocada por atores políticos de diversos matizes. Particularmente pelos que pretendem preservar o estado atual das coisas. Como os cínicos descritos pelo alemão.

Não falo dos cínicos originais, claro. Como o grego Diógenes, aquele da Lanterna. Assim como outros termos (“prudência”, por exemplo), a palavra cinismo foi ganhando, ao longo dos séculos, um contorno oposto. De uma postura libertária, provocativa, contestadora, iconoclasta, foi aos poucos se tornando isso o que está aí – uma palavra em sintonia com as práticas cotidianas da burguesia. Ligada a um fingimento – mas um fingimento conservador, quase violento. Continuar lendo

Lochte, o vilão? Ora, o Brasil tem os próprios mentirosos

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Disputa narrativa durante as Olimpíadas ganhou uma unanimidade; em pleno Golpe do Pato, nadador americano rouba a cena dos que dilaceram há meses nossa democracia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Cê ta pensando que eu sou Lochte, bicho..
Sou malandro velho, não tenho nada com isso

(Arnaldo Baptista, “Lóki?”, revisitado)

E eis que o nadador americano Ryan Lochte alcança a unanimidade. Nem a judoca brasileira medalhista (Rafaela Silva), nem o francês vice-campeão do salto em altura (Renaud Lavillenie) – ninguém a obtivera. Nem Usain Bolt. Nem Galvão Bueno. Em plenas Olimpíadas, o espetáculo esportivo de mitificações e demonizações tem agora um vilão para chamar de seu. Da mídia brasileira à mídia americana, que o apelidou de “americano feio”.

Mas quem tem medo de Ryan Lochte? Sua traquinagem um tanto limítrofe (apesar dos 32 anos nas costas largas) foi descoberta pela polícia brasileira, ótimo. E? E o que mesmo? Sim, não somos patetas. E temos uma história folclórica, que logo será esquecida. Mesmo assim, ela ganhou um destaque estratosférico, roubando a cena de Simones e Phelps, Neymares e velas, das torcidas pouco fleumáticas e da mais nova higienização promovida pelo poder público no Rio. Continuar lendo

Depois da Lei de Gerson, Brasil tem a Lei de Cristovam

Senador pelo DF inventa a “violência constitucional necessária”; frase para justificar impeachment lembra Jarbas Passarinho; e entra no panteão brasileiro da infâmia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Quem se lembra do tricampeão Gerson fazendo propaganda de cigarro, nos anos 70? “Eu fumo Vila Rica porque gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também!”

Virou uma lenda. Um código de ética às avessas. Passados os anos, porém, a Lei de Gerson vai se tornando esquecida. Afinal, diante de tanta gente levando vantagem em tudo, seguiríamos culpando… o Gerson? Continuar lendo

Comentários a respeito de José Luiz Penna

O tempo andou mexendo com o presidente do PV, ex-comunista (e compositor da música de Belchior), agora nomeado secretário da Cultura de Geraldo Alckmin

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decida a minha vida
Não preciso que me digam de que lado nasce o sol
Por que bate lá meu coração

Sonho e escrevo em letras grandes (de novo)
Pelos muros do país
João, o tempo andou mexendo com a gente sim

José Luiz Penna assina com Belchior uma das obras-primas do compositor cearense: “Comentários a respeito de John”. Era uma homenagem a John Lennon. Corria o ano de 1979 – um ano antes do assassinato do beatle por um louco de pedra. Continuar lendo

Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

Cinco moradores de rua morreram nos últimos dias em SP; tuberculose e rejeição a animais de estimação como fatores de rejeição a abrigos mostram limites do Estado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há muito mais coisas entre os albergues e os moradores de rua que o senso comum possa imaginar. Uma das consequências concretas: as pessoas estão morrendo de frio. Em São Paulo, nos últimos dias, foram cinco. Notícia de hoje da Folha mostra que as regras nos albergues afugentam o povo de rua. Entre elas, proibição de casais. Outra, dificuldade para abrigar os animais de estimação.

Mas não só: há o medo da tuberculose. Nada menos que uma das principais causas de morte nos presídios, por exemplo. Todos esses fatores estão listados na reportagem. E mostra que a recusa dos moradores de rua em relação aos abrigos nada tem de capricho. Muito menos de suicida: há os que preferem andar à noite para se aquecer; e, portanto, dormir de dia. Continuar lendo

Resposta ao delegado deputado: somos todos “famosos quem”

Coronel Telhada (PSDB) e Delegado Olim (PP) dão show de truculência na Assembleia Legislativa de SP; o segundo perguntou a quem discordava: “Você é o famoso quem?”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A sequência inicial do vídeo acima mostra o deputado estadual Coronel Telhada (PSDB) sendo enfrentado por uma das estudantes que ocupam a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A postura corporal e o tom de voz dele já dizem tudo. O deputado é machão, o deputado é viril, e o deputado diz que vai prendê-la. Por quê? Porque ela está pedindo legitimamente uma CPI para apurar os desvios de merenda no governo paulista? “Sim, é por isso mesmo”, balbucia ele.

Mas eis que surge seu colega Delegado Olim (PP) e consegue deixar o palanque dos parlamentares (não chamemos de picadeiro, em consideração aos profissionais do circo) ainda mais barulhento. “E você, é o famoso quem?”, grita. O deputado chama um homem de louco, invoca a autoridade – vocês-pensam-que-estão-falando-com-quem-aqui – e quase consegue tornar Telhada o deputado bonzinho ao lado do deputado malvado. E repete: “Você é o famoso quem? Aqui quem fala é deputado.”

Pois é isso que os nobres deputados ainda não entenderam. Nós somos todos os Famosos Quem. Continuar lendo

Do roubo de merenda em SP à dentista que fura gengivas de crianças

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Ocupação de secundaristas em SP (Foto: Marco Estrella/ Jornalistas Livres)

Estudantes de Odontologia da USP torturam pacientes para “acalmá-los”; enquanto isso, secundaristas enfrentam corajosamente policiais da Tropa de Choque

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A crise é ética. E está do lado dos mais fortes. O que têm em comum os ladrões de merenda em São Paulo e as estudantes de Odontologia da USP que não veem problemas em furar gengivas de crianças para “acabar com a birra”? Poder, claro. E um profundo desprezo pelos direitos específicos dessas pessoas, como se elas fossem meros objetos, ou números (no consultório ou na dança dos orçamentos públicos).

A história das torturadoras de crianças está circulando pela internet. Não é o caso de colocar o nome delas. Quem sabe o Ministério Público tenha interesse. Um pouco mais do que certas feministas que cobraram sororidade (solidariedade entre mulheres) como motivo para não expor as estudantes. Não é o caso porque não se deve fazer linchamentos virtuais. Nem de homens nem de mulheres. Mas as crianças, sim, essas devem ser protegidas. Continuar lendo

Votação do impeachment no Senado expõe cobranças e ressentimentos

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Ela tem um voto somente. Mas é a notícia em pessoa. (Foto: Agência Senado)

De escracho indevido contra Cristovam Buarque à perplexidade diante das novas companhias de Marta Suplicy, vive-se raro momento de memória em relação ao voto

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Diante do número superlativo de deputados na Câmara, e de uma certa amnésia coletiva em relação aos votos em 2014, está do lado côncavo do Congresso – o Senado – o acompanhamento mais estreito da posição e coerência dos parlamentares. Nos últimos dias, tanto Marta Suplicy como Cristovam Buarque foram alvo dessas cobranças de eleitores. Em alguns casos, abusivas. Em outros, não só legítimas, como saudáveis. Como se homenageássemos a democracia aos 43 minutos do segundo tempo de seu jogo de despedida.

A senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) costuma ser um mata-borrão de diatribes. Sejam da própria lavra, sejam contra ela. Até dramalhão familiar compõe a saga midiática da senadora, que pediu “respeito” ao ex-marido Eduardo Suplicy (PT-SP) após ele sugerir que ela consultasse os eleitores sobre seu voto – declarado – a favor do impeachment de Dilma Rousseff. (A palavra respeito vem do latim “respicere”, particípio passado de “respectus”. Significa “olhar outra vez”.) Continuar lendo

Meus professores (lembranças a partir do massacre de Curitiba)

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Duzentos feridos durante repressão a professores em Curitiba (Agência Paraná/ Fotos Públicas)

Batalha do Centro Cívico, em Curitiba, ou Massacre do 29 de Abril, completou um ano; blog relembra texto publicado na época em homenagem aos professores

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Ministério Público chama de Batalha do Centro Cívico. Os professores, de Massacre do 29 de abril. Centenas deles foram espancados em Curitiba, há um ano, durante protesto contra o governo de Beto Richa (PSDB). Duzentas pessoas ficaram feridas.

No dia seguinte escrevi em minha página de Facebook o texto abaixo. Título: “Meus professores”.

Lembro-me do Seu Deusdedit, de português. No ginásio. Sou do tempo do 1º grau, mas falávamos ginásio, lá em São Carlos, sempre em escolas públicas. (E como tenho saudades delas.) Se hoje concateno um pouco melhor as palavras devo muito a ele e à Dona Ângela, do colegial. Misto natural de professora e psicóloga. Uma motivadora. Nunca entendeu por que eu fui estudar exatas, antes de trilhar o caminho das humanas. Continuar lendo