Fantástico identifica feirantes como “picaretas”; palavra será jornalisticamente ativada?

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Sociedade do consumo é também a sociedade do simulacro; mas utilizaremos os termos precisos também para aqueles mais poderosos economicamente?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Feirantes compram produtos com agrotóxicos e vendem como se fossem orgânicos. O Fantástico identificou neste domingo alguns deles, que definiu como “fraudadores que se aproveitam da boa fé dos consumidores para faturar muito”.  “São picaretas que se aproveitam de um mercado que cresce mais de 20% ao ano e não é fiscalizado suficientemente”, definiu a revista eletrônica da Globo.

Não se trata de defender esses farsantes. A questão é outra: a utilização da expressão “picaretas” será jornalisticamente utilizada em outras situações? Para outros tipos de acusados, eventualmente com um faturamento um tanto maior que o desses feirantes de Florianópolis? Estamos, de fato, de olho, nas distorções da sociedade do consumo (ou em outros tipos de enganadores), ou se trata de uma indignação seletiva? Continuar lendo

Não, não está legal a capa da Galileu com um “bandido morto”

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Por mais que revista da Globo se posicione contra linchamento de negros e pobres, edição parte de pressupostos mais do que questionáveis, que naturalizam distorções

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não. Nem por hipótese é possível aceitar a ignomínia da frase “bandido bom é bandido morto”. A revista Galileu deste mês propõe uma abordagem mais progressista para o tema que a média da grande imprensa, é bem verdade. Mas com vários senões. Que muito defensor de direitos humanos ainda não percebeu. A própria manchete traz pressupostos perigosos: “O bandido está morto. E agora?” (Com a imagem de um modelo negro amarrado – linchado – e morto, cheio de sangue.)

E quais seriam esses pressupostos? Implícitos ou explícitos?

1) Quem mata é a população.

Sim, também vivemos no país dos linchamentos. O sociólogo José de Souza Martins detalhou o tema em livro recente (Editora Contexto, 2015). Mas quem mais mata no Brasil esses que o senso comum chama de “bandidos” não são os populares. É a polícia. Particularmente a Polícia Militar. São os grupos de extermínio, as milícias – formadas também por policiais.
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Estadão diz que MST “invade” fazenda de político; só que a terra é pública

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Jornal utiliza o verbo “invadir”; mas se esquece de informar que as terras ocupadas são públicas; nos anos 50, veículo classificava de criminosos os esbulhos na região

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Utilizemos a própria notícia do Estadão para demonstrar que a notícia do Estadão não tem nenhuma sustentação. Apenas o propósito de defender proprietários de terra que  não são proprietários de terra. E sim senhores que se apropriaram de terras públicas.

Em pauta, a velha utilização do verbo “invadir”. Mas somente quando se trata de movimento social reivindicando seu espaço. Vejamos: “MST invade fazenda de político no extremo oeste paulista“.

Trata-se de Agripino de Lima, ex-prefeito de Presidente Prudente. Um pobre e inocente proprietário de uns nacos de terras, importunado injustamente pelos camponeses? Não exatamente. E é o próprio texto que informa isso: Continuar lendo

Reflexões sobre corrupção “organizada” e “imprópria”

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Pensata de FHC precisa ser mais bem detalhada; reflitamos, então, sobre organicidade e acaso, e sobre as características centrais dessa palavra-fetiche, “corrupção”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O príncipe Fernando Henrique Cardoso admite que em seu governo a corrupção existia, mas não era “organizada“. À tentação de imaginar a Mancha Verde, a Gaviões da Fiel e a Jovem Fla como símbolos do que seria algo “organizado”, permito-me mais uma vez pesquisar a origem do termo. Ele vem de “orgânico”, “que possui órgãos cujo funcionamento determina a vida”. Desconhecíamos até então essa influência naturalista – biológica – na visão do sociólogo.

O Dicionário Houaiss descreve este sentido para a palavra organizado:

que constitui um conjunto definido, estruturado, fundamentado

E este para a palavra orgânico:

relativo ou pertencente à constituição ou estrutura (de qualquer conjunto, totalidade etc.); caracterizado pelo arranjo sistemático de suas partes; estrutural
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SP: a quem interessam as notícias sobre “depredação” nas escolas?

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EE Fernão Dias Paes, em Pinheiros, na 1ª semana de ocupação (Foto: Alceu Castilho)

Existe risco de alunos que se mobilizaram em SP serem responsabilizados por um problema de segurança pública anterior às ocupações, que foram pacíficas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como jornalista, sou a favor da liberdade de expressão e da circulação de informações de interesse público. Se houve algum tipo de destruição em escolas, que isso seja noticiado. Mas com responsabilidade. Não de forma a culpar os estudantes que as ocuparam; muito menos todos os estudantes que ocuparam todas as escolas. Até porque a versão dos alunos é bem diferente. Interessa muito aos derrotados políticos passar à população a ideia de que as ocupações não foram tão pacíficas e politizadas (e artísticas, culturais) como vimos nas últimas semanas.

Vejamos o caso de Osasco, neste sábado. Foi o segundo caso em uma semana. Título no G1: “Osasco registra novo caso de escola estadual depredada“. Subtítulo: “Governo culpa manifestantes por vandalismo na escola Francisca Peralta. Alunos que ocupavam o espaço afirmam que não fizeram depredação”. Atentem a um detalhe: não é que eles somente afirmam que não fizeram depredação. Eles acusam diretamente um grupo de jovens que entrou nas escolas e os ameaçou. Continuar lendo

Estudantes de SP refundam a cidade; Alckmin não é o único derrotado

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A revogação do decreto que fechava 93 escolas comprova que ocupações são um método político legítimo; jornais que falaram em “invasões” também perderam

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O governador Geraldo Alckmin levou um xeque-mate já na primeira semana de ocupações em São Paulo. E demorou a perceber. Mais até do que a presidente Dilma Rousseff levou para perceber a dimensão da catástrofe em Mariana (MG). Os estudantes fizeram uma jogada de mestre. Ocupar as escolas que seriam fechadas levou ao governo estadual a imagem de truculento – que só seria agravada em caso de reintegrações de posse.

Foi uma alternativa aos protestos de rua, precocemente abortados pelos black blocs. Estes foram isolados pelos secundaristas, em frente do Palácio dos Bandeirantes, enquanto tentavam derrubar as grades. O método violento servia para o governo – e para a opinião pública – desqualificar o movimento. Mas a nova geração de adolescentes paulistanos mostrou-se mais madura que os militantes tradicionais. Não desistiu. Reuniu-se em assembleias e conquistou territórios. Continuar lendo

Jornais definem agressões da PM em SP como “confusão”

Lógica de guerra e violência é atenuada por certos títulos e textos; seria um jornalismo impreciso, se não fosse um jornalismo com compromissos políticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra a consagração da palavra “confusão” nas chamadas para os filmes da Sessão da Tarde, na Globo. A falta de imaginação do redator acaba nos fazendo rir. O problema maior é quando o jornalismo brasileiro revive o clichê para atenuar um confronto político – ou simplesmente agressões praticadas por policiais militares.

Notícia do G1, na noite de terça-feira (01): “Protesto de estudantes em São Paulo termina em confusão“.

Título no UOL, também na noite de ontem: “Após confusão, quatro são detidos em protesto contra reorganização“. Continuar lendo

Minimizadores do caso Samarco tentam reinventar palavra “tóxico”

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Defensores da mineradora ignoram definição de toxicidade para amenizar impactos do rompimento da barragem em Mariana; não somente metais pesados têm efeito nocivo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Fotos: Herone Fernandes e Leonardo Merçon/ Instituto Últimos Refúgios

Tomemos a definição do Dicionário Houaiss:

“tóxico \cs\
adjetivo e substantivo masculino 

1 que ou o que produz efeitos nocivos no organismo
‹ substância t. › ‹ a cocaína é um t. ›
2 que ou o que contém veneno”

E agora o leitor decidirá: a lama da Samarco que arrasou povoados em Mariana e já chegou ao mar, matando milhares de peixes, aves, algas… é tóxica ou não é tóxica? (Atente: isso independe de conter ou não metais pesados.) Continuar lendo

Sobre sus-ten-ta-bi-li-da-de e res-pon-sa-bi-li-da-de fiscal

saneamento

Termos “consensuais” podem significar uma armadilha, a perpetuar a desigualdade em um modelo que beneficia poucos, sob a lógica do lucro e do pagamento eterno de dívidas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O professor de Jornalismo Dennis de Oliveira, da Escola de Comunicações e Artes da USP, observa em seu Facebook que muita gente comemora o fato de o Brasil ter há 15 anos uma “lei de responsabilidade fiscal”, para que os governos não gastem mais do que arrecadam. “Essa lei parte da premissa que o supremo compromisso do governante é ser responsável com os gastos”, ele diz. “Mas porque não existe uma Lei da Responsabilidade Social?”

Essa lei puniria os governos que não investissem o suficiente em saúde, educação e assistência social, com a garantia de padrões mínimos de qualidade. Completa Oliveira: “A Lei de Responsabilidade Fiscal foi aprovada única e exclusivamente para garantir os direitos dos credores da dívida pública, isto é, garantir que os governos tenham recursos suficientes para pagar esta divida. Agora, a dívida social, imensa e absurda, fica só na retórica”.
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Salvador Allende, República de Cuba: os nomes das escolas que Alckmin quer fechar

allende

Fechamento de 93 escolas em SP significa também descaso com a história de homenageados, entre eles 45 professores; alunos resistem e põem Alckmin em xeque

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Primeira chamada: as professoras.

Adalgiza Segurado da Silveira (São Paulo); Alayde Maria Vicente (Guarulhos); Antonieta Grassi Malatrasi (Lençóis Paulista); Dinora Rocha (Iguape); Elza Salvestro Bonilha (Sorocaba); Eurydice Zerbini (São Paulo); Iolanda Vellutini (Pindamonhangaba); Iracema Brasil de Siqueira (Mogi das Cruzes); Iracema de Oliveira Carlos (Ibitinga); Ivani Maria Paes (Barueri); Laís Amaral Vicente (São Paulo); Lâmia del Sistia (Guarujá); Maria Aparecida Soares de Lucca (Limeira); Miss Browne (São Paulo); Regina Pompeia Pinto (Cachoeira Paulista); Sebastiana Paie Rodella (Americana); Sonia Aparecida Bataglia Cardoso (Santa Bárbara D’Oeste); Sueli Oliveira Silva Martins (Mogi das Cruzes); Yonne Cesar Guaycuru de Oliveira (Pindamonhangaba). Continuar lendo