Fascismo no Brasil se manifesta também por sua face machista

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Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Das ofensas de um desqualificado a Letícia Sabatella à médica que não quis atender uma mãe petista, multiplicam-se casos em que barbárie política sobra para a mulher

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome do cidadão que ofendeu a atriz Letícia Sabatella – e teve milhares de compartilhamentos no Facebook – não merece ser exposto. Seria alimentação de trolls. Mas o fenômeno que ele representa é mais amplo: o do machismo que emerge junto com a onda fascista de ódio e desprezo por quem se declare contra o golpe.

Não é o único caso. Relatamos aqui as agressões a mães que estavam de vermelho, acompanhadas de seus bebês. Eles fariam isso se fossem pais fortões? E a pediatra que se recusou a atender o filho de uma petista? Quantos códigos ela terá rasgado (e não somente como médica) para exercitar sua intolerância? Continuar lendo

Fascismo está nas ruas, e a imprensa é artífice ou conivente

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O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? Por que não divulgam a escala das agressões e ameaças?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? (Eles que não hesitam em chamar alguém de “terrorista”, “vândalo” ou “baderneiro”.) Que cursos de história nunca terão frequentado? Será possível que vamos reproduzir em um regime democrático – cada vez mais enfraquecido – a pusilanimidade que outros tiveram durante regimes autoritários plenamente definidos?

Vejamos: agressões sistemáticas e histéricas a quem vista vermelho, declare-se contra o impeachment ou a favor de um determinado partido ou liderança política. Cenas de perseguição, encurralamento, ameaças, urros. Intolerância brutal a discordâncias, como se viu ontem em relação à decisão do ministro Teori Zavascki. Provocações, como na PUC-SP, na segunda-feira, em plena aliança com forças policiais. Macartismo. Discriminações. Tentativas de linchamento. Continuar lendo

Já são cinco os casos de mães com bebê agredidas por uso de vermelho

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Macacão da Minnie: motivo para agressão no Rio (Arquivo: Monique Ranauro)

Em SP, uma mãe recebeu uma pedrada, na altura da criança; outra foi acuada em um supermercado; no Rio, motoqueiro disse que ia dar um tiro na mãe e na bebê

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

São Paulo teve na semana passada dois casos em que as mães estavam vestidas de vermelho, com bebê no colo, e mesmo assim foram agredidas. Uma delas foi acuada. Outra viu uma pedra ser atirada na altura da criança. No Rio, mais um caso envolvendo a ira criminosa de fascistas. A diferença é que o próprio bebê era quem estava vestido de vermelho.

Dois desses casos foram relatados pela imprensa, mas isoladamente. Um pelo portal R7, outro pelo blog do Luis Nassif. Não se tornaram um tema nacional. O caso da blogueira Rafaela Freitas, em São Paulo, ainda não foi divulgado. Vejamos seu relato:
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Casos de agressão por uso de vermelho se multiplicam; por que autoridades se calam?

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Intolerância tipicamente fascista ganha vista grossa de políticos e operadores do Direito; blog reuniu dez casos, entre prováveis centenas ou milhares pelo país

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

1 Fortaleza. Sexta-feira. Produtor é vítima de agressão por usar boné vermelho. O boné era de um time americano de baseball. Mas pensaram que era do PT. O produtor Marcelo Street chegou a ouvir: “Você não é brasileiro?”

2) São Paulo. Quarta-feira. Warley Alves é hostilizado por estar com um boné vermelho onde estava escrito: “Zona sul“.

3) Curitiba. Quinta-feira. Manifestantes agridem rapaz e ateiam fogo em camiseta do Che. O relato é do El País Brasil:

Em Curitiba, um casal foi agredido porque vestia camisetas vermelhas, o que provocou a ira dos manifestantes anti-Dilma, que se caracterizaram por vestir roupas verde e amarela. A camiseta do rapaz, que tinha uma imagem de Che Guevara estampada, foi arrancada do seu corpo e, depois, incendiada. O rapaz tomou socos e chutes dos presentes.
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Reflexões sobre fascismo (IV) – Sartre, Brecht, Sabato, Monsalve

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Venezuelano cita Sartre (o motivo de combater o fascismo), Brecht (que o associa ao capitalismo) e aponta papel da mídia ao questionar violência de direita em seu país

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Frases de Jean-Paul Sartre e Bertolt Brecht iniciam e finalizam artigo do venezuelano Tulio Monsalve sobre fascismo, publicado no site chavista Aporrea, em 2013, no contexto de uma chacina de 11 pessoas – duas delas, crianças – ocorridas em abril daquele ano, em seu país. Como o próprio autor tece algumas frases impactantes sobre o tema (como aquelas sobre o papel das notícias e dos jornais), publico o artigo na íntegra, em tradução livre. Título e link original: “… de pronto se despertó y descubrió que era fascista… fin“.

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Logo acordou e descobriu que era fascista. Fim

Tulio Monsalve

“Não se combate o fascismo porque se possa ganhar dele; se combate porque é fascista” (Jean-Paul Sartre, 1945, “A Idade da razão”) Continuar lendo

Reflexões sobre fascismo (III) – Camus, Graciliano, Adorno, Fellini…

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“O mundo se tornava fascista”, escrevia Graciliano Ramos em 1953. “Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Começamos anteontem, com Umberto Eco, uma série sobre intelectuais e o fascismo. Ontem foi a vez de um trecho de Thomas Mann em sua “Montanha Mágica”. Hoje vamos de coletânea, com Albert Camus, Horkheimer/Adorno, Françoise Giroud, Federico Fellini, Graciliano Ramos, Valter Hugo Mãe, Stéphane Hessel e Miguel de Unamuno.

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“O fascismo é o desprezo. Inversamente, toda forma de desprezo, se intervém na política, prepara ou instaura o fascismo”. (Albert Camus, “O Homem Revoltado”, 1951)

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“Não é fácil falar com um fascista. Quando o outro toma a palavra, ele reage interrompendo-o com insolência. Ele é inacessível à razão porque só a enxerga na capitulação do outro”. (Max Horkheimer e Theodor Adorno, “Dialética do Esclarecimento”, 1947) Continuar lendo

Reflexões sobre fascismo (II) – Thomas Mann

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“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda”. Descrição feita pelo escritor alemão em sua obra-prima, em 1924, segue atual

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A obra-prima de Thomas Mann data de 1924: “A Montanha Mágica”. Ali ele já conseguia descrever – em uma cena relativa a um sanatório para tuberculosos na Suíça – o que poderíamos descrever como clima do nazifascismo:

“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de se sentirem desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servirem de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão. Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade para berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiadores, mas que elas próprias caíam, com espantosa facilidade, vítimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornava frequente no Sanatório Berghof”.
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Reflexões sobre fascismo (I) – Umberto Eco

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Umberto Eco em 1977 (Foto: Enrico Scuro)

“Uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O artigo completo do escritor italiano (1932-2016) está no Opera Mundi: “Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno“. É longo. Fruto de uma conferência proferida em 1995, na Universidade Columbia. Mas vale pinçar alguns pontos para pensarmos em outros fascismos possíveis.

Qual seria o papel da classe média?

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.  Continuar lendo

2015 – O ano em que fascistas definiram seus alvos e cores

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Camisa do PT, bandeira de movimentos sociais ou a simples discordância motivaram agressões por todo o país; políticos e personalidades foram vítimas da intolerância

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em agosto, uma mulher vestiu-se de vermelho e caminhou pela Avenida Paulista, em São Paulo. Foi chamada de “putinha”, “vagabunda”, “corrupta”, “velha doida”. Manteve a dignidade:

17/08 (São Paulo): “Dama Vermelha”: a história da mulher que enfrentou o ódio na Paulista

Outros que ousaram vestir vermelho – ou defender o governo, ou combater o golpismo – durante manifestações de direita foram xingados, agredidos, expulsos do local. Em muitos casos, com escolta policial absolutamente tolerante às agressões:

15/03 (BH): Em Belo Horizonte, faixas pediam intervenção militar e camisa do PT foi pisoteada por participantes
15/03 (Manaus): Manifestantes atearam fogo na bandeira do PT em Manaus
16/08 (Rio, São Paulo, Curitiba): Protestos anti-PT registram agressões a quem veste camiseta vermelha
15/03 (Rio): Comunista apanha e sai de camburão Continuar lendo

2015 – Homofobia ainda mata, persegue, apedreja e espanca

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Beijo em novela ainda gera repulsa em certos setores da sociedade; outros homofóbicos, movidos pelo mesmo ódio, atiram e apedrejam até a morte

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ela foi ameaçada de morte, em junho, por representar numa crucificação a violência contra homossexuais e transexuais. A imagem tolerada em outras situações, como uma capa de revista com o jogador Neymar crucificado, não foi admitida por um setor obscurantista e violento da sociedade brasileira. Em entrevista a O Dia, Viviany Beleboni lembrou que “cruz não tem patente”:

16/06 (São Paulo): ‘A cruz não tem patente de ninguém’, diz atriz ‘crucificada’ na Parada LGBT

Agredida por um morador de rua, ela não quis ir à delegacia – onde seria tratada como um homem. “Sabe o que eu vou ter que fazer? Ficar trancada dentro de casa. É isso que esses religiosos, esses fanáticos, querem“. Continuar lendo