Muro do impeachment é o Brasil que expõe paradoxos e vísceras

Cerca construída por presidiários ainda será estudada por sua multiplicidade de símbolos; povo revê sua percepção de cordialidade enquanto elite faz as contas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Está nos jornais de hoje: presidiários (improvisando para se protegerem do sol) construíram no domingo o que a imprensa chamou de “muro do impeachment“. Uma grande barreira de ferro que separará os manifestantes pró-impeachment (à direita da Esplanada dos Ministérios) e contra o impeachment (à esquerda, olhando de frente para o Congresso). É, desde já, uma das imagens do ano. E uma prova de que o processo em curso ultrapassou os limites da irresponsabilidade, ao pressionar pelo impeachment em um país tenso e dividido.

Lúcio Costa e Oscar Niemeyer já tinham se revirado no túmulo com a invasão da paisagem de Brasília por um pato gigante. Agora, estrebucham. À tentativa de infantilização da política brasileira, pela Fiesp (algo como chamar ecstasy de “bala”, ácido de “doce”, fascistas de coxinhas), se sucede esse símbolo da dissensão – e do risco. Curiosamente, o golpista Movimento Brasil Livre vem desafiando o próprio nome ao ameaçar – com outra leitura da palavra “muro” – os deputados que faltarem à votação: Continuar lendo

Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor

Eles começaram a criar asinhas em 2013 e se espalham pelo país, sob o olhar complacente da mídia, da polícia e do Ministério Público; até onde vão chegar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um tipo que se multiplica: um rubrofóbico. Ele tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo. E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto. Continuar lendo