Esquerda não está imune ao risco de datenização do debate político

datena

Caso do estupro coletivo no Rio inunda redes sociais e nos convida a uma reflexão sobre banalização da violência; não estamos repetindo a lógica imediatista do jornalismo cão?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ontem eu passava por um ponto de táxi e tinha uma TV transmitindo o programa do Datena. E lá estava ele, narrando uma cena de um frentista sendo massacrado por um bando. Muitos chutes na cabeça. Covardia pura – e replicada “n” vezes pelo programa, sob o pretexto de promover a indignação coletiva. Mas com pelo menos um efeito contrário: a banalização da violência. A edição repete a cena, voltam os pontapés, e apresentamos à sociedade (e com o nome de jornalismo) a nossa cota diária de barbárie televisionada. Nem mortes a TV se poupa mais de transmitir. “Veja agora o momento do tiro”. E assim por diante.

E fiquei pensando no Datena. Observando. Pela primeira vez percebi que suas sobrancelhas lembram muito a de um grande ídolo meu, o cineasta Federico Fellini. Nada menos. E somente elas, claro. De qualquer forma, a figura do apresentador me intriga. Não somente ela, mas o seu sucesso. Ou talvez, guardadas as proporções, ele tenha outra característica do diretor italiano: o carisma. Ainda que às avessas, com outros propósitos, outras referências. E o desafio reflexivo passa a ser o seguinte: o quanto não resvalamos – cognitivamente ou emocionalmente – com posições dignas de José Luiz Datena?

Mesmo que na melhor das intenções. Para manifestar pesar ou indignação com esta ou aquela cena de violência. De violência inominável. Mas com uma consequência básica, a mesma desse jornalismo cão: banalizar o ato, hiperdimensioná-lo, esquecendo-nos de que essa banalização talvez seja mais nociva do que redentora – e que talvez até estimule atos similares. Como no caso (amplamente reconhecido, desde o efeito Werther) do suicídio. Não divulgarás suicídios, admitem os jornalistas. Porque eles podem ser replicados. Mas e as demais violências?

(Curiosamente, Datena apresentava também ontem o caso de um médico que matou um colega médico, em Piracicaba, e depois se matou. Desafiando essa regra, a de não noticiar suicídios. Os dois médicos – um deles acusado de corrupção – eram descritos de uma maneira oposta à dos agressores do frentista. A violência, ali, estava quase perdoada, em meio a uma narrativa onde predominava a visão de que eram homens-de-bem-que-salvavam-vidas e que foram vítimas de apenas um dia de fúria.)

SOBRE O ESTUPRO COLETIVO NO RIO

Tudo isso para questionar a banalização, nas redes sociais, do caso de um internauta que descreveu um estupro, no Rio, que teria sido praticado por 30 pessoas. Trinta homens, contra uma adolescente de 17 anos. Tão ou mais covardes quanto os grandalhões que chutavam a cabeça do frentista? Não sei. E não importa. Porque não se trata de um campeonato de classificação de atrocidades. É por uma sociedade sem violências que devemos lutar. Ainda que, até lá, precisemos nos defender – organizadamente. E não uma sociedade na qual queiramos enforcar o último boçal com as tripas do último canalha.

É da necessidade de respiramos mais fundo que estou falando. Evidentemente não estou aqui a pregar conivência com estupradores, assassinos (entre eles, políticos genocidas), covardes de um modo geral. As pessoas que oferecem realmente risco ao conjunto da sociedade – o que não inclui inimigos convenientes do sistema – devem ser presas, e tratadas como seres humanos. Por mais que elas tenham se desumanizado. Pedir a punição? Sim, mas de que forma? Aos moldes do Datena? Escandalizando-nos com vilões óbvios, elegendo monstros e minimizando um sistema que perpetua a violência?

Políticos que atropelam direitos humanos não ganham a mesma narrativa datênica. Seus atos não são repetidos (na tela da TV ou nas redes sociais) como geradores de violência em escala. Não vemos cenas de Laranja Mecânica em atos de violência – ou multiplicadores de violência – friamente administrativos. E, no entanto, há golpistas dedicados à redução de direitos fundamentais, há governadores e secretários de Segurança que promovem políticas públicas que estimulam o machismo (como o daqueles estupradores), a homofobia, a covardia, o salve-se quem puder, o envio às favas e certos resquícios de escrúpulos.

A luta é contra a barbárie. E a banalização do mal passa diretamente, nestes tempos midiáticos, pela sobrancelha erguida do Datena, enquanto não respiramos mais fundo (enquanto não revemos mais um filme libertário do Fellini) e enquanto compartilhamos – repito, na maior parte dos casos com as melhores das intenções – narrativas que talvez estejam mais alinhadas com uma certa sanha vingativa do que com a construção de um modelo alternativo, de um mundo inclusivo, igualitário e tolerante. Onde saibamos transformar o asco e a revolta (muitas vezes compreensíveis) em energias potencialmente civilizatórias.

6 ideias sobre “Esquerda não está imune ao risco de datenização do debate político

  1. Que pretensão você tem quando coloca em questão, dessa forma em que colocou, a escandalização com “vilões óbvios”, onde estamos “elegendo monstros”?
    Sinto que você tá igualando, dissimuladamente, o internauta que bota na rede o vídeo do estupro em que participou, com as outras pessoas que ecoam a notícia a fim de expor a violência contra a mulher.
    A possibilidade de banalização da violência, nesse caso, não vem com a exposição da notícia, de forma sofrida, por parte das mulheres. Vêm com esse tipo de matéria que você escreveu, porque provavelmente, o estupro já deve ser banal para você. Ver tantos outros homens passando pano pra estuprador e se excitando com a situação não é uma realidade que te afeta. Ao contrário de você, as mulheres que compartilham e lêem essa narrativa estão lutando pra não sofrer calada e sozinha, como sempre, com esse fato, essa ameaça constante na nossa vida, que é o estupro.
    Nós sentimos muito, nós estamos sofrendo. Quem não sofre é você e outros homens, nada novo. Um Datena pretende promover uma indignação coletiva contra a violência do negro periférico, que acaba em banalização, para vilanizá-lo. O Datena, do alto de sua posição privilegiada, assim como você, do alto da sua, vem sugerir que poupemos o questionamento e exposição dos homens já privilegiados pelo nosso silêncio. No pedestal, assim como Datena, apontando e julgando o que é certo e errado em relação a alguém vulnerável, que é o outro e não você.

    • A violência está banalizada, sim, é um tema jornalístico (recorrente nos meus textos) e não há nada de dissimulado no artigo. Ele propõe uma reflexão sobre as reações exclamativas – são muitas, ainda que não sejam todas – em contraponto com o que seria um combate efetivo à violência. Repudio, como pai de uma menina inclusive, o teor de seu comentário. Deve ser fácil para você sair acusando alguém de ter o estupro como algo banal. Mas é uma acusação vil. Não estou em pedestal nenhum. E sim exercendo minha função. Seria muito confortável dizer apenas o que as pessoas querem ouvir, quando em situações de comoção. Mas não é isso que vai contribuir para o debate sobre segurança pública. Há muito tempo cubro direitos humanos e estou convicto de que os movimentos em onda, por mais bem intencionados que sejam, nem sempre jogam a favor desses direitos. Pode não ser o seu caso e o de milhares de mulheres. De outros tantos, sim, infelizmente. Basta observar.

      • Percebo que seu discurso é ressentido com um tipo de militância diferente da velha esquerda.
        Será mesmo que minha constatação é tão vil? Se a violência contra a mulher não fosse algo tão banal, você e tantos homens não precisariam projetar suas filhas em uma vítima para só assim poder ser afetados por ela.

        • Não. Porque já narrei situação em que fui abusado, e a desqualificação da minha fala ocorreu da mesma forma. Não pode falar como homem, e não pode mencionar a filha. Complicado. Mas é vil, sim, sua tréplica só confirma isso.

    • Concordo com você que, obviamente, a narrativa (através de textos ole/ou imagens) vai afetar de forma diferente homens e mulheres. Principalmente aquelas que se colocarem no lugar de potenciais vítimas da violência machista. Fico aqui pensando o quanto essa história específica do estupro me parece mais banalização enquanto eu não me imagino vivendo essa violência. Outros casos em que me imagino como vítima, tenho necessidade de conhecer e divulgar os detalhes porque me indigno mais.

  2. Alceu, Alceu! Obrigada pela sensatatez da indignação! Tantas e quantas violências contra a mulher, contra os pequenos, contra as minorias, contra a humanidade! Nem todas tão obviamente asquerosas, mas quantas tão ferozmente abjetas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *