Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor

Eles começaram a criar asinhas em 2013 e se espalham pelo país, sob o olhar complacente da mídia, da polícia e do Ministério Público; até onde vão chegar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um tipo que se multiplica: um rubrofóbico. Ele tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo. E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto.

Esse tipo de fascismo afirmou-se em 2013, durante as manifestações que começaram reivindicando passe livre e acabaram como ponto de encontro da extrema direita. Vem se consolidando em duas frentes: a violenta e a patética. A face violenta é intrínseca, fruto de uma intolerância conhecida em setores mais extremistas das torcidas de futebol. A face patética comporta cenas que seriam risíveis, não trouxessem embutidas essa violência discriminatória e sem limites – e que o país assiste sem que alguma autoridade se pronuncie a respeito.

As cenas quase risíveis dizem respeito a bandeiras ou camisetas que trazem a cor vermelha, sem nenhuma conexão com alguma orientação política, mas mesmo assim motivam a ira dos escarlatofóbicos. O advogado Alexandre Simões de Mello foi agredido em 2014, em São Paulo, porque sua camiseta continha uma piada com o Partido Comunista. Nada escapa a essa seletividade grotesca: pode ser uma bandeira da Turquia, de alguma Unidade da Federação que contenha a cor – basta que ela esteja presente.

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“A Fraternidade é Vermelha” (filme de Krzysztof Kieślowski, 1994)

Como paranóicos, os rubrofóbicos não hesitam em abraçar teorias da conspiração. Ou distorcer os fatos. Assim, o hasteamento no Rio de uma bandeira idealizada na Bélgica em homenagem ao Brasil, quando a seleção daquele país se classificou para a Copa do Mundo de 2014, motivou farta indignação desses fanáticos. E o ódio se multiplica: em Chapecó (SC), no ano passado, manifestantes chegaram a invadir uma casa para retirar uma bandeira do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Em agosto, em Curitiba, uma bandeira vermelha foi queimada.

Aqui vemos uma agressão pelas costas, em São Paulo. Aqui, no Rio, rubrofobia aliada à homofobia. Este homem explica: “Aqui não é Cuba. Aqui não é Rússia. Aqui não é China. Nós não queremos bandeira vermelha“. Como se vê nesse último vídeo, e em tantos outros, disponíveis no YouTube, há grupos organizados que propagam essa intolerância. E não apenas indivíduos tresloucados. São grupos identificáveis. Com líderes. Há organização, orquestração – sob o silêncio de muita gente que deveria ter um pouco mais de memória.

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“Balão Vermelho” (Paul Klee, 1922)

Algumas cenas são assustadoras. Em 2014, um grupo de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina cantou com fanatismo o hino nacional ao hastear a bandeira do Brasil, em resposta “aos comunistas” que teriam hasteado ali “a bandeira do Stalin“. A sequência dura vários minutos e é absolutamente felliniana – com direito a uma espécie de grua no momento do hasteamento. Como tudo pode sempre ser pior, aqui vemos apoio explícito de um telejornal local a esse grupo. Título do vídeo: “A minoria se curva à vontade da maioria”.

Vale observar que nem sempre há registro em vídeo. No domingo, segundo reportagem do Valor, a psicóloga Júlia Melo andava pela Avenida Paulista com uma camiseta laranja, “quase vermelha”, e foi ofendida. Os manifestantes a confundiram com uma militante petista. Resultado: ela decidiu colocar uma camiseta preta. (Curiosamente, a cor do fascismo na Itália de Mussolini.)

Nem pessoas mais velhas são respeitadas. Em 2015, um homem foi obrigado a retirar sua camiseta do movimento de moradia, no Rio, sob os gritos de “vai pra Cuba”. Esta senhora na foto abaixo foi chamada de “comunista” e “corrupta”:

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Perguntas: o que fazem a polícia e o Ministério Público para barrar esses fanáticos? E por que ainda não vimos um editorial de repúdio a esse tipo de intolerância?

É conveniente para alguém que essa insanidade se alastre?

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2 ideias sobre “Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor

  1. Usurparam-me as cores vermelha, amarela, verde, azul e agora a preta.
    Não posso usar vermelho porque tenho medo dos escarlatofóbicos, não posso usar amarelo e verde porque posso ser confundida com os coxinhas, não posso usar
    azul porque podem me confundir com os “tucanos” e não posso usar preto porque posso se confundida com quem quer o impedimento da presidente. Ufa.

  2. Querida Eva … tente usar o branco, que ainda não é objeto de preconceito nem de perseguição. É a única cor que resta. O problema é que poderão confundi-la com um médico “cubano”, ou com a médica que não trata de filhos de “petralhas ladrões comunistas” e coisa que o valha. É, parece que está difícil hoje em dia usar roupa. Experimente sair pelada, com uma folha de figueira cobrindo as vergonhas. Se alguém se incomodar, diga que seu nome é Eva, e que sempre se vestiu assim. Está na Bíblia. Mas talvez irão chamá-la de fundamentalista… é, não tem solução.

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