Reflexões sobre fascismo (III) – Camus, Graciliano, Adorno, Fellini…

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“O mundo se tornava fascista”, escrevia Graciliano Ramos em 1953. “Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Começamos anteontem, com Umberto Eco, uma série sobre intelectuais e o fascismo. Ontem foi a vez de um trecho de Thomas Mann em sua “Montanha Mágica”. Hoje vamos de coletânea, com Albert Camus, Horkheimer/Adorno, Françoise Giroud, Federico Fellini, Graciliano Ramos, Valter Hugo Mãe, Stéphane Hessel e Miguel de Unamuno.

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“O fascismo é o desprezo. Inversamente, toda forma de desprezo, se intervém na política, prepara ou instaura o fascismo”. (Albert Camus, “O Homem Revoltado”, 1951)

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“Não é fácil falar com um fascista. Quando o outro toma a palavra, ele reage interrompendo-o com insolência. Ele é inacessível à razão porque só a enxerga na capitulação do outro”. (Max Horkheimer e Theodor Adorno, “Dialética do Esclarecimento”, 1947)

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“Assim começa o fascismo. Ele não diz nunca seu nome, ele ascende, escala. Quando mostra a ponta de seu nariz, dizemos: É ele? Acham mesmo? Não é preciso exagerar. E um dia ele se enfia pela goela e é muito tarde para expulsá-lo”. (Françoise Giroud, “Gais-z-et-contents”, 1996)

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“O fascismo significava e significa a ignorância dos problemas reais, recusa de aprofundar (por preguiça, preconceito, comodidade, presunção) a própria relação individual com a vida. E ainda se gabar de ser ignorante, procurar afirmar a si mesmo ou o próprio grupo não com a força da experiência e da cultura, mas com fanfarronice e falsificação” (Federico Fellini)

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“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido”. (Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere”, 1953)

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“olhe, hoje é possível reviver o fascismo, quer saber é possível na perfeição. basta ser-se trabalhador dependente. é o suficiente para perceber o que é comer e calar, e por vezes nem comer, só calar. vá espiar esses patrões por aí fora. conte pelos dedos os que têm no peito um coração a florescer de amor pelo proletariado” (Valter Hugo Mãe, “A Máquina de Fazer Espanhóis”, 2010)

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“Não, essa ameaça da barbárie fascista não desapareceu totalmente. Por isso, apelamos sempre para uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa, que, como horizonte para nossos jovens, só sabem propor o consumo de massa, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos. A todos aqueles e aquelas que construirão o século XXI, dizemos com carinho: Criar é resistir. Resistir é criar”. (Stéphane Hessel, “Indignai-vos”, 2010)

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“O fascismo se cura lendo e o racismo se cura viajando”. (MIguel de Unamuno)

migueldeunamuno

LEIA MAIS:
Reflexões sobre fascismo (I) – Umberto Eco
Reflexões sobre fascismo (II) – Thomas Mann
Reflexões sobre fascismo (IV) – Sartre, Brecht, Sabato, Monsalve

 

 

3 ideias sobre “Reflexões sobre fascismo (III) – Camus, Graciliano, Adorno, Fellini…

  1. É fundamental fazer uma leitura do fascismo com as lentes do tão temido enfoque de gênero. A exacerbação da masculinidade através da violência e da misoginia é elemento fortemente indicativo do fenômeno do fascismo como sintoma da crise do patriarcado, quando se vê ameaçado pelo avanço da libertação das mulheres. O desprezo não é só racista, é misógino e homofóbico.

  2. Com fascista não tem idéia.

    Agora Unamuno errou, esta cheio de fascista cheio da leitura e racista viajado. Nenhuma ciência abarca a complexidade das relações sociais.

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