E se fosse a lama da Petrobras na Praia de Ipanema?

EspiritoSanto

Impacto da barragem destruída gera uma Escola Base às avessas; imprensa brasileira perde ímpeto acusatório quando casos emblemáticos envolvem as elites econômicas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A maior catástrofe ambiental do século 21 no Brasil ganha novo ícone com a chegada da lama da Samarco (Vale, BHP) no Oceano Atlântico. Mas quem se importa com a avalanche gosmenta de resíduos na Praia de Regência, no Espírito Santo? Em um litoral que o biólogo André Ruschi define como “a Amazônia marinha do planeta“? Pouco após a barragem da mineradora se romper, no dia 5, houve quem perguntasse, diante da desatenção inicial da grande imprensa: “E se fosse com a Petrobras?” Cabe agora atualizar a pergunta: “E se essa lama estivesse chegando na Praia de Copacabana? Ou Ipanema, Leblon, Barra? Ganharia a capa de Veja?”

As revistas seguem alienadas. Tivemos três fins de semana após o crime socioambiental, ocorrido no dia 5 de novembro. Nem por isso o tema mereceu alguma manchete de Veja, Época ou IstoÉ. Claro que o tema está lá, mas de forma protocolar. Os jornais até acordaram um pouco, diante da viralização do tema na internet. E estão cumprindo (ainda que em fragmentos, com peças isoladas de um quebra-cabeças) parte de sua função. As nossas revistas panfletárias, porém, não estão interessadas em contar à nossa classe média distraída – mas contar com todas as letras – que estamos diante de um dos episódios mais emblemáticos deste nosso capitalismo sôfrego, particularmente inconsequente. E violento.

Sim, as mineradoras fazem estragos por todo o mundo. Inclusive a Vale e a BHP, as maiores ao lado da Rio Tinto. O que não nos impede de constatar que as nossas publicações tipicamente vestais (essas que fazem capas sobre corrupções específicas de grupos políticos específicos) estejam tratando o caso de Mariana de forma secundária, como se fosse um detalhe – um desastre renovável. A Globo multiplicou os minutos sobre as mortes na França e parece sem fôlego para manter a catástrofe brasileira no noticiário. Mas não é só isso. Há um problema de postura. Não veremos o William Waack espumando por causa dos povoados arrasados e das espécies extintas. Não veremos analistas econômicos conectarem as vidas destruídas de pescadores (ou camponeses) à doce vida dos sócios da Vale.

E, portanto, no que se refere ao ambiente, o jornalismo brasileiro ganha a sua Escola Base. Mas às avessas: por falta de acusação, por falta de ímpeto de não somente constatar a responsabilidade da Samarco (Vale, BHP), mas constatar com a capacidade exclamativa que demonstra em outras situações. E sem que haja esforço de costurar uma narrativa maior, de questionar um sistema predador, que libera nossos recursos naturais para o saque bilionário por um punhado de empresas, livres para acumular (com fartas isenções fiscais) e poluir. Sem que se nomeie com todas as letras o partido – o PMDB – que controla o setor da mineração no país, amplamente financiado pelas próprias mineradoras. Quantas vezes o leitor ouviu o nome do PMDB em meio a essa lama toda?

DEMONIZAÇÕES SELETIVAS

A Escola Base foi aquele caso em São Paulo em que donos de uma escola infantil foram acusados de abuso sexual. A imprensa foi histérica a respeito (imaginem se o acusado fosse o dono de uma rede gigantesca de escolas privadas) e teve de fazer, tempos depois, um mea culpa: eles eram inocentes. Um mea culpa que simplesmente não é feito em relação aos linchamentos diários, espalhados por todo o país, de acusados – pobres, negros – de outros tipos de crime. A imprensa brasileira ainda é protagonista de espetáculos medievais de demonização de indivíduos, satanizações de acusados que servem também para justificar o tratamento excludente a grupos sociais inteiros. (A foto de Marcelo Carnaval, em O Globo, ilustra esse apartheid.) “Eles que não invadam nossa praia”.

MarceloCarnaval

E, no entanto, essa imprensa não se move (ou se move em círculos, sem ser incisiva) quando os suspeitos ou criminosos têm colarinho branco, CNPJ e gigantescas equipes de marketing. Briga com o porteiro, nunca com o patrão. Nossa elite não será algemada nem tratada como escória. Nem que seja ela a responsável por poluição ambiental e roubo de terras, destruição de biomas e especulação financeira assassina, nem que patrocine a crise, seja ela mesma a crise, nem que ela seja notoriamente atrasada (ou mais despudorada) em relação às demais elites do capitalismo mundial – porque ainda mais cínica e impune. Os cárceres estarão cada vez mais entupidos dos pequenos traficantes de drogas. Teremos 1 milhão de presos, 1 milhão de inimigos convenientes.

Estamos no país onde a ministra da Agricultura vai à Ásia e se deslumbra com mármores e tapetes, em uma missão oficial para promover o agronegócio brasileiro, esse agronegócio primo da mineração predadora, ambos a esmagar as florestas restantes, os povos indígenas e as populações tradicionais. E lá estava ela na Índia, toda alegre e intensa, vendendo as supostas maravilhas de uma nova fronteira agrícola, a do Matopiba (Maranhão-Tocantins-Piauí-Bahia), onde a família Marinho tem terras e onde o Cerrado ganha sua destruição diária, com o aval de governo e oposição, sem holofotes, sem proteção legal, sem lama, sem espetáculo – sem uma narrativa, uma cobertura diária que ao menos coloque em dúvida esse modelo, essa lógica.

katiaabreutajmahal

Uma das coisas mais curiosas da imprensa brasileira a serviço da plutocracia é que ela não se dá conta de nossos rombos socioambientais nem quando o PT também deixa ali sua assinatura, nem quando o governo federal que fustigam tenha papel importante nessa destruição. A não ser que pretendam desprestigiar uma estatal. Porque o que querem é apenas colocar outro grupo político no poder, uma espécie de política de substituição de destruições, de preferência sem algum verniz compensatório, alguma inclusão em meio à implosão. É por isso que as próximas capas da Veja vestirão como presidiários apenas aqueles que a revista julgar convenientes; nunca os plutocratas com pedigree. Latifundiários da comunicação a minimizar a dor de multidões e a sacralizar o ódio das minorias. Em nome de seus pais, de seus filhos e apesar da lama no mar do Espírito Santo.

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27 ideias sobre “E se fosse a lama da Petrobras na Praia de Ipanema?

  1. Texto brilhante, capaz de provocar catarse.
    Quem dera pudéssemos obter esta catarse através da transformação deste quadro econômico social desprezível.

  2. Texto perfeito!
    Como estamos precisando de pessoas assim, que gritem suas revoltas e que as coloquem em prática.
    Sou contra a violência mas como diz a redação da Catarinense de apenas 14 anos, cadê os braços fortes, para salvar nossa Pátria amada?

  3. excelente texto, parabens !!! A elite nao fará merda nenhuma em relacao a toda essa lama vergonhosa, compram a imprensa e calam . tudo podre como essa lama que é propria vergonha. Pensou se a lama vier ao Rio de Janeiro fará mais estragos. O estrago foi tão grande pior que foi mostrado na guerra do.golfo em que liberaram os petroloes na bacia do golfo. Triste e revoltado estou pois sinto que a impunidade pintada com as cores do Brasil irá galhofar de todos nós.

  4. Alceu, o Partido da Mineração do Brasil (pmdb) está de parabéns e merece todos os prêmios Nobel do século: acaba de demonstrar ao mundo que os rejeitos industriais da mineração são inofensivos e doravante todas as barragens de decantação dos mesmos podem ser derrubadas. Motivo? As análises das águas da Vale/BHP, feitas pela SGS/Geosol Laboratórios Ltda (que vive da prestação de serviços à mineração mineira) porém encampadas pelo Ministério de Minas e Energia, CPRM e ANA-Ministério do Meio Ambiente, demonstram que a água do rio Doce pós-desastre estão melhores do que nunca; os resíduos minerais conseguiram inclusive neutralizar os coliformes fecais ali lançados in natura por todos os municípios lindeiros. Os laudos anteriores, demonstrando a presença de 1.366.666% a mais de ferro do que o limite máximo recomendado pela OMS (detectado pelo serviço de água de Governador Valadares, que suspendeu a captação e distribuição da água analisada em seguida) eram falsos. A descoberta permite o lançamento direto dos rejeitos às calhas fluviais (e pode ser usado pela BHP em seu país de origem, a Austrália, que lhe cobra 30% do equivalente ao nosso ICMs sob o pretexto de se ressarcir dos custos gerados pelo monitoramento dos poluentes minerais) e demonstra que toda literatura mundial sobre os metais pesados que formam o minério de ferro era mentirosa; ao que parece esse minério só possui mesmo sílica ou areia, o que pode permitir a venda dos efluentes à indústria da construção civil. Da mesma forma, o doutor Anthony Wong, toxicologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, estava equivocado ao prever alta incidência de câncer em todos que ficassem expostos à lama de Mariana, talvez devido ao fato desta última possuir propriedades únicas, como a de flutuar sobre as águas – o que levou a Samarco a encher a foz do Doce e o litoral adjacente de barreiras flutuantes utilizadas nos derramamentos de petróleo. Se a areia grudar nelas, ao invés de se depositar no fundo, a Samarco poderá patentear a descoberta dessa areia mais leve e soft do planeta, que revoluciona a própria teoria da gravitação universal. Em síntese, com a anuência de todas as ongues e instituições científicas – cujo silêncio lastreia a veracidade do acima exposto – todos os paradigmas científicos estão quebrados e a Samarco/Vale ainda nos venderá seus esgotos como insumo essencial à saúde humana e planetária… Prêmio justo para quem não acha, mas tem certeza, de que somos todos imbecis e não temos ninguém a quem recorrer. Mas se fosse a Petrobrás…

    • Curioso é que de qualquer forma seria um escândalo. Se não era tóxica, por que não reaproveitaram antes como tijolos? A nova ciência da empresa não resiste a uma análise lógica – a não ser que esta também seja reinventada.

        • Tb faço essa pergunta! rsrs. pessoas que “defendem” de certa forma com certeza não foi atingido. Eu, como capixaba sinto grande tristeza. Tenho parentes e amigos em Colatina e Linhares, água sendo saqueada, filas e mais filas pra pegar 3 ou 4l de água pra família passar o dia. galão de 20l q custava 7,00 agora está 15,00 (isso qdo acham). Isso sem contar pessoas mortas, animais mortos, peixes q correm risco de extinção. Lamentável!

          • só melhora quando a população começar a levar o lixo para rodear a sede das administrações e tocar fogo no lixo! Ou pras casas dos causadores!

  5. e o governo não ta fazendo nada, ninguém quer fala que o governo tem 52% da vale do rio doce e que indicou o ultimo presidente em 2011 pq o anterior não queria seguir as ordens do pt.

  6. Senti falta de duas coisas:
    A imagem do cidadão roubando o celular na praia. Tão emblemática quando a foto publicada neste texto, me faz pensar que o problema não está nos ricos ou pobres, negros ou brancos… e sim na índole (ou falta de) humana. O resto é “nós contra vocês” que só afunda, ainda mais, a crise humana.
    Também, o texto não fala sobre como a sociedade lidou com a crise em Mariana e em Paris. Lá, os taxistas liberaram o taxímetro para levar o máximo de pessoas em segurança pra suas casas. Aqui os comerciantes elevaram, o que antes custava R$ 8,00, para R$ 30,00 a água de beber. Isso me convence que não é só a família Marino que tenta transformar a realidade de modo que lhe fique conveniente. Ou eles também tem o monopólio das mercearias em Mariana?

  7. Achei falta na revista veja qualquer comentário da maior tragédia ou fatalidade já vista no Brasil, a Globo, ficou de fora, a Bandeirantes eles os empresários do lucro fácil isolaram o que puderam, entendo que foi uma grande fatalidade provocada pelo mau gerenciamento do homem, levaram para o trágico, as penas são brandas, enquanto no mundo se cobra pelo mal feito, ex. Golfo do México no Brasil se dá premio aos poluidores. abraços

  8. Brilhante texto, pena que não adianta muito porque as pessoas que tem que Ler e Refletir estão levando suas vidas confortáveis de sociopatas, não se importando com a dor alheia, além de querer destruir o próximo e o planeta.. Mas a Lei da Causa e Efeito já está entrando em vigor, e logo mais eles terão suas colheitas tão perversas quanto suas ações.

  9. Alceu,
    Parabéns pelo excelente texto e por sempre tocar o dedo na ferida! É de jornalistas como você que estamos precisando. Sou tua fã!
    Abraços,
    Beatriz.

  10. Você que gosta tanto de falar de corrupção do Brasil, colocando os outros países como França como primeiro mundo, engole essa!
    O “complexo” jornalístico francês Dassault (em torno de 60 mídias diferentes), entre quais pertence o Le Figaro, está “vendando a guerra” naquele país. Serge Dessault é ao mesmo tempo dono de indústria bélica; político e o quinto homem mais rico da França. Apesar de estar sendo investigado pela justiça por corrupção, ele recebe apoio do senado.
    Ou seja Imprensa na mão + Corrupção + Indústria bélica + falta de qualquer escrúpulo = Guerra, não importa aonde!!!!
    O que isso tem a ver com o artigo? Muita coisa. Quem são os donos da mídia, da Veja, Época, etc etc? Aonde esses donos tem participação? Ou seja, se uma Globo-Veja-Isto é- for sócio da Vale, as coisas ficam tão óbvias que nem podemos mais estranhar porque a imprensa abafou tudo!

    • Somente para complementar, porque talvez não ficou claro: quando falo você, não me referi a você Alceu, ok? Foi uma forma generalizada porque as vezes alguns brasileiros acham que a corrupção é algo endêmica aqui.
      Acabei esquecendo também de elogiar o artigo, que achei muito bom. Parabéns, adorei, não te conhecia, mas vou começar a te acompanhar mais vezes!

    • perfeito seu comentário!

      É como a indústria de alimentos e a indústria farmacêutica. Nas mão dos mesmo grupos, uma vende comidas que causam doenças e e a outra as drogas que tornas as doenças crônicas…

  11. O mundo ,hoje, está dominado pelo capital rentista: dinheiro gerando mais dinheiro e não se transformando em bens para usufruto de toda a humanidade.N o capitalismo o que vale é o lucro, cada vez maior, dos grandes empresários, verdadeiros reis M idas da modernidade.Só o povo organizado, com objetivos claros, na construção de um mundo sem injustiças sociais, poderá começar a mudar esse quadro.Do contrário, pereceremos todos.

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