O que aprendemos cozinhando com o MTST

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Grupo que ofereceu feijoada aos acampados na avenida Paulista relata três dias com ativistas que, em condições precárias, transformaram suas vidas e autoestima ao cultivar a luta e o acolhimento

Pela Rede Aparelhamento

Para Francisco, Cleide, Tia Maria e toda a equipe da Ocupa Paulista

Sabíamos que 8 de março seria um dia importante para a Ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na Avenida Paulista, em São Paulo. Naquela tarde, eles negociavam com o governo a retomada das contratações da faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida, descontinuado pelo atual governo. Se conseguissem seu objetivo junto ao ministro das Cidades, à noite, seria decidido em assembléia desocupar a Paulista. Precisávamos estar fortes, resolvemos então preparar juntos um banquete.

Pedimos licença ao Francisco, chef da cozinha dessa emblemática ocupação. Trabalharíamos com ele e sua equipe de colaboradores, sobretudo mulheres do movimento que passavam o dia trabalhando na cozinha para, à noite, seguir para sua casa, seu acampamento ou mesmo sua barraca ali na calçada. Juntamos nosso fogão ao deles. Levamos gás e ingredientes para fazer uma grande feijoada.

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Foram dois dias cortando juntos 175 quilos de carne, 60 de cebola, 4 de alho e 20 de tomate. O preparo das mais de mil refeições aconteceu ali, sob um toldo armado numa das esquinas mais movimentadas do Brasil, o cruzamento da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Atrás do toldo, um barracão de lona onde estava instalada a cozinha, com a bandeira do movimento erguida, recebia os ingredientes para que a equipe coordenada por Francisco, o cozinheiro da Ocupação, e Cacá, nossa cozinheira, começassem o preparo da feijoada.

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Convivendo naquela esquina, vimos que cada pessoa conhecida ou desconhecida da ocupação que se aproximava para conversar era bem recebida. Aquelas que, fisgadas talvez pela curiosidade da cena, chegavam para ajudar, eram recebidas com um par de luvas e uma touca para os cabelos.

Durante as conversas de pé de ouvido e com a faca na mão, fomos conhecendo histórias de gente que cresceu na rua, que lutou por moradia, que saiu vitoriosa e estava ali para ajudar aqueles ainda na luta. Conhecemos mães de família dormindo longe dos filhos, ocupando a Paulista para reivindicar o direito à sua casa. Muitas trabalhavam longe dali e não poderiam faltar ao serviço para comer a feijoada que preparavam.

Ouvindo as histórias de cada um com quem dividíamos as tábuas de corte, fomos entendendo como o MTST acolhe tudo quanto é pessoa em torno de uma luta, a de morar com dignidade. Ganham força no mutualismo e na solidariedade, em que todos os ocupantes, embora tenham papéis distintos a cumprir, zelam por cada um dos presentes, seja quem for. Tanto as mulheres quanto as LGBTs são respeitadas. Isso não quer dizer que cada um não carregue consigo seus preconceitos, mas o próprio movimento faz com que os atos de discriminação sejam rejeitados e as pessoas que discriminam se dão conta de que não pode existir violência.

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Percebemos a cozinha, coração de toda casa, sempre aberta e com um galão de café voltado para o lado da rua. Dela saíam refeições para café da manhã, almoço, café da tarde e jantar, nos 22 dias que durou a Ocupa Paulista. Eram pratos fartos, saborosos, para qualquer pessoa que encostasse naquele barracão. Vimos Francisco, o Fran, fritar um ovo para servir um morador de rua que chegou atrasado para o jantar — e a comida tinha acabado naquela noite. Trabalhadores da Paulista aproveitavam a oferta para economizar o dinheiro do almoço.

Cleide, ajudante da cozinha, nos contou que no começo foi difícil pra ela: como entender que o único pão que ela tinha conseguido não era dela, era de todo mundo? Dividir sempre o que se tem com todas e todos. É assim que o movimento funciona.

Tarde da noite, enchendo os galões de água para lavar a louça, amigos da ocupação ofereciam seus colchões: “Vocês devem estar cansadas”, nos disseram.

Aproveitando o café da manhã disponível, se aproximou daquela esquina um rapaz de nome Ricardo. Logo contou do seu vício em crack, “uma doença”, disse ele antes de nos perguntar se queríamos ajuda no trabalho. Ficamos com medo de que ele manuseasse a faca. Nos explicou que, antes de viciar-se, trabalhava em restaurante. Depois de 6 anos limpo, Ricardo tinha voltado pras ruas. Há 10 dias não dava noticias em casa, não tinha mais coragem de ligar para a mãe. Ricardo carregou sacas de feijão conosco, lavou panelas, cortou muito alho. Cambaleou, estava fraco, a ocupação o acolheu, o alimentou. Após a feijoada, ele ligou pra sua mãe e prometeu voltar pra casa. Ele tem casa.

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Juntos, servimos mais de mil pratos de feijoada. Tomamos caipirinha. Mas foi na partilha da cozinha que percebemos a conformação simples, eficiente, respeitosa, amorosa, generosa que o MTST tem, seja com seus ocupantes, seja com qualquer pessoa que se aproxima de seus barracos. Enquanto os ocupantes dormem em colchões molhados pelas chuvas, sob freios de ônibus e buzinas ensurdecedoras, o governo faz cortes cada vez mais brutais nos programas sociais. No amanhecer, são elas e eles, do MTST, que nos dão lições sobre as possibilidades de organização social, cidadania, política, afeto e economia.

Graças ainda a elas e a eles, foram boas as notícias trazidas de Brasília pela Natália e pelo Guilherme. As reivindicações seriam atendidas. Ou seja, após os 22 dias de ocupação que estão marcados na história de cada uma e de cada um dali, o MTST conseguiu a retomada do Minha Casa Minha Vida. A faixa 1 do programa, justamente aquela que atende a maioria da população brasileira, tinha sido descontinuada desde o golpe, em 2016.
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Apesar de tudo isso, vimos, a todo instante, naquela esquina, os ocupantes do MTST serem chamados de “vagabundos”, “bandidos”, “desocupados”. “Vocês estão atrapalhando a nossa passagem.” “Quem autorizou vocês a montarem essa barraca aí?”

Nós poderíamos olhar para esses que gritavam em nossa direção e pensar que o Brasil não tem jeito. Mas depois de conviver com essa forma de zelar pelo outro, vimos que sim, tem jeito, se essa esquina se espalhar por todo o Brasil.

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