“Não é certo mandar pessoas para o inferno” – Elin Ersson

In ANÁLISES, Oriente Médio, Política internacional
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Priscila Villela

Elin Ersson, sozinha, impediu que um homem afegão fosse deportado de seu país. A Suécia, país tradicionalmente aberto aos imigrantes, nega 72% dos pedidos de refúgio de afegãos. 

Está viralizando nas redes, nesta semana, o vídeo de uma corajosa jovem sueca de 21 anos, Elin Ersson, que se recusou a sentar em um voo internacional de Gothenburg (Suecia) para Istanbul (Turquia) impedindo que o piloto decolasse. Isso porque, havia no mesmo voo, um homem afegão que estava sendo deportado da Suécia. “Eu não vou sentar enquanto esse homem não sair do avião”, disse ela. Sob aplausos e reclamações, a insistência de Elin surtiu resultado. O homem foi retirado do avião. Ouviu-se, então, uma onda de aplausos.

800x450“Estou tentando mudar as leis do meu país, não gosto delas. Não está certo mandar as pessoas para o inferno”. Elin fez esta afirmação porque a Suécia, embora tradicionalmente se apresente como um importante defensor dos direitos humanos e país pacífico, neutro e um habilidoso mediador de conflitos internacionais, nos últimos anos tem endurecido o controle das fronteiras e deportado imigrantes sistematicamente.

O país escandinavo tem um histórico de aceitar imigrantes que buscam refúgio, mas desde 2015, quando o país encarou a entrada massiva de refugiados sírios no país, as restrições estão cada vez mais duras.  Em 2016, o Ministro do Interior da Suécia, Anders Ygeman, anunciou um plano de deportação de 60 mil a 80 mil requerentes de refúgio que foram recusados, do total de 163 mil em 2015. A partir disso, o governo restringiu a provação de pedidos de refúgio e asilo e passou a controlar de maneira mais sistemática a identidade de transeuntes na fronteira com a Dinamarca.Dos afegãos que solicitam asilo no país, apenas 28% têm seu pedido aprovado. Desde que a União Europeia classificou o Afeganistão como “zona segura” e assinou um acordo de repatriação com o governo do Afeganistão, os pedidos de refúgio têm sido negados. Contudo, dados coletados pela Norwegian Refugee Council (NRC) relevamque quase três a cada quatro refugiados que voltam ao Afeganistão são forçados a fugir, novamente, por conta da violência. Segundo dados da ONU, o número de civis mortos no Afeganistão atingiu um novo recorde no primeiro semestre deste ano, totalizando 1692 mortes de janeiro a junho, a maior parte delas atribuídas ao grupo Daesh.

Segundo a ACNUR refugiado são pessoas que“escaparam de conflitos armados ou perseguições. Com frequência, sua situação é tão perigosa e intolerável que devem cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos, e então se tornarem um ‘refugiado’ reconhecido internacionalmente, com o acesso à assistência dos Estados, não esta claro onde fecham as aspas. São reconhecidos como tal, precisamente porque é muito perigoso para retornarem ao seu país e necessitam de um asilo em algum outro lugar. Para estas pessoas, a negação de um asilo pode ter consequências vitais”Um refugiado não pode ser devolvido a seu país e não pode deixar o país onde foi solicitado o refúgio, até que o caso seja analisado. Ao enquadrar o Afeganistão como “zona segura”, parte-se do entendimento de que esses solicitantes de refugio não estão em situação de risco.

A Suécia registrou de 2012 a fevereiro deste ano, 400 mil pedidos de refúgio, um para cada 24 habitantes, um recorde na Europa. As eleições presidenciais na estão marcadas para setembro e a questão migratória será, certamente, um tema de destaque nas campanhas. Em entrevista,Elin demonstrou preocupação com o resultado nas eleições: “Estou encontrando nazistas nas ruas todos os meses. Eu sinto que eles estão ganhando força e as pessoas vão poder votar nos [Sweden Democrats] quando tivermos a eleição”. Mesmo o partido da situação, o Sweden’s Social Democrats, liderado pelo Primeiro Ministo, Stefan Löfven, anunciou uma nova política de imigração, a “Política de Imigração Segura para um Novo País”,prometendo restringir a entrada de refugiados no país. Se ganharem as eleições, prometeu.

Apesar do sucesso de sua campanha, autoridades posteriormente afirmaram que o afegão continua sob custódia e que será deportado da Suécia em algum outro momento. Além disso, apesar do apoio que recebeu de alguns passageiros e das repercussões positivas nas redes sociais, autoridades também declararam que a recusa a obedecer a ordens do piloto podem ser passíveis de multa e até prisão. De qualquer forma, é inegável que o protesto captou atenção de autoridades do país num contexto em que o tema ganha tanta relevância.

Ações de desobediência civil, como a que Elin praticou, são importantes estratégias de protesto e, da mesma forma, um direito à resistência contra práticas injustas – ainda que legais – que são perpetradas pelo governo. Ao ser questionada por um passageiro – “essas são as leis do seu país”, Elin deixa claro seu papel “Eu vou mudar as regras do meu país. Eu não gosto delas”.

 

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