O mercado da força em 2018: benefícios políticos, ganhos econômicos e violações de direitos

In ANÁLISES, Corporações, Estados Unidos, Intervenções, Oriente Médio
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Empresas militares privadas russas e norte-americanas contratam soldados terceirizados para combater nos conflitos na Síria e no Iraque. A terceirização das funções militares avança paradoxalmente na velocidade da impopularidade dos conflitos, impulsionada por benefícios políticos e ganhos econômicos.

Por Tomaz Paoliello

No dia 7 de fevereiro, as Forças Armadas dos Estados Unidos utilizaram sua artilharia e bombardeios aéreos para proteger instalações petrolíferas controladas pelos seus aliados curdos no norte da Síria. Eles estavam sob ataque de forças fiéis a Bashar al-Assad, supostamente formadas por combatentes sírios. No entanto, nos dias que seguiram o ataque, uma série de relatos mostraram que entre as baixas nas forças aliadas de Assad havia aproximadamente 200 russos.

De acordo com as informações que circulavam, os combatentes russos não eram oficialmente soldados enviados pelo regime de Vladimir Putin, mas sim funcionários de uma “empresa militar privada” sediada na Rússia, chamada Wagner PMC. A mesma Wagner já aparecera nas manchetes dos jornais norte-americanos por sua suposta participação no conflito ucraniano, fato pouco noticiado no período, mas que volta à tona no momento atual.

Contratados da Wagner PMC em combate na Ucrânia
Contratados da Wagner PMC em combate na Ucrânia

Sob denúncias de que estaria interferindo no conflito sírio, no dia 14 de fevereiro, o governo russo por meio de seu ministro de Relações Exteriores, declarou que cidadãos russos de fato haviam sido mortos em combates na Síria. No entanto, o ministro não apresentou números, tampouco nomes ou as funções exercidas pelos mortos. Seja por parte da empresa, seja pelos porta-vozes da política externa russa, imperou o silêncio e o mistério. Os dados mais precisos foram coletados por meio dos depoimentos pessoais de supostos parentes das vítimas.

A Síria não é o primeiro palco de conflito no Oriente Médio no qual combatentes russos lutaram como contratados terceirizados por empresas militares. Curiosamente, foi nos conflitos encabeçados pelos Estados Unidos, no Afeganistão e no Iraque, onde os soldados terceirizados retornaram às manchetes dos jornais. Em 2010, na Guerra do Iraque, o número de contratados privados superou o número de soldados oficiais da coalizão liderada pelos EUA. Desses terceirizados, aproximadamente 10% eram cidadãos americanos, outros 10% iraquianos, e os outros 80% “cidadãos de terceiros países”. Entre esses estrangeiros, encontrava-se um número importante de cidadãos da antiga União Soviética, veteranos com extenso treinamento e experiência militar, e dispostos a trabalhar por uma fração do que os soldados ou funcionários recrutados nos EUA ou Europa Ocidental. Naquele momento os contratos eram firmados com companhias estadunidenses ou britânicas.

Um vídeo recente da rede de TV Al Jazeera conta a história de ex-combatentes do conflito civil em Serra Leoa, alguns treinados como crianças soldados, contratados por empresas militares privadas dos Estados Unidos para lutar no Iraque. O vídeo exemplifica bem o amplo espectro dos contratados de “terceiros países” no Iraque e no Afeganistão, e a lógica por trás dessas contratações. De acordo com depoimentos a uma comissão do congresso dos EUA, havia relatos de que “guardas” colombianos e peruanos eram contratados por aproximadamente US$1.200 por mês para lutar no Iraque. Mais tarde, com a diminuição das verbas para o conflito, ugandenses recebiam aproximadamente US$800. Hoje leoneses são contratados por US$250, valor que torna suas condições de trabalho análogas à escravidão. De acordo com a comissão, a empresa que contrata esses funcionários tem reiteradamente vencido as concorrências de novos contratos para o Iraque.

Combatentes ugandenses empregados no Iraque
Combatentes ugandenses empregados no Iraque

Os dois casos demonstram, claramente, as duas vias de interesses paralelos que sustentam o crescimento do “mercado da força” no mundo.  Se é impossível afirmar no momento quem é o contratante da Wagner na Síria, já é possível indicar quais são os principais ganhos políticos da utilização de combatentes terceirizados no conflito. Os soldados da Wagner permitem que o governo sírio utilize forças russas sem que isso signifique o envolvimento oficial do país. Ademais, as baixas em forças mercenárias, conforme demonstrado pela repercussão do combate do dia 7 de fevereiro, tem repercussão muito menor na imprensa e geram menos desgaste. Esse dado é especialmente notável nas declarações do governo russo, que pode afirmar não ter nenhum envolvimento direto no conflito.

Nas notícias de Kiev, a Wagner aparece como “um grupo de mercenários patrocinado pelo Kremlin”. Na manchete da BBC, são “mercenários sombrios”. O tom utilizado nas notícias é evidentemente pejorativo. O termo “empresa militar privada” é uma formulação das próprias empresas, uma tentativa de dissociar suas marcas da pecha negativa que o termo “mercenário” carrega. Mais do que isso, a utilização de mercenários seria condenável como crime de guerra de acordo com as Convenções de Genebra, peça central do Direito Humanitário Internacional. A aposta das empresas é que seu caráter empresarial e corporativo, somado a uma adequação a um conjunto de boas práticas e boa governança, garantiriam sua legalidade e legitimidade. O impacto discursivo é notável: na comissão parlamentar nos Estados Unidos, Michael Thibault, Presidente da Comissão de Contratos de Guerra no Iraque e no Afeganistão, jamais utiliza o termo “mercenário” ou mesmo “soldado” para se referir aos combatentes. São apenas “guardas” de segurança privada agindo nos palcos de conflito mais importantes do mundo.

Se o caso da Wagner nos ajuda a compreender os benefícios políticos, o caso dos contratados de Serra Leoa demonstra as vantagens econômicas da terceirização. A utilização de empresas militares privadas permite que os grandes contratantes, em geral as grandes potências, tenham acesso a “mão-de-obra violenta” muito barata, com ampla experiência em combate e disposta a trabalhar em alguns dos ambientes mais perigosos do mundo. As empresas buscam recrutar principalmente nos antigos palcos de guerras civis no Terceiro Mundo, muitas delas herdeiras das disputas da Guerra Fria. São soldados muitas vezes treinados por consultores russos ou norte-americanos, acostumados com lutas de guerrilha e de contra-insurgência e em palcos de guerras irregulares.

A terceirização das funções militares avança paradoxalmente na velocidade da impopularidade dos conflitos. Se tomarmos o final da Guerra do Vietnã como o caso paradigmático da derrota de uma grande potência causado pelo desgaste interno, é fácil compreender os ganhos obtidos com a utilização das empresas militares privadas. Elas permitem que as guerras contemporâneas sejam lutadas a um custo mais baixo para os contribuintes, distante dos mecanismos de controle democrático, sem o custo das enormes baixas de compatriotas e eventualmente em missões que seriam consideradas crimes de guerra, como por exemplo a tortura. Hoje russos ou norte-americanos pagam a soldados 250 dólares ao mês para combater quem vive com menos de 1 dólar por dia no “lado violento do mundo”. Um mundo violento que eles criaram e que seguem reformando.

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