Urbicídio, outra forma de genocídio

In ANÁLISES, Intervenções, Oriente Médio, Pacificação, Política internacional, Terrorismo
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Em nome da “pacificação”, as cidades são devastadas. Milhares de vítimas civis reduzem-se a “danos colaterais”. Ocorre agora em Gaza e Ghouta — mas deu-se em Dresden, por obra da “civilização ocidental”

Por Bruno Huberman

As imagens de explosão e destruição em massa, com gigantescas nuvens cinzas de fumaça sobre edifícios parcialmente ou completamente colapsados, ganharam as páginas de notícias sobre o último episódio de violência da guerra civil que devasta a Síria. As tropas sírias, lideradas pelo presidente Bashar al-Assad, promoveram ataques aéreos sem precedentes nestes sete anos de conflito ao bombardearem o enclave de Ghouta Oriental, nos subúrbios da capital Damasco.

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O mapa de Ghouta Oriental e as fronteiras de controle territorial pelas forças militares envolvidas no conflito

O bombardeio deixou um rastro de destruição no enclave, afetando a vida das 393.000 pessoas que vivem no local, provocando uma situação de crise humanitária. Tal caos, no entanto, não foi obra do acaso, mas objeto de planejamento dos tomadores de decisão sírios.

Na semana passada, panfletos foram jogados em Ghouta Oriental avisando que seria realizado um ataque aéreo e pedindo para os civis deixarem a área. Até então, a população local estava sendo impedida de deixar o enclave devido a um cerco militar imposto por forças leais a Assad, o que provocou a morte de inúmeras pessoas por questões de saúde e espalhou a fome pela região nos últimos meses. Pouco após o aviso, bombas de grande poder de destruição foram lançadas de aviões militares. O presidente sírio almeja limpar a região de Damasco do alcance das forças opositoras, uma vez que desde Ghouta Oriental os rebeldes são capazes de lançar foguetes na região central da capital, onde estão localizados centros administrativos e religiosos.

Apesar de, teoricamente, os ataques buscarem apenas alvos militares, o dano é indiscriminado: tanto forças de combate como civis foram atingidos da mesma forma, o que no jargão militar é chamado de “danos colaterais”. Pelo menos 541 pessoas morreram nos últimos dias em decorrência dos ataques aéreos, mas organizações locais e internacionais estimam um número até três vezes maior. O objetivo é impor uma situação limítrofe aos rebeldes de forma que não lhes restem outra alternativa a não ser a rendição. Estratégia similar foi utilizada no cerco e tomada de Aleppo, mas sem o instrumento dos ataques aéreos de destruição em massa.

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A destruição provocado pelos bombardeamentos das tropas sírias em Ghouta Oriental

Urbicídio: guerra contra a cidade

Embora este tipo de ação possa ter chamado atenção pela dimensão e ineditismo no contexto específico da guerra na Síria, tornou-se comum nos últimos anos no Oriente Médio a destruição completa de bairros densamente povoados por ataques aéreos, provocando um altíssimo número de vítimas. Imagens semelhantes puderam ser vistas na guerra de Israel contra o Hizbollah, no Líbano, em 2006; em operações norte-americanas na ocupação do Iraque; e nos frequentes ataques israelenses à Faixa de Gaza desde 2008.

A devastação de cidades em decorrência de uma guerra não é um fato novo. De Dresden, na Alemanha, na II Guerra Mundial, à Mostar, na Guerra da Bósnia, na década de 1990, a destruição urbana se tornou um resultado corrente dos conflitos armados, que tem cada vez mais as cidades como seu espaço de batalha. Especialistas no assunto chamam isso de ‘urbicídio’: violência direcionada à cidade, às comunidades urbanas e à urbanidade. É quando o espaço urbano deixa de ser apenas o local onde os conflitos ocorrem e torna-se uma parte constitutiva da guerra. A infraestrutura urbana torna-se uma forma de engajar-se no conflito, seja tornando-se um alvo militar ou um esconderijo para forças insurgentes.

Especialista no assunto, o professor britânico de Relações Internacionais Martin Shaw observa que o ataque às representações identitárias da cidade é uma característica central do urbicídio. Os atentados de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas de Nova York, símbolo maior do poder econômico e político dos EUA, são um importante exemplo. O urbicídio é, em resumo, uma forma de genocídio.

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As ruínas de Dresden após a destruição pelos confronto entre tropas estadunidenses e alemãs, em 1945

Quando a destruição da cidade é intencional

Com o aumento da quantidade de conflitos em ambiente urbanos, cada vez mais o engajamento militar nas cidade tem sido teorizado e testado por por militares de diferentes nações. Diferente do estrago na paisagem urbana resultante de meses ou anos de intensos embates entre tropas inimigas, como na tomada de Aleppo pelas forças leais a Assad no final de 2016, a destruição em Ghouta Oriental foi intencionalmente provocado e faz parte de doutrinas de atuação em ambientes urbanos.

Ao contrário de desertos e campos abertos, os teóricos militares veem as cidades como um espaço de difícil ação e que deve ser evitado ao máximo, uma vez que diminuem uma eventual diferença de poder militar. Por conseguinte, buscam formas de superar as adversidades do espaço urbano, que confere vantagens aos seus adversários, normalmente forças insurgentes.

Tecnologias de últimas geração, como óculos que enxergam através de paredes e robôs que atiram automaticamente, têm sido desenvolvidas de forma a cumprir estes objetivos. O levantamento de cercos com postos militares e muros também têm sido utilizados de forma a imprimir sofrimento coletivo na região onde o seu inimigo estaria escondido para voltar a população civil contra os insurgentes.

Diante deste cenário, a destruição planejada tornou-se uma doutrina militar, não apenas um resultado natural do conflito urbano. O objetivo dos militares é ‘limpar’ o espaço de batalha. Eles entendem que a infraestrutura urbana e a população civil ‘obstruem’ o engajamento militar por servirem de ‘camuflagem’ para as forças insurgentes inimigas ‘não convencionais’, normalmente constituídas por combatentes ‘irregulares’ não identificáveis por uniformes militares. Desta forma, busca-se a pacificação do território e da população por meio do duplo processo de destruição e reconstrução — este último, conduzido com a importante participação de corporações transnacionais.

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Impacto provocado pelo bombardeamento de Israel à Faixa de Gaza

A internacionalização do urbicídio

O procedimento é o mesmo de Gaza à Ghouta Oriental. O uso desproporcional de força militar contra alvo civis urbanos tornou-se um procedimento comum no conflito de Israel contra os palestinos na 2ª Intifada (2000-2006), quando israelenses destruíram com bombas e bulldozers o campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia, onde localizava-se combatentes do  Hamas, grupo palestino inimigo dos israelenses. 

Em 2006, a tática ganhou forma de doutrina: na guerra contra o grupo libanês Hizbollah, no sul do Líbano, em 2006, os israelenses bombardearam o bairro de Dahieh, em Beirut, onde localizava-se o quartel general do Hizbollah após meses de cerco e conflitos. A Doutrina Dahyia passou a ser utilizada não apenas nas guerras de Gaza, que desde 2008 já provocaram a morte de milhares de civis palestinos, como pelos militares estadunidenses em confrontos no Iraque.

Ironicamente, o Hizbollah é um dos principais aliados de Assad na guerra civil síria. No entanto, israelenses, sírios e estadunidenses aproximam-se no momento de escolher os meios para enfrentar os seus adversários militarmente mais fracos. À diferença de israelenses e estadunidenses, Assad utiliza tal instrumento contra seu próprio povo.   

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Jovem sírio em meio aos escombros de Ghouta Oriental

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