Homenagem a Oliveiros Ferreira

In ANÁLISES
oliveiros
Seu posicionamento tornava-o um “revolucionário da ordem” ( de acordo com o saudoso Gildo Brandão )– por isso, por vezes divergíamos. Mas jamais deixei de admirar a coragem intelectual e profundidade com que examinava um mundo em transe

Por Reginaldo Nasser

Imagem: Inácio Moraes

Em meados dos anos 1990, conheci pessoalmente e passei a conviver com o mestre Oliveiros Ferreira, que ontem faleceu, aos 88 anos. Foi convidado pelo prof Miguel Chaia a ministrar a disciplina “Guerra e Estratégia” no curso de Relações Internacionais da PUC(SP). Ele gostou da experiência e se manteve no quadro docente da universidade até 2015 (1997-2015). Nesse período, assumiu as mais várias disciplinas nos cursos de Ciências Sociais e Relações Internacionais, tanto na graduação quanto na pós-graduação.

Como a grande maioria das pessoas que lia o Estadão e tinha alguma familiaridade com Ciências Sociais, eu já tinha Oliveiros Ferreira como leitura obrigatória. Lembro muito bem de sua resposta, inclusive o tom grave da fala, quando pedi para assistir suas aulas na graduação: “Não é adequado um professor assistir aula de outro professor!”, ele atestou. Mas consegui burlar seu veto, usando o fato de eu ser seu aluno e orientando no doutorado.

Por diversas vezes fiquei muito apreensivo com seu rigor na orientação do doutorado. Em uma ocasião, após a correção dura sobre um texto que havia escrito, cheguei em casa tenso e compartilhei com minha filha o ocorrido. Ela argumentou: “Calma pai. Melhor assim. Já que ele é seu orientador, quando chegar a defesa da tese será mais tranquilo, pois, além de já ter passado por todos os questionamentos, ele não estará arguindo você”. Sabias palavras que me aliviaram.

Durante todos esses anos tive o privilégio de estar ao lado do Oliveiros em centenas de atividades acadêmicas: seminários, conferências, bancas de mestrado e doutorado e reuniões de departamento. Mas confesso que sempre ficava com receio, ou medo (?), de expor minhas ideias publicamente quando ele estava por perto. Em 2012, fui convidado pelo prof Carlos Enrique Ruiz Ferreira, que organizou seminário para debater a obra de Oliveiros, a compor uma mesa para comentar o livro Nossa América, Indoamérica (Livraria Pioneira Editora – Editora da USP). Mas, pior que estar ao lado de Oliveiros numa mesa, é tê-lo na plateia, ainda mais comentando a sua obra.

Pensei bem como poderia me safar dessa. Então, abri minha fala lembrando de uma cena antológica do filme de Woody Allen, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall). Na fila de um cinema, o personagem interpretado por Allen, muito irritado com uma pessoa que insistia em analisar o filme do próprio Allen com teorias mirabolantes, diz: “Você não sabe nada da minha obra”! Depois de lembrar tal passagem , deixei claro que não faria comentário algum sobre a obra do mestre, mas tão somente uma reflexão a partir dela. Deu para ouvir a risada dele de longe. Talvez, por esse receio, acabei declinando do convite do prof Carlos Ruiz (1) para escrever um dos capítulos do livro que foi publicado com resultado desse evento. Não senti que podia assumir essa responsabilidade.

Oliveiros Ferreira foi amplamente reconhecido nos meios intelectual e político como um conhecedor da área de Relações Internacionais. Ministrou a primeira disciplina de Relações Internacionais em São Paulo (USP-1973), atuou como editor da área internacional no jornal O Estado de S. Paulo, orientou e participou de inúmeras teses acadêmicas e, por várias vezes, foi convidado a debater no Congresso Nacional os mais variados temas de política externa. No entanto, não se preocupou em sistematizar os seus textos em uma obra que ressaltasse esse traço de sua trajetória intelectual.

Por isso, procurei contribuir organizando um livro a partir de seus artigos, publicados na década de 70, intitulado A crise da política externa (autonomia ou subordinação?). Os artigos reunidos tematizam, de uma forma ou outra, o que podemos chamar de “nossa conduta externa”, num período em que alguns apostavam no Brasil Grande Potência (2)!

Na verdade, política externa brasileira sempre foi objeto da preocupação de Oliveiros numa época em que era, com raras exceções, um assunto restrito ao âmbito do Itamaraty e do Estabelecimento Militar. Ao longo dos seus cinquenta anos de permanência em O Estado de São Paulo, com a objetividade que lhe é própria, desvencilhou-se dos véus ideológicos que cobriam a realidade do poder e apontou os equívocos que imperavam na condução da política externa brasileira, enclausurada que estava nos Núcleos de Poder no Estado.

Pode-se dizer que, no geral, suas advertências continuam tão válidas hoje quanto o eram em 1974:

“no momento em que a política externa se prepara para passar da fase meramente defensiva para a ofensiva correspondente, não encontra, no corpo social e político, aqueles que sejam capazes de estabelecer a ligação entre o Estado e a Sociedade Civil, fato esse grave, que impede que, pelo menos uma vez na história do Brasil, a política exterior traduza interesses gerados por outra fonte que não o Estado”.

Nunca li nem ouvi alguém falar sobre isso, mas me arrisco a dizer que Oliveiros Ferreira era muito modesto, sendo preciso provocá-lo para que se manifestasse. Essa era minha tática. Organizava um evento, colocava o tema e convidava-o, informando que já estava marcado. Assim, ele não teria como recusar! Com isso, consegui que escrevesse primorosas reflexões sobre a Russia de Putin em dois livros que organizei sobre conflitos internacionais (3).

Com estilo bem próprio, esse “revolucionário da ordem” (4) sempre teve a capacidade de nos estimular a inteligência e de nos fazer refletir ou repensar. Era capaz de surpreender até mesmo aqueles que julgavam conhecê-lo. Vejam sua avaliação dos protestos de junho de 2013, organizados pelo Movimento Passe Livre , logo no início dos acontecimentos:

“estamos diante de um fato social que indicaria, citando o velho Trotski, um ‘salto na consciência coletiva’, produto do cansaço de centenas de milhares de brasileiros. As massas − tomemos a palavra em seu sentido mais amplo, de magnitude − a rigor só se movem quando levadas pelo amargo sentimento de não suportar mais o status quo”.

Mas na conclusão do mesmo texto, falou mais alto o cético caustico:

“É a forma tupiniquim-institucional da democracia direta ou, como diria Lampeduzza, a maneira de fazer a revolução para que tudo continue como está?” (5)

Para Oliveiros, “são os pequenos fatos que permitem apanhar num relance o sentido dos processos históricos”. Um de seus pensadores favoritos, Miguel Unamuno, observava que deveríamos olhar atentamente não apenas para os momentos grandiosos das revoluções e dos golpes de Estado, mas também para certos fatos ocultos, imperceptíveis, que, embora diluídos na trama intrincada do dia-a-dia da política, tornaram-se decisivos para profundas mudanças da mentalidade.

Cito trecho de um de seus textos para mostrar o que é o “estilo Oliveiros”.

“Será exagero, sem dúvida, falar em ‘nova era de conflitos’. Talvez se acrescentássemos um H à palavra ‘era’ estivéssemos mais próximos da realidade internacional. Porque, afinal, a hera é ‘uma planta trepadeira, com raízes adventícias, que se mantém verde durante todo o ano’. E o dicionário faz questão de elucidar os menos esclarecidos: ‘A parede estava completamente coberta pela hera’. Por que esse recurso à Botânica para falar de relações internacionais, vale dizer, de relações entre Estados? Porque a imagem da hera no lugar de era é a que melhor permite se compreender o que temos diante dos olhos desde que Putin chegou à presidência da Rússia. De fato, a partir do momento em que Ieltsin deixou o poder, e um novo ator adentrou o palco, os deuses, como na tragédia grega, lançaram ao solo uma semente da hera, que o novo presidente da Rússia fez questão de adubar com paciência na esperança de que, nos demais Estados, houvesse quem entendesse de Botânica e soubesse ver que essa nova variedade de planta tenderia a recobrir não um muro qualquer, mas toda a cena em que se representa a grande Commedia Dell’Arte que são aquilo que, na Academia, insistimos em chamar de Relações Internacionais, que para muitos se passa naquilo que costumamos chamar de Sociedade Internacional” (6).

Mais do que o seu rigor intelectual, o mais digno de admiração era a sua capacidade de instigar, tanto os alunos quanto os próprios professores, a pensar. Oliveiros parece corresponder àquilo que G.K. Chesterton, um de seus autores favoritos, disse de Thomas Carlyle, o polêmico escritor escocês da era vitoriana. Carlyle induziria “os homens a estudar menos a verdade de seu raciocínio, e mais a verdade das suposições sobre as quais raciocinavam. Mesmo onde sua concepção não chegou à verdade mais elevada, ela sempre se revelou uma benéfica e reconfortante heresia.”

Mesmo as pequenas frases que pronunciava  em tom pomposo e grave (em latim, então, era devastador) eram fortemente carregadas de sabedoria e nos incomodavam. Uma das minhas favoritas e que usei como epígrafe de minha tese de doutorado sobre os EUA era: etiam diabolus audiatur (até o diabo tem o direito de ser ouvido).

Encerro, recorrendo novamente a Chesterton, para dizer ao mestre que seus escritos contêm as duas exigências morais predominantes na obra de um grande homem:

1 – que ele acreditasse na verdade de sua mensagem;

2 – que deveria acreditar na receptividade dessa mesma mensagem.

 

Referência Bibliográficas:

(1) Professor Oliveiros S. Ferreira – Brasil, teoria política e relações internacionais com sua obra | Carlos Enrique Ruiz Ferreira (org.) | Edusp. 2015

(2) A crise da política externa (autonomia ou subordinação?) org Reginaldo Mattar Nasser – Editora Revan, Rio de Janeiro, 2001

(3) De novo, a Rússia potência in “Os conflitos internacionais em suas múltiplas dimensões” ( Editora Unesp, 2009); Uma Nova Era de Conflitos “Novas perspectivas sobre os conflitos internacionais” ( Editora Unesp, 2010)

(4) Brandão, Gildo Marçal. O revolucionário da ordem (O Brasil e a América Latina em Oliveiros S. Ferreira). Lua Nova, Dez 1999, no.48, p.127-143.

(5) http://www.oliveiros.com.br/intermezzo-andantino/

(6) Uma Nova Era de Conflitos “Novas perspectivas sobre os conflitos internacionais” ( Editora Unesp, 2010. Pg55-65

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One commentOn Homenagem a Oliveiros Ferreira

  • Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto

    Deus me livre e guarde! Um mero racionalizador intelectualizante das atrocidades cometidas pelos Gorilas durante 21 anos. Descanse revolvendo-se.

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