Representante das FARC no Brasil relata a Transformação do Movimento de Guerrilha em Partido Político na Colômbia

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Olivério Medina, padre e ex-guerrilheiro da FARC, relatou o contexto político atual  da Colômbia, a transição do grupo de um movimento de guerrilha para um partido político e explicou os projetos futuros do partido para o país

Por Rodrigo Amaral

No último dia 12 de setembro, Olivério Medina, representante do novo partido fundado pelas FARC, palestrou no Al Janiah, bar e restaurante palestino que também serve de espaço cultural e debate político no centro da cidade de São Paulo.

No evento, o representante das FARC ressaltou a importância da luta do ex-grupo revolucionário dentro do espaço político colombiano neste novo cenário, impulsionado pelos acordos de paz entre o governo da Colômbia e as FARC.

Olivério, padre desde 1975, exerceu durante anos sua profissão pastoral nas regiões campesinas da Colômbia. Em 1983, entrou para a causa revolucionária das FARC, onde assumiu papel de liderança até a desmobilização. No Brasil, onde vive desde 1992, foi preso por duas vezes pela Polícia Federal a pedidos do governo colombiano, em 2000 e 2004, porém em ambos o ex-guerrilheiro foi liberado após a pressão de comitês populares brasileiros. Em 2005 o governo de Uribe pediu a extradição de Medina, sob as acusações de terrorismo e assassinato. No entanto, em 2006 o governo brasileiro negou o pedido e lhe concedeu status de refugiado político, diante da perseguição política que sofria do governo colombiano. Desde então, Olivério representa a organização das FARC no Brasil.

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O colombiano Olivério Medina durante debate em bar paulistano

Durante o evento Olivério relembrou o massacre das Bananeiras, 1928, como episódio que despertou o movimento revolucionário na Colômbia: “Foi ‘batismo de sangue’ dos operários na luta revolucionária” contra o “imperialismo dos Estados Unidos” e o governo colombiano submisso a ele. O representante das FARC foi bastante incisivo e crítico da interferência dos EUA na Colômbia ao longo dos mais de 50 anos de conflito civil. Ressaltou a importância histórica das FARC na luta pelos direitos dos camponeses, indígenas e operários colombianos e que “infelizmente por muito tempo tivemos que lutar contra a tirania por meio de armas”.

Atualmente, com o Processo de Paz – acordo entre o governo colombiano e as FARC – um novo terreno foi estabelecido para atuação da organização revolucionária no país. Em agosto deste ano, os líderes das FARC se reuniram no intuito de estabelecer uma nova função para o movimento revolucionário, transformando-o em partido político. Agora, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, passam a ser: Forças Alternativas Revolucionárias do Comum. Tal processo consolida o novo papel das FARC na Colômbia, agora enquanto partido político. O que significa, conforme Olivério, a busca por “solucionar os problemas da Colômbia, sem armas”.

Olivério se apresentou otimista com relação ao processo de paz. Neste transcurso, o governo se comprometeu a não atacar mais camponeses, operários e indígenas e promover um processo de reforma agrária e reorganização de leis campesinas para erradicar a pobreza no campo. Em contrapartida, as FARC se comprometeriam a submeter a julgamento aqueles que cometeram crimes, com penas reduzidas,  de acordo com o governo Colombiano, apoiar a substituição do cultivo de coca por produtos lícitos no campo e entregar suas armas por mediação das Nações Unidas, o que já teria sido realizado no primeiro semestre deste ano.

Apesar do otimismo quanto ao processo de paz, Olivério destacou a importância do povo colombiano se manter atento. Afinal, nas palavras do ex-guerrilheiro, “Nós não podemos confiar plenamente naqueles que nos oprimiram por tanto tempo, ao longo de nossa história. Por isso temos que construir nosso próprio caminho”.

Olivério destacou, então, alguns dos principais objetivos políticos da nova FARC: Promover o desenvolvimento de universidades públicas no país; promover o acesso à aposentadoria para todos os colombianos, já que muitos trabalhadores do país não tiveram acesso à carteira assinada; desmilitarizar a vida na Colômbia, uma das suas principais bandeiras. Nesse último quesito, Olivério destaca, “não necessitamos de 500 mil soldados. A Colômbia não está em guerra com nenhum outro país latino-americano”. O país deveria ter, assim, um exército pequeno e condizente com o contexto pacífico da região latino-americana.

Sobre os objetivos do partido para âmbito regional latino-americano, Olivério afirmou que, inicialmente, as FARC buscarão organizar a Colômbia, não tendo objetivos internacionais declarados: “Nós precisamos primeiro concertar a nossa ‘casa’ (Colômbia)”. Porém, ressaltou a importância da integração regional latino-americana sem a interferência norte-americana, bem como a necessidade do Brasil não “virar as costas para seus ‘irmãos’ latino-americanos”.

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