Os novos caminhos do conflito entre Israel e Palestina: uma resolução de um ou dois Estados?

In ANÁLISES, Oriente Médio
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Na coletiva de imprensa conjunta entre o presidente estadunidense, Donald Trump, e o Primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o debate entre uma resolução de um ou dois Estados para o conflito Israel Palestina foi retomado. Trump apoiará as decisões da coalizão de Netanyahu sobre o assunto?

Por Karina Stange Caladrin

A primeira visita oficial de Benjamin Netanyahu ao novo presidente estadunidense, Donald Trump, causou furor nas relações internacionais. No começo de fevereiro, o Primeiro-ministro israelense e Donald Trump realizaram uma coletiva de imprensa conjunta e uma frase específica do presidente estadunidense deixou o mundo e a mídia chocados. Donald Trump afirmou que uma resolução de um Estado ou de dois Estados para o conflito entre Israel e Palestina estaria suficiente para ele, entretanto os meios de comunicação parecem ter escutado só até este momento e não o que Trump disse posteriormente, que para ele estaria suficiente caso os dois lados concordassem. A mídia rapidamente noticiou que o presidente dos Estados Unidos estaria apoiando a resolução de um Estado e não mais a de dois Estados, mas não foi o que ele disse de verdade.

Acompanhando a indignação mundial, o presidente de Israel, Reuven Rivlin, afirmou no dia 20 de fevereiro que Israel deveria de fato anexar a Cisjordânia. Entretanto, desapontando uma parcela dos defensores da anexação, Rivlin defendeu a concessão de cidadania e direitos plenos a todos os palestinos nos territórios onde a soberania israelense seria aplicada. Ou seja, ele apoia um Estado binacional.

Os israelenses têm duas opções em relação ao conflito: um Estado binacional, com ou sem apartheid, ou um Estado palestino a ser estabelecido ao lado de Israel. Essas são as opções, e a maioria das pessoas em Israel apoia a anexação. Os partidários de extrema-direita na coalizão do Primeiro-ministro Netanyahu apelam por uma resolução de um Estado graças ao que é percebido como uma Casa Branca mais “pró-Israel” liderada por Donald Trump, avançando na anexação de partes da Cisjordânia, uma demanda que Netanyahu resistiu.

Como presidente, Rivlin, ex-membro do Likud e antigo defensor de anexar a Cisjordânia e conceder aos palestinos direitos civis plenos, tem um papel essencialmente simbólico, já que o modelo político israelense é parlamentarista. Há alguns dias, Rivlin disse que se opõe firmemente a uma lei aprovada pela Knesset (Parlamento de Israel) recentemente, permitindo que terras privadas palestinas sejam expropriadas para legalizar retroativamente os assentamentos. A aprovação da chamada “Lei de Regularização” poderia fazer com que Israel pareça um Estado de apartheid, disse ele. “Israel adotou o direito internacional. Não é permitido que um país que age de acordo com ele aplique suas leis em territórios que não estão sob sua soberania. Se o fizer, é uma cacofonia legal. Isso fará com que Israel seja visto como um Estado de apartheid, o que não é”, disse ele. A lei aprovada permite que Israel exproprie terras privadas palestinas na Cisjordânia, onde assentamentos israelenses ou postos avançados foram construídos. Embora não conceda aos colonos a posse da terra, permite que eles permaneçam lá e nega aos proprietários palestinos o direito de reivindicar a terra até que haja uma resolução diplomática do status dos territórios.

A questão é que Israel não pode impor suas vontades sobre os palestinos. Como o próprio Donald Trump disse, qualquer projeto para a resolução do conflito deverá ser acordado pelos dois lados. Os israelenses partidários do Likud tinham assumido que Trump iria apoiar praticamente qualquer decisão que o governo de Netanyahu tomasse. A declaração da Casa Branca foi uma decepção e mostrou para Netanyahu que há um limite para tudo.

Entretanto, a declaração não abre novos caminhos. Os assentamentos existentes, diz a declaração, não são um impedimento à paz, que é bastante diferente das declarações de administrações estadunidenses passadas que os consideravam “ilegítimos” ou “ilegais”. A declaração nem sequer diferencia os assentamentos dentro dos blocos e os que estão fora eles. Também diz que a expansão de novos assentamentos, que sempre foi problemática, ou a criação de novos, “pode não ser útil” para atingir esse objetivo.

Portanto, apesar de Trump e sua administração terem um discurso muito mais brando que de administrações anteriores, como a de Barack Obama, no que tange o conflito Israel-Palestina e a construção de assentamentos na Cisjordânia por Israel; Donald Trump não irá simplesmente permitir que Netanyahu e sua coalizão de direita realizem o que bem entenderem na região. Trump está disposto a colocar um fim em um dos conflitos mais antigos da história moderna e, de acordo com a coletiva de imprensa do dia 15 de fevereiro, quer uma resolução de ganhos mútuos, em que os dois lados concordem com o plano adotado. Parece utópico considerando a extensão do conflito e a visão dos israelenses de que a resolução é um jogo de soma zero, em que se Israel ganhar automaticamente os palestinos perdem e vice-versa.

Desde então a política interna de Israel tem estado agitada em relação aos assentamentos. “Não existe o momento certo”, declarou o prefeito de Ma’aleh Adumim, tentando persuadir membros do Comitê Ministerial de Legislação para discutir agora em março um projeto de lei que anexaria a Cisjordânia. Mas Netanyahu não apoia a anexação da maneira como a extrema direita gostaria que ele a apoiasse. Enquanto a extrema direita quer anexar Ma’aleh Adumim como parte de seu projeto de um só Estado, Netanyahu quer anexá-la como parte de uma visão de “um Estado e meio” (um Estado para o povo judeu e metade de um Estado para o que ele vê, no melhor dos casos, como metade de um povo).

Netanyahu precisa de tempo para tentar criar um contexto, ou pelo menos a aparência de um contexto, no qual será claro para os estadunidenses que a anexação não implica abandonar a ideia de separação. Dessa forma, ele será capaz de anexar agora e separar mais tarde. A extrema direita está tentando declarar a vitória, mas é apenas um espetáculo.

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