Todos os caminhos levam à Raqqa?

In ANÁLISES, Estados Unidos, Oriente Médio, Política internacional
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A Turquia apresenta seus planos à administração Trump para fazer parte da operação contra a capital do Estado Islâmico – desde que as unidades curdas na Síria sejam excluídas da mesma.

O governo da Turquia tem dado claras evidências de que está disposto a aprofundar seu envolvimento no conflito da Síria – ao mesmo tempo em que mantém seu antagonismo com as unidades curdas desse país. No dia 17 de fevereiro, na base aérea turca de Incirlik, o Chefe do Estado-Maior da Turquia, General Hulusi Akar, forneceu ao General Joseph Dunford, Chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos, planos para uma operação que pretende capturar a cidade de Raqqa, atual capital do Estado Islâmico.

O plano preferencial do governo turco seria uma ação combinada entre Forças Especiais da Turquia e dos Estados Unidos junto de unidades rebeldes sírias que tem o apoio de Ancara, como o Exército Livre Sírio. A operação ocorreria através da cidade síria de Tel Abyad, na fronteira da Turquia, que hoje está sob controle das forças curdas autônomas da Síria, representadas pelo Partido da União Democrática (PYD) e seu braço armado, as Unidades de Proteção Popular (YPG). Nesse sentido, o governo em Washington precisaria convencer as unidades curdas a deixarem as forças da Turquia passarem pelo território sob seu comando.

A alternativa seria ir em direção à Raqqa partindo da cidade síria de al-Bab, que está em disputa há quase três meses entre forças do Estado Islâmico, militares turcos e as forças rebeldes aliadas, e agora o governo sírio. O caminho, entretanto, seria mais longo, quase 200km, e o terreno mais montanhoso – o que tornaria o plano logisticamente mais complicado que o primeiro.

Indicações de que a Turquia faria tal proposta já vinham sendo apresentadas. No dia 7 de fevereiro, Donald Trump telefonou ao presidente Erdoğan. Na ocasião, o líder turco teria pedido que os Estados Unidos abandonassem a parceria com as YPG, que compõe as Forças Democráticas Sírias (SDF), dado seus laços com o grupo turco considerado terrorista pelos dois países, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Erdoğan também já teria apresentado a proposta das próprias forças turcas tomarem Raqqa com auxílio de Washington. No dia seguinte, o Ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlüt Çavuşoğlu, afirmou que assim que a cidade de al-Bab fosse tomada pelas forças turcas, a Turquia estaria pronta para direcionar seus esforços para Raqqa.

Mike Pompeo, o novo diretor da CIA, chegou à Turquia no dia 9, dois dias após a ligação de Trump, inaugurando sua primeira viagem internacional. Para o governo turco, a visita poderia significar um reset na relação com os Estados Unidos, visto que as relações entre Ancara e Washington estavam tensas desde 2014, quando o governo Obama decidira apoiar as YPG curdas na Síria contra o Estado Islâmico. Os relatos jornalísticos são de que Pompeo discutiu com o governo turco a possibilidade de Ancara participar da operação para tomar Raqqa. Por fim, no dia 13, Erdoğan, em visita ao Bahrein, reafirmou que a Turquia estaria disposta a criar uma “zona segura” no norte da Síria, de 5 mil km² – dialogando com uma promessa de Trump de imposição destas –, que seria mantida com apoio da coalizão dos Estados Unidos.

Os planos turcos, entretanto, enfrentam duas problemáticas importantes – uma do lado turco e outra do lado estadunidense. Em relação aos desafios de Ancara, a proposta de tomar Raqqa vem dias antes da Operação Escudo do Eufrates completar seis meses de existência. Tal operação, lançada no dia 24 de agosto de 2016, consistiu da entrada de forças militares terrestres turcas pela primeira vez na Síria, ao lado de unidades rebeldes do Exército Sírio Livre.

O objetivo da Operação, nas palavras de Çavuşoğlu, seria “expulsar o Daesh [EI] da nossa fronteira. Mas as forças das YPG […] devem se retirar para o leste do Rio Eufrates. Se não o fizerem, a Turquia fará o que for preciso”. Ou seja, a intervenção turca foi uma resposta ao avanço dos curdos sírios para oeste do Rio Eufrates: apesar de o EI estar localizado na fronteira turca desde 2014, foi somente quando as YPG tomaram a cidade de Manbij, no Oeste do rio (conforme figuras abaixo), que Ancara entrou na Síria.

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KURDS 2016 PYD expansion in northern syria

Entretanto, apesar dos avanços iniciais, a Operação Escudo do Eufrates está estacionada na cidade de al-Bab, encontrando muitas dificuldades de toma-la do EI, com mais de 70 soldados turcos já mortos em combate. Nesse sentido, em primeiro lugar, o plano turco de tomar Raqqa só poderia ocorrer depois que a tomada de al-Bab fosse finalizada, e, em segundo lugar, se Ancara já vem enfrentando problemas agora, possivelmente teria ainda mais complicações caso atacasse a própria capital do EI, mais fortificada e com uma população que é mais que o triplo de al-Bab.

Quanto à problemática dos Estados Unidos, a questão está em saber se a administração Trump estaria disposta a deixar de lado a parceria com as YPG curdas, grupo que serviu de proxy na luta contra o EI desde 2014. Trump vem mostrando-se ambíguo nesse sentido, evitando criar problemas com o governo turco, mas sem afirmar em nenhum momento que romperia com os curdos. Nesse sentido, cabe destacar que uma das últimas ações do governo Obama foi preparar um plano para armar os curdos na Síria e, através da parceria com esses, avançar e tomar Raqqa.

De acordo com uma matéria do jornal The Washington Post, nos últimos sete meses da administração Obama, discutiu-se qual seria o melhor plano para criar uma operação direcionada à Raqqa. Teria sido o General Joseph Votel, comandante das forças dos Estados Unidos no Oriente Médio, o responsável pela ideia de armar os curdos no norte da Síria e leva-los a tomar a capital do EI. A proposta de Votel, entretanto, dividiu o time de segurança nacional: ainda que o então Secretário de Defesa, Ashton Carter, tenha apoiado o plano, vozes mais céticas como a de Susan Rice, Assessora de Segurança Nacional, o desaceleraram, já que ela temia uma piora nas relações com a Turquia como consequência. Rice teria consultado o General Joseph Dunford, que estaria sondando a possibilidade de forças turcas tomarem Raqqa em vez das YPG.

Entretanto, a matéria afirma que, por mais de dois anos, o Pentágono esperou que o governo turco cumprisse promessas de enviar suas forças contra Raqqa, e isso nunca acontecera. No fim de 2016, portanto, Dunford teria concluído que os turcos não enviariam suas tropas e, faltando três semanas para o fim do governo Obama, Dunford se juntou a Carter para formalmente requisitar que os curdos fossem armados. Deve-se ressaltar novamente que, segundo o jornal, o plano inicial de Obama teria sido usar forças turcas para tomar Raqqa e que somente com a não confirmação dessas que os curdos teriam se tornado o plano oficial.

No dia 10 de janeiro, Obama juntou-se com seu time de segurança nacional para deliberar sobre o assunto, mas Rice teria convencido o presidente de que seria necessário consultar com o time de transição do presidente eleito Donald Trump. Rice, assim, tratou com o General Michael Flynn, à época já garantido como Assessor de Segurança Nacional do novo presidente, o qual teria pedido que Obama não tomasse a decisão final. Diante disso, no último encontro do Conselho de Segurança Nacional, no dia 17 de janeiro, três dias antes de Trump assumir, Obama decidiu que a palavra final era do novo presidente, ainda que tenha fornecido todas as informações de como proceder com o armamento dos curdos e, mais do que isso, como explicar para Erdoğan a decisão. Trump, entretanto, ao assumir, recusou-se a seguir com o plano e ordenou ao Pentágono e ao Secretário de Defesa, General James Mattis, novas opções em trinta dias.

Percebe-se, portanto, que, na situação atual, Erdoğan parece ter finalmente tomado a decisão de comprometer forças turcas com a tomada de Raqqa – o que não ocorreu durante o governo Obama e que fora por ele esperado. A decisão, possivelmente, está ligado ao fato de que soldados turcos já estão envolvidos na Operação Escudo do Eufrates, mas, mais do que isso, porque haverá um referendo na Turquia em abril desse ano sobre trocar o sistema político do país – de parlamentarismo para presidencialismo. Nesse sentido, uma vitória em al-Bab e um compromisso com os Estados Unidos para Raqqa e que enfraqueça os curdos poderiam ser capitalizados como importantes vitórias do governo. Cabe saber se as forças turcas conseguiriam cumprir com o que prometeram, caso Washington aceite, e se o governo Trump concordaria em substituir os curdos pela Turquia na tomada de Raqqa – uma proposta que Obama esperou por meses, mas que só veio agora.

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