Uma retrospectiva para conhecer Jean Renoir

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São Paulo, Rio e Brasília exibem grandes obras de diretor luminoso e lírico, despido de grandiloquência mas infinitamente interessado no ser humano — concreto, imperfeito, contraditório

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

“Hitchcock não ama senão o cinema; Renoir ama o cinema e a vida”. Assim François Truffaut distinguia os dois cineastas que mais admirava. Essa definição arguta (e talvez um tanto injusta com Hitchcock) ajuda a entender o encanto perene do cinema de Jean Renoir (1894-1979) e, ao mesmo tempo, destaca aquilo que perpassa e unifica sua vasta filmografia: o infinito interesse pelos indivíduos concretos, imperfeitos, contraditórios, mais do que pelas ideias abstratas, enredos dramáticos ou grandes construções estéticas.

Essa obra única e essencial está quase completa na grande retrospectiva A vida lá fora: o cinema de Jean Renoir, em cartaz até 27 de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. A partir de 15 de fevereiro, a mostra segue também para Brasília, e de 1º a 27 de março estará no Rio de Janeiro. São nada menos que trinta longas-metragens do diretor, além de dois documentários a seu respeito.

Fase áurea

Do cinema mudo ao início dos anos 1960, Renoir atravessou diversas fases, incluindo o exílio em Hollywood durante a Segunda Guerra e a volta à Europa a partir de 1950. Ao longo desse tempo todo, não fez um único filme ruim, fraco ou desinteressante, mas seu apogeu, sem a menor dúvida, deu-se na década de 1930, em que, como quem não quer nada, encadeou filmes memoráveis como A cadela, Boudu salvo das águas, Madame Bovary, Toni, Bas-fond, A Marselhesa, A besta humana, sem falar dos pontos culminantes que são A grande ilusão (1937) e A regra do jogo (1939), frequentemente citados nas listas de melhores de todos os tempos.

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O que chama a atenção nessa fase luminosa é a sem-cerimônia com que Renoir aborda seus temas, bem como o calor humano com que se aproxima de seus personagens. Seja tratando de um grande assunto histórico, como a Revolução Francesa (em A Marselhesa), seja retratando as peripécias cotidianas de um sem-teto (em Boudu), seu olhar está sempre voltado para o detalhe terreno, fugaz, por vezes banal, que no entanto revela muito das contradições sociais e da moral embutida em cada gesto ou palavra.

Um exemplo singelo: em A Marselhesa, uma conversa descontraída sobre a recente introdução da batata na dieta urbana francesa é tão importante quanto o combate contra as forças monarquistas que tentavam barrar a Revolução. A ausência de grandiloquência e solenidade de sua poética e de seu lirismo permite que Renoir, no espaço de um ano, empreenda com a mesma desenvoltura a adaptação de um romance clássico (Madame Bovary, 1934) e uma crônica realista dos amores e percalços de trabalhadores rurais e imigrantes pobres no sul da França, em Toni (1935), tido como precursor do neorrealismo italiano que surgiria dez anos depois.

Se em A grande ilusão, ambientado na Primeira Guerra (da qual Renoir participou como aviador), realçam-se os laços horizontais de classe e extração social que atravessam as fronteiras nacionais, em A regra do jogo todo o teatro da sociedade se concentra num único fim de semana numa casa de campo em que um grupo de aristocratas e burgueses se reúne para caçar, festejar, flertar, sob os olhos de uma criadagem vívida e heterogênea. A fluidez das múltiplas ações simultâneas dá uma impressão de espontaneidade e improviso que levou Truffaut a dizer que tinha vontade de voltar ao cinema todas as noites para verificar se as coisas aconteceriam do mesmo jeito ou seriam diferentes.

Frescor inimitável

Uma prova indireta da vitalidade intransferível de Renoir são os remakes de suas obras por outros diretores. Mesmo quando são ótimas realizações de cineastas extraordinários, como Fritz Lang (que refilmou A cadela como Almas perversas e A besta humana como Desejo Humano ) ou Robert Altman (que transformou A regra do jogo em Assassinato em Gosford Park), estamos longe do frescor do original.

O próprio Renoir, ao emigrar para Hollywood nos anos 1940, ganhou em rigor e precisão, mas perdeu um tanto da sua leveza. Retomou seu brilho ao voltar à Europa, realizando dois filmes maduros e exuberantes que sintetizam sua paixão pelo espetáculo, em sua vertente mais popular: A carruagem de ouro (1952) e French can can (1955).

Filho de um dos grandes artistas do século XIX (o pintor impressionista Auguste Renoir), Jean Renoir foi sem dúvida um dos maiores do século XX. Buscava com sua arte “expressar a humanidade comum a todos os homens”, como lembrou Ingmar Bergman ao receber em seu nome um Oscar honorário em 1975. É isso, nada mais nada menos, que esses trinta filmes têm a nos mostrar. Aqui, em francês com legendas em inglês, o cineasta fala sobre sua arte, com o despojamento e a paixão que o caracterizam:

Direitos civis e Guerra Fria

Descendo vários degraus na escala de grandeza do cinema, notemos que, curiosamente, estão entrando em cartaz dois filmes norte-americanos ambientados no mesmo período: início da década de 1960, anos Kennedy, auge da Guerra Fria e da luta pelos direitos civis.

Um deles, Jackie, realizado pelo chileno Pablo Larraín (de No, O clube e Neruda), é uma cinebiografia da primeira-dama Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), concentrada nos dias em torno do assassinato do então presidente dos EUA. Não há muito o que dizer a respeito desse filme que concorre aos Oscars de atriz, figurino e música. Se a ideia era desglamorizar a personagem, acabou-se por deixá-la exangue, maquinal como um manequim. Se a intenção era problematizar seu papel histórico, ficou-se na superfície. O resultado consegue a proeza de ser ao mesmo tempo melodramático e frio no tom, e travado e frouxo na construção narrativa. É o tipo da obra que nos faz pensar que um bom documentário ou especial de televisão seria mais efetivo. A única imagem criativa e relevante do filme, a meu ver, talvez seja a que abre este trailer:

Bem mais original é o ponto de partida de Estrelas além do tempo (infeliz título brasileiro de Hidden figures), de Theodore Melfi: a história de três matemáticas negras, Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe). A julgar pelo filme e pelo livro de Margot Lee Shetterly em que se baseou, as três tiveram papel decisivo no programa espacial norte-americano, ajudando a colocar em órbita o astronauta John Glenn.

Há aqui, para começar, o entrelaçamento de dois temas eletrizantes: a corrida espacial entre EUA e União Soviética no contexto da Guerra Fria e a luta pelos direitos civis, bifurcada em combate à segregação racial e luta pela emancipação social e profissional da mulher. Uma receita politicamente correta que ganha especial relevância no momento atual, em que um novo presidente com ideias direitistas e ultranacionalistas atiça velhos ódios raciais e ressentimentos misóginos.

O filme acontece naquela fronteira imprecisa entre o senso de oportunidade e o franco oportunismo, usando e abusando de clichês melodramáticos para sentimentalizar uma questão que é social e política. Mas o assunto é de tal modo interessante, as atrizes de tal modo encantadoras, que a sessão acaba transcorrendo de modo indolor e, ocasionalmente, com prazer, graças também a pérolas da música negra na trilha sonora (Ray Charles, Miles Davis, Ruth Brown, Pharrell Williams).

Em tempo: Estrelas além do tempo concorre aos Oscars de filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante (Octavia Spencer).

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.