Um certo Benjamin da Amazônia

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Em vilarejo inchado por obra do PAC, floresce comércio do sexo. Alguns bordeis abrigam meninos. Um deles, cheio de palavras

Crônica de Ana Aranha, no blog 3por4 | Imagem Di Cavalcanti, Baile Popular

Outras Palavras anuncia uma nova coluna, 3por4, escrita por Ana Aranha, e já publicada em blog hospedado no Yahoo. Jornalista há alguns anos, Ana busca, na coluna, contar histórias de gentes. “Gente que vale uma reportagem inteira, um livro, um filme. Mas, por motivos que nos escapam, nem sempre ganham o mundo”, ela escreveu na estreia, em março. Começaremos resgatando seus textos que permanecem vivos, ao mesmo tempo republicaremos os mais frescos que aparecem no blog. Bom saboreio. (B.B.)

Aos 12 anos, Benjamin* mora em um bordel, um dos muitos que fervem a noite de uma vila, na Amazônia brasileira. Desde os cinco anos, quando sua mãe lhe deixou aos cuidados da tia cafetina, ele convive com cenas e sons da vida adulta. As mulheres de vestidos curtos, a cerveja em fartura e a música no último volume inebriam os clientes, que não notam o menino no fundo do bar, olhos colados na TV.

Na companhia de um papagaio e de um cachorrinho (desses bem miúdos), Benjamin devora qualquer pedaço de ficção que alcança pela TV aberta. Assim alimenta o desejo de conhecer lugares e viver experiências distantes da sua realidade. Como, por exemplo, ir ao cinema.

Magro, pele morena, olhos levemente puxados, como são no Norte do país. É um menino cheio de palavras. Conta da matéria que assistiu sobre um grupo de cinema itinerante na Amazônia: “Eu vi no jornal que eles vão de barco nas comunidades, passam as histórias das pessoas naquela tela bem grande. Será que um dia eles vêm aqui?”.

De todos os filmes que ele já assistiu na tela pequena, um mexeu com a sua imaginação de um jeito diferente. “Meu preferido é o Benjamin Button. Muito legal nascer velho e depois virar criança”. A saga interpretada por Brad Pitt no filme O Curioso Caso de Benjamin Button, baseado no livro de mesmo nome de F. Scott Fitzgerald, despertou a curiosidade de milhões de espectadores, atraídos pela fantasia da trajetória de vida invertida.

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Mas, para o pequeno Benjamin, a ficção não é tão distante da realidade de sua infância. Ele também cresceu em uma casa habitada pelos temas da vida adulta, onde não havia muito espaço para ser criança. Entusiasmado, o menino conta como gostaria de entrar por inteiro na pele do personagem. Teria apenas uma adaptação: “queria crescer mais um pouco, até os 20 anos, para viajar o mundo. Depois virava criança”.

Pergunto por que ele gostaria de viver esse futuro invertido. Seria uma busca pelas brincadeiras e cuidados que nunca teve? Mas o sonho do menino também é adulto. “Queria voltar aos cinco anos pra ajudar minha mãe, pra ela não ter que ir embora”.

Quando a conversa envereda pela vida real, as palavras somem. Benjamin fica monossilábico. Sim, tem saudades. Não, não sabe onde ela está. Sua cabeça e ombros parecem pesados, miram o chão. A dor é tanta que não é mais possível fazer perguntas. Ele pede licença. Está cansado pois acordou às 6 da manhã para limpar o bar, pelo qual fica responsável até o meio dia, tempo do descanso da tia.

No momento em que ele se afasta, o fotógrafo Marcelo Min e eu ficamos paralisados por longos segundos. O que se pode fazer ao ouvir uma história assim?

Nosso encontro com Benjamin se deu no início do ano, quando colhíamos informações sobre a revolução no modo de vida daquela comunidade desde que, a poucos quilômetros dali, teve início uma das maiores obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Antes uma vila de pescadores, o lugar recebeu milhares de trabalhadores da construção civil. No horário de folga, e longe de suas cidades de origem, eles querem se divertir, extravasar a pressão do canteiro de obras. Como a cidade mais próxima fica a cerca de 100 km, a pequena vila explodiu.

Dezenas de bares e bordéis se multiplicaram pelas ruas de terra. Antes de anoitecer, a vila já está tomada pelo som do brega e alguns hits americanos, como Backstreet Boys e Whitney Houston. Sempre no volume máximo. Mulheres de várias origens dançam na frente dos bares. Há morenas, loiras, indígenas, bolivianas. As donas dos bordeis ficam atrás do balcão. Elas cobram 20 reais por cada meia hora nos quartinhos dos fundos e obrigam as funcionárias a beberem para acompanhar os clientes. As garrafas de cerveja logo cobrem as mesas de plástico e, não demora, começam as brigas. É difícil uma noite sem histórias de murros e facadas.

Benjamin não é o único “menor de idade” circulando entre garrafas e micro-saias. Diversas crianças locais convivem com as mudanças. Algumas, fruto do novo mercado do sexo, nasceram dentro dos bordéis.

Depois de ouvir sua história, nos perguntamos qual seria o efeito da publicação dentro daquela reportagem. E se as autoridades resolvessem tomar providências? Tirá-lo do lugar onde ainda há esperança de reencontrar a mãe. Punir e afastá-lo das únicas pessoas com quem têm laços. E as outras crianças, dos bordéis vizinhos?

A decisão foi não publicar, não naquele contexto. Mas a história voltou comigo para casa e, de vez em quando, me fisgava a necessidade de contá-la. Lançar o retrato de Benjamin ao mundo, ou ao menos a quem queira conhecê-lo nos limites da tela do computador.

Por isso, ele é a estreia desse blog. Aqui pretendo contar as histórias de gente que vale uma reportagem inteira, um livro, um filme. Mas, por motivos que nos escapam, nem sempre ganham o mundo.


* Nome fictício

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Ana Aranha é repórter apaixonada pelo ofício de contar histórias. Trabalhou na revista "Época", na agência "Pública" e colaborou para diversos veículos, como o jornal inglês "The Guardian". Tem 11 prêmios de jornalismo. Para o blog do Yahoo, de onde republicamos para esta coluna, conta as histórias de quem vive o cotidiano da notícia, mas nem sempre ganha as páginas dos jornais.

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