Tatuagem, revolução dionisíaca

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Intenso, debochado e amoroso, filme de Hilton Lacerda expõe tensão desejo-autoridade. Trama, dos anos 70, é violentamente atual, no país dos Felicianos

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

O primeiro plano mostra o colorido e brilhoso cenário do cabaré Chão de Estrelas, definido por uma voz em off como “o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela”, que “faz tremer toda forma de autoridade”. Corta para um rapaz de camiseta regata sentado numa cama. A imagem se abre lentamente, mostrando as barras do beliche como se fossem as de uma prisão. Ele está, logo entendemos, num quartel, entre outros recrutas que prestam serviço militar.

Estamos em Recife, em 1978. É na oposição entre o cabaré e o quartel, entre a anarquia e a ordem, o desejo e a autoridade, que Tatuagem definirá a sua retórica e a sua estética. O amor entre o recruta Arlindo, vulgo Fininha (Jesuíta Barbosa), e o líder do Chão de Estrelas, Clécio (Irandhir Santos), conduzirá essa tripla tensão: afetiva, política, espacial.

Impossível ver Tatuagem e não lembrar imediatamente de outro filme recifense recente, A febre do rato, de Claudio Assis. Ambos focalizam comunidades libertárias à margem – e a contrapelo – da sociedade estabelecida, cada uma delas liderada por um artista visionário, encarnado nos dois casos por Irandhir Santos. E, claro, ambos foram roteirizados por Hilton Lacerda.

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Mas as diferenças entre as duas obras são muitas e não se limitam à fotografia (o preto e branco de Febre em contraste com o colorido exuberante de Tatuagem), nem ao fato de uma delas se passar nos dias de hoje e a outra em 1978. A disparidade é sobretudo de tom, ou antes, de sentimento.

Deboche e amor

Se o filme de Claudio Assis é um manifesto furioso, em que o desafio à autoridade assume a forma da provocação agressiva, em Tatuagem a arma preferencial é o deboche, e o sentimento predominante é o amor, sob suas variadas formas: erótico, fraterno, familiar.

No centro de tudo está o inesperado romance entre o recruta e o artista (além de diretor do Chão de Estrelas, Clécio é ator, cantor, dançarino e coreógrafo). Duas sequências quase contíguas revelam com extrema sensibilidade o surgimento desse amor louco. A primeira é um plano sem cortes de Clécio cantando Esse cara, de Caetano Veloso, numa panorâmica que termina exatamente no final da música e flagra Fininha, de meio perfil, totalmente desconcertado. Pouco depois, Clécio põe na vitrola um disco de Dolores Duran e dança com o recruta ao som de A noite do meu bem. “Nunca dancei assim com um homem antes”, diz Fininha. “E eu nunca dancei assim com um soldado”, responde Clécio, numa estratégia recorrente do roteiro, que é a de temperar com humor os momentos mais sentimentais, e vice-versa. Só essas duas sequências já valeriam o filme.

Mas há muito mais. Há as cenas de sexo ao mesmo tempo delicadas e cruas – tão raras no cinema de hoje, no Brasil e no mundo –; há as breves e epifânicas inserções de imagens domésticas em super-8 (e do “filme dentro do filme” feito por um poeta do grupo); há a modulação sutil das arestas produzidas em cada uma das relações entre os personagens; há a figura encantadora do filho de Clécio e Deusa (Sylvia Prado), o menino Tuca (Deyvid Queiroz de Morais), encarnação da liberdade e da alegria de viver; há, além da atuação extraordinária dos dois protagonistas, a notável presença de Rodrigo Garcia como a esfuziante Paulete; há, por fim, a trilha sonora do DJ Dolores, que vai de Puccini ao cantor brega Johnny Hooker, passando por Dalva de Oliveira.

Pintura rupestre do futuro

Tudo isso sem perder de vista a caracterização do Chão de Estrelas como uma ilha de liberdade em meio a um contexto repressivo, um oásis regido pelo princípio do prazer, um lugar de produção de cultura a partir da precariedade dos meios e da ousadia das ideias. Cada cena condensa em si toda uma concepção de sociedade, de cultura e de relações humanas, em que o afeto é um agente químico que atravessa as classes, os gêneros e as gerações. Uma afirmação de utopia resumida na frase do poeta-cineasta Joubert (Silvio Restiffe): “Aqui começamos a fazer a pintura rupestre de um novo tempo”.

Quase quarenta anos depois, essa promessa dionisíaca ainda não se cumpriu. Por isso mesmo, no país dos Felicianos e Bolsonaros, Tatuagem é um filme violentamente atual.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.