Sobre trabalho, anti-emprego e janja

170221-Lazer

“A janja não tem regras, nem hora pra acabar. Os únicos preceitos são o deleite e a fluidez. Uma joia por vezes disponível apenas porque falta trabalho e dinheiro entre uma atividade e outra”

Se existe um preço a ser pago, nessa maravilhosa vida mais livre, é a inconstância financeira. É aí que a “janja” entra em ação, como tática de sobrevivência da alma

Crônica de Maria Bitarello | Imagem: Christoph RuckhäberleRefeição ao ar livre (2013)

Outro dia fui ouvir uma fala do escritor, crítico e professor da Unicamp, Eduardo Sterzi, na livraria/biblioteca/espaço cultural Tapera Taperá, na Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, sobre antropofagia e o modus vivendi ameríndio a partir de fotografias do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. E me saltou aos ouvidos quando ele disse que na cultura indígena o descanso e a atividade se misturam. Um índio molda seu arco ou cuida do fogo deitado na rede. Ele descansa o corpo, embora esteja propriamente ocupado com uma tarefa. Me identifiquei na hora. Tenho como posição favorita pra escrever aquela em que deito na cama, coloco uma pilha travesseiros sob a cabeça e descanso o computador em cima da barriga. Delícia. E sou muito produtiva nessa posição aparentemente anti-anatômica pra escrita. A escrita que é uma atividade, um trabalho.

E trabalho não é emprego. Cada um trabalha de um jeito, cada qual com seu ritmo interno, suas manias, e cada tipo de atividade segue uma toada. Pra se ensaiar, por exemplo, é bom ir de encontro ao cansaço, ser atravessada por ele e permanecer ali, insistente, porque ele desarma o superego e abre avenidas pra criação. Já pra tradução e pra escrita, as pausas são respiros essenciais. Enquanto se vai regar a planta já encharcada que não precisa de mais água – mas fazer o que, cada um procrastina à sua maneira –, surge uma palavra mágica e brilhante, logo acima da sua cabeça. É só agarrá-la e colá-la na página. E, com a soma desses intervalos, a casa vai ficando limpa, contas são pagas, almoços preparados, roupas lavadas. E a mente recebendo novos estalos. Eu acho maravilhoso trabalhar dessa forma que me parece vital aos artistas. Mas suspeito que todo mundo seria mais feliz assim. É mais orgânico e, aparentemente, vem de nossa ancestralidade ameríndia. Não há pressa, mas também não há tempo perdido.

Emprego é outra coisa. Uma jornada construída, imposta e reproduzida praticamente pra todas as profissões. A hora é certa e demarcada, com ponto batido; isolada do resto da vida. É exatamente o contrário do que Sterzi mostrou sobre os ameríndios. E também desse trabalho que não é job, onde tudo se mistura. Nessa espécie de linha de produção nada fordista, as horas de produtividade seguem outra lógica. Você pode render melhor de manhã ou de madrugada, sentada ou deitada, em silêncio ou no barulho, vestida ou pelada. Lógica essa em que o dito ócio é fundamental e, no meu caso, nem mesmo questionado. É sagrado. Artistas, intelectuais, artesãos seguem essa batida. Você pode até criar por horas a fio, mas não se bate ponto. Certos dias serão dedicados à leitura, ao devaneio, ao passeio, à possibilidade da visita surpreendente e sempre bem-vinda de um insight. Pra isso, é preciso saber parar, resistir à tentação da ética protestante e do espírito do capitalismo. Fazer nada não é inação.

TEXTO-MEIO

Minha palavra favorita do dicionário pernambuquês é a janja. Não sei o quão difundida essa expressão é, de fato, em Pernambuco, mas foi a colônia pernambucana e artística de São Paulo que me passou seus mistérios e delícias. A janja, substantivo, tem também sua consorte verbal, janjar. E janjar é fazer nada. É um hedonismo sobre o qual os mineiros parecem já ter nascido sabidos. Duas ou mais pessoas que dominem esse o(fí)cio podem fazê-lo em dupla, em grupo. E quando se topa, é vital que se entre nessa de coração e tempo aberto. A janja não tem regras, nem hora pra acabar. Os únicos preceitos são o deleite e a fluidez. Uma joia por vezes disponível apenas porque falta trabalho e dinheiro entre uma atividade e outra. E como a janja não tem custos, só há benefícios a se colher. Janja-se em qualquer parte, a qualquer hora. Pijamas são bem-vindos, cochilos também. Cafés com bolo no meio da tarde. Filmes vistos em sequência madrugada adentro. Trechos de livros lidos e largados. Dias que viram noites que viram dias que viram noites. Nascem músicas, florescem amizades e amores. É simples, mas não banal.

Segundo um amigo escritor, o mundo é movido por preguiçosos: somos nós, ele diz, que encontramos atalhos pras tarefas, criamos estratagemas pra acabarmos uma atividade e irmos de encontro à janja. Saber que ela te aguarda ao fim daquele trabalho, daquele texto, daquela temporada é o elixir que te mantém potente. A janja pode ser só um diazinho aí no meio, uma tarde. Mas sem o domínio dessa arte milenar, não se transforma esse hiato laboral em deleite. As horas se perdem; ou pior, ocupa-se todas elas com outras atividades: a tirania da utilitarização das horas livres. Que canseira.

Num país que vê seus índios como indolentes e artistas como vagabundos, é preciso voltar-se justamente pra eles pra se reaprender a parar e simplesmente estar. Nem um nem o outro se desligam completamente de suas atividades – não há essa separação. Na fala do Sterzi, ele lembra que numa aldeia todos têm muito o que fazer, a vida não para, não se pode parar. Aqui, na selva paulistana, os artistas também trabalham sem cessar – lembre-se, trabalho não é emprego. Ou se está obcecada com o trabalho do momento; ou ansiosa nos intervalos entre eles; ou inventando outros porque não há dinheiro. Porque se existe um preço a ser pago nessa maravilhosa vida mais livre é a inconstância financeira. E é aí que a janja entra em ação, como tática de sobrevivência da alma.

Em momentos de dúvida, procuro me lembrar do que diz o mitólogo Joseph Campbell: “Siga a sua alegria, e o mundo abrirá portas para você onde antes só havia paredes (…) Quando nos deixamos guiar pela alegria, nos posicionamos num tipo de caminho que sempre esteve ali, à nossa espera, e vivemos exatamente a vida que deveríamos estar vivendo.” Quando a fé começa a vacilar, não se desespere. O melhor é deitar na rede e ler “Macunaíma”, do Mário de Andrade. Porque brincar é coisa séria.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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