Ser ou não ser da fotografia

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O escritor francês George Bataille foi influenciado pela fotografia e pelo poder da imagem em retratar a dor dos outros

Por Luciana Cavalcanti, do Fotograficaminhamente

Ontem me vieram à cabeça duas perguntas, após uma semana repleta de discussões instigantes e leituras pertinentes à história, sociologia e antropologia — estas áreas relacionadas à fotografia. Também após encontrar bons — às vezes inúteis, felizes ou infelizes — comentários sobre a fotografia e seu uso como instrumento de ego e não de pacificação e discussão construtiva das ideias.

Para muitos, a fotografia pode ser registro do real, obra de arte, instrumento de pesquisa, recorte de um plano, de uma ideia, testemunho, objeto de fazer e fixar memória, inspiradora de conceitos, de imaginação, de contação de histórias etc. O leitor, mais que do que eu, pode atribuir várias afirmações a respeito da fotografia, sobre o que ela é.

O uso da fotografia, porém, é um fetiche — e disso não se pode escapar. Ela pode mudar comportamentos ou inspirar uma transição de pensamento importante na história de uma época ou de um grupo. Seguindo esta premissa, descubro que uma das maiores provas da motivação pela imagem fotográfica foi o escritor francês George Bataille.

A relação de Bataille com o bizarro, com o voyeur, com o inusitado, com o fetiche (e tudo isso embutido no seu pensamento sobre corpo, vida, morte, sexo e erotismo) é recorrente em sua obra. Bataille foi arquivista da Biblioteca Nacional da França. Inspirado pelo seu terapeuta, resolveu dedicar-se à temática das extravagâncias sexuais e pelo êxtase, a fim de exorcizar — segundo afirma a literatura — seus tormentos psíquicos.

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Mas o que me chamou mais a atenção sobre a inspiração de Bataille foi o artigo “George Bataille: Imagens do Êxtase”, escrito pelo filósofo Luiz Augusto Contador Borges e publicado pela revista Agulha em 2001. Contador afirma a influência enorme no início da vida profissional de Bataille por um conjunto de fotografias realizadas durante um ato de esquartejamento na China Imperial, em 1905. A vítima era o suposto assassino de um príncipe.

Na execução do chinês Fou Tchou Li e seu Suplício dos Cem Pedaços, o sorriso visto em seu rosto é absurdamente intrigante. Ao documentar o ato visto por tantos espectadores, o psicólogo francês George Dumas fica atordoado com o acusado impávido diante do corte de seu próprio corpo e do prolongamento de sua condição de estar entre a vida e a morte, sendo tratado sadicamente por seus algozes.

Dois franceses assistiram à execução e a documentaram. Um deles, Georges Dumas, publicou uma das fotos em 1923, em seu “Tratado de Psicologia”. Dumas intrigara Bataille observando que, por piores que fossem o meticuloso trabalho do carrasco e as dores da vítima, o que se via em seus olhos revoltos era uma expressão de êxtase. É bem verdade que o supliciado encontrava-se sob efeito de injeções de ópio, não para mitigar seu sofrimento, como se poderia supor, mas para prolongá-lo ainda mais. O enigma estava criado

Bataille ganhou algumas desssas fotos e só foi divulgá-las um ano antes de sua morte, em 1962. Segundo novas descobertas e estudos, estas fotografias influenciaram demasiadamente sua obra, sempre permeada pelo êxtase e pelo questionamento do mundo ocidental, sob uma perspectiva ativista do pensamento de esquerda e à margem da sociedade. Sua literatura foi muitas vezes considerada “suja” pelo meio acadêmico. Felizmente, redescobrem Bataille. E quantos olhos ele tem!

Como tem-se visto muitas vezes na construção teórica de muitos pensadores sociais, literatos, antropólogos e historiadores, a imagem fotográfica tem sido crucial formadora — instrumental e motivacional — do pensamento de muitos intelectuais.

Segundo Luiz Augusto Contador Borges, Bataille diz: “É preciso ser Deus para morrer”. Ao se fazer um “recorte” do que vemos, ao contar uma história ou interpretarmos algo ou ainda criarmos um cenário por meio da fotografia, nosso fetiche diante das coisas do mundo pode ser facilmente considerado como um ato de morte, mas também, como contraponto e ou complemento, de glória. É uma transição entre o fálico, o atirar, o matar e o prazer de ver aquele momento, aquela situação, recortada, reelaborada.

Era necessário para Dumas documentar o esquartejamento? Um ato de prazer e de revolta ao ver alguém com tanta dor sorrir? Mesmo com fins psicanalísicos, a expressão desafiadora do chinês chocou e parece ter instigado uma “necessidade” de documentação por parte de Dumas. Mas estas foram muito diferentes das imagens veiculadas hoje em dia em jornais e na TV? E este prazer na dor dos outros, de que já dizia Susan Sontag e Roland Barthes?

Que ato fotográfico é este que suscita tantas formas e tantos outros atos subsequentes e comportamentais?

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Luciana Cavalcanti

Jornalista e fotógrafa independente, atualmente mestranda no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Faz parte do Coletivo Paralaxis de Fotografia. É pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Imagem e Memória coordenado pelo prof. Boris Kossoy na USP. Foi bolsista na Colômbia e na Bolívia pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano. Participou de doze exposições coletivas na América Latina e dos livros de fotografia "O Brasil passa pelo SESC" e "1971-2011 - São Paulo". Escreve sobre fotografia para o blog pessoal http://fotograficaminhamente.wordpress.com.