São Paulo: a cor da liberdade

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Foi uma vitória histórica do “sim” sobre o “não”, mostrando com quantos milhões de nãos se faz um (primeiro) sim

Por Pedro Alexandre Sanches – Farafofafá, do Coletivo DAR – Desentorpecendo a Razão

Alguns comentários mais ou menos soltos sobre a Marcha da Liberdade de 28 de maio de 2011.

* São Paulo ontem se inscreveu na vanguarda mundial, essa esquisita São Paulo que é ao mesmo tempo tão retrógrada e reacionária e tão progressista e surpreendente.

* As flores trouxeram São Paulo para a vanguarda mundial ontem. A turma seguiu à risca o espírito da coisa, e a raiva foi deixada em casa. E no lugar da raiva vieram as flores, para dizer que falamos de flores. O poder desarmador das flores é impressionante (ou foi, ontem).

* São Paulo, esquisita São Paulo, esta cidade cumpriu e descumpriu a lei ao mesmo tempo – por iniciativa das próprias autoridades.

* Na noite de anteontem, um juiz da comarca paulista declarou proibida a Marcha pela Liberdade (perceba o tamanho do tiro no pé desse desastrado juiz: tentar proibir a LIBERDADE).

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* Na manhã de ontem, o governador (irado, segundo testemunhos próximos) mandou suas polícias deixarem a banda sair.

* O resultado da esquisitíssima equação: estávamos proibidos, e proibidos marchamos, com o consentimento do governador, a desaprovação do juiz e a proteção dos comandos de polícia que talvez quisessem nos bater mais uma vez, mas tinham de obedecer o governador (e desobedecer o juiz), percebeu? É, é difícil entender.

* A coreografia (mal) ensaiada pelos poderes estaduais é difícil, quase impossível de entender. Mas mostra didaticamente como a lei e a “lei” e as leis e as “leis” são relativas. Basta eles quererem, e pronto. Ou basta nós querermos (mas querermos de verdade, senão não vai).

* Não há coincidência no fato de os versos “viva!, viva!, viva a Sociedade Alternativa”, do rock 1974 da dupla Raul Seixas-Paulo Coelho, terem sido tantas vezes repetidos no formato de palavras-de-ordem. Há outros versos nessa canção, que não foram repetidos, mas dizem assim: “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei”.

* A tensão causada pelo conflito entre polícia e passeantes foi forte, pesado, denso como gás (de cozinha, talvez). Se alguém riscasse um fósforo, talvez o fogaréu que queima as florestas se espalhasse.

O amor é punk

* Ninguém riscou um fósforo, porque NÃO era tudo da lei nessa tarde fria. Nem ninguém ali fez TUDO que queria. Mas todo mundo fez um punhado de coisas, no balé tipo cisne negro/cisne branco entre permissão & proibição. Quem provocou o balé foram os desastrados poderes estaduais mal ensaiados.

* Obcecadas em demonstrar autoridade, as polícias confinaram, cercaram e delimitaram a polícia. Falam em 5.000 passeantes, 250 policiais – parecia muito mais, tanto num caso como no outro. Por volta das 16h, quando a passeata começou a se arrastar que nem cobra pelo chão, eu estava do outro lado da avenida e vi passarem em fila uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, OITO viaturas da Polícia Civil para nos espreitarem por trás. Vi oito, eram mais.

* Obcecadas em demonstrar autoridade, as polícias não permitiram que o tráfego na avenida Paulista e na rua da Consolação parasse, em nenhum sentido. Resultado: a passeata que seria uma taturana gorda e peluda tomando toda a rua se esticou e se transformou numa minhoca lisa, fininha e muuuuuuuuuuuuuuito comprida. Emocionantemente comprida.

* Uma semana antes, a marcha d(o pedido da legalização d)a maconha tinha virado uma dantesca corrida de obstáculos misturada com tiro ao álvaro, com a tropa de choque no papel “glorioso” de obstáculo e os passeantes fazendo a vez trágica de alvos móveis.

* Ontem, no rastro de obsessões policiais e de temores civis (sim, estávamos com MUITO medo, agora já dá para falar), a passeata andou devagar, muito devagar, devagaríssima. Uma devagareata. Com isso, demorou muito mais tempo vencer os quarteirões, e teve tempo de receber muito mais gente, do que se os poderes repressivos tivessem nos deixado mais, uhn, soltos.

* Trocando em miúdos: as polícias, depois do juiz desastrado e truculento, inflaram, nutriram e deram combustível à manifestação. Ao afirmar que nossa liberdade estava interditada (como se já não estivesse, sempre e sempre), as autoridades antipasseata, antimaconha, antiliberdade ou anti-o-que-quer-que-seja nos deram tudo de que precisamos para crescer. Ninguém que estava ontem nas ruas duvida de que vamos crescer, muito.

Se todas as causas são uma, a passeata é uma só, e a mulher é o negro
é o homossexual é o vegetariano é o pacifista é o ecologista
é a puta é a o altermundista é a sociedade alternativa etc. etc. etc.

* E, nossa, foram TANTAS as causas colocadas na rua: GLBT & anti-homofobia; feminista & pró-aborto; vegan & vegetariana (“proíbam o bacon”); anti-Código Florestal & pró-floresta; políticas & partidárias; preço exorbitante dos ônibus kassabalinos; anti-racistas (poucas, infelizmente); anti-”Folha de S.Paulo” & pró-”fAlha de S.Paulo”; anti-sistema bancário; anti-repressão sexual; contra a ditadura da chapinha… Etc. etc. etc.

* A riqueza e a pluralidade das causas entregam de bandeja: a multidão já entende que a misoginia é a homofobia é o racismo é o desmatamento é a imprensa-sem-liberdade é a repressão sexual etc. etc. etc. E que, se todas as causas são uma, a passeata é uma só, e a mulher é o negro é o homossexual é o vegetariano é o pacifista é o ecologista é a puta é a o altermundista é a sociedade alternativa etc. etc. etc.

* Como em várias manifestações recentes (anti-homofobia do Mackenzie, churrascão do metrô, a marcha abortada da maconha), a música não foi personagem principal. Nem a maconha, nem as drogas de modo geral, nem o álcool (vá lá, no churrasco a cerveja correu solta, e era toda comprada no Pão de Açúcar).

* A combinação entre repressão e necessidade de vigilância fez dessa marcha a mais consciente de si própria de que já participei – parece começar a ficar no passado o tempo de paradas de orgulho gay entorpecido & equivalentes. O coletivo que luta pela legalização da maconha chama-se DAR, de DESENTORPECEBNDO a RAZÃO. O tempo não para, que bom que ele não para.

* Mesmo em terceiro plano, a música foi protagonista de momentos formidáveis. Não sei se era uma ou se eram várias, mas o som de batucada ganhava o céu e o chão em vários momentos. E era incrível, um mix festivo, celebratório, de samba, axé e maracatu – peço licença à nação indie que não gosta de raciocinar em português, mas participar de uma manifestação POLITICOFESTIVA em que os sons são samba, axé e maracatu é maravilhoso.

* Quando ainda estávamos concentrados no Masp, essa mesma batucada, unida a um grito de guerra (ou melhor, de paz) puxado na hora pela multidão remetia intensamente a um ritual indígena, um quarup, uma pajelança. Antes que os homens aqui pisassem nas ricas e férteis terras brasilis que eram povoadas e amadas por milhões de índios, reais donos felizes da terra do pau-brasil pois todo dia toda hora era dia de índio.

 

* No Brasil, todo dia é dia de índio.

* O som do silêncio também ganhava o céu em diversos momentos, e isso era de arrepiar. Não é todo dia que acontece passeata na qual se pode ouvir o som da respiração dos marchadores (e) soldados (des)armados, amados ou não.

* Se um policial jogasse um espirro de gás risonho nos olhos de um adolescente, seria imediatamente ouvido (e vaiado). A propósito, sempre que oficiais e viaturas ensaiaram a histeria das sirenes, traques de bomba e cenografias afins, receberam sonoras e gozosas vaias.

* Uma das manifestações mais engraçadas e divertidas era o desafio “quem não pula quer censura!”, que obrigava todo mundo a pular feito perereca. E, vou te contar, outro momento favorito, que pular no meio da rua é demais – além de me fazer rir por lembrar do sucesso pop hedonista da Sandy & Junior.

* Essa (des)ordem do pulo tem a ver com a geração que levava a passeata no bico, os muitos muito jovens que estavam entre nós (ou nós estávamos entre eles?), que em breve vão dizer sem vergonha, constrangimento culpa ou senso “estético” distorcido pela universidade que gostava da Sandy & Junior, de pagode, logo mais adiante de Restart. Ãhn, estranhou?, não pode? Mas, uai, não era marcha da LIBERDADE?

* Os passeantes tiveram lá suas provas de fogo, não só na corda bamba entre obedecer e desobedecer, entre desafiar e não entornar o caldo da sopa. Quando a cobra rumou no sentido do vale do Anhangabaú, a moçada começou a se encontrar com aquela categoria de cidadãos que costuma ficar ausente (ou – quase – invisível), em manifestações na Paulista e arredores: a população, aquela que forma fila no ponto de ônibus, sai do trabalho às 19h, entope os metrôs (não os de Higienópolis, que são invisíveis), se irrita com os malucos-beleza atrapalhadores de seu dia, toma com hostilidade várias das palavras-de-ordem do dia.

* Estou chutando, mas diria que a passeata começou a diminuir de tamanho mais ou menos por aí. Por favor, não me entenda pela direita, mas esse tipo de choque de realidade pode doer mais que bala de borracha.

* Quando a cobra ameaçou se esgueirar por República, Teatro Municipal, viaduto do Chá, vale do Anhangabaú, praça da Sé etc., meus melhores desejos vieram à tona: achei que íamos ocupar o centro HISTÓRICO de São Paulo!

* O rumo parecia ser mesmo esse, já que ficou mais frequente nesse trecho a palavra-de-ordem era “A Espanha é aqui!”. Me dava vontade de contestar: O BRASIL É AQUI! Não sabíamos nada de Espanha quando, em novembro do ano passado, tomamos ovos dos moradores da Maria Antônia, na passeata contra o monsenhor homofóbico TFP do Mackenzie.

* Mas não foi uma ocupação. A entrada no centro histórico era mesmo o começo do fim. Quando desaguamos na praça da República, vindos do calçadão da rua Barão de Itapetininga, tinha acontecido o milagre que as autoridas nos haviam negado a tarde inteira: o tráfego na rua da praça tinha sido bloqueado!, as autoridades que nos proibiram bloquearam a rua para nós nos refestelarmos!

* Como se quiséssemos copiar os desacertos das autoridades, esse foi o nosso momento de tiro no pé (nada grave, mas foi): quando a rua era finalmente NOSSA (nem que fosse por meros cinco minutos), a multidão se dispersou numa velocidade impressionante. Os rapazes que durante a passeata toda diziam ao megafone “vem pra rua, não fica na calçada” inverteram o faltante-alto e disseram o contrário: “não fica na rua, vem para a praça”.

* Não faz mal, não dormimos lá esta noite, mas tudo foi mais-que-quase-perfeito. No todo do balé, a maturidade e a sabedoria da multidão foram impressionante espetáculo, que humilhou em dobro quem na semana passada nos havia humilhado – e ao país, e ao planeta. A Marcha da LIBERDADE foi um lindo, lindíssimo, emocionante espetáculo espontâneo. Foi, acima de tudo, uma vitória histórica do “SIM” sobre o “não”, mostrando com quantos milhões de nãos se faz um (primeiro) SIM.

* Foi aí que acertou a mosca (na sopa) do tiro ao álvaro o cartaz mais maravilhoso que vi em toda a passeata, de ponta a ponta. Era uma pergunta, em citação direta a um verso de rock-samba-tropicália dos velhos Novos Baianos, “Baby Consuelo”, de 1970: “BABY CONSUELO, SIM, POR QUE NÃO”.

* Por que não? Respondemos que SIM.

 

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O Coletivo Desentorpecendo a Razão é um grupo aberto que discute as políticas de proibicionismo em relação às drogas. Seu objetivo é tornar público este debate e propor alternativas a essas políticas.