Por onde anda Marianne?

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Crônica meio indignada, meio romântica e otimista sobre as eleições francesas e as perspectivas do segundo turno

Por Marilza de Mello Foucher, correspondente em Paris

Marianne anda mancando, meio perdida pelas ruas de Paris. Ela não reconhece mais a Praça da Bastilha, tampouco a Praça da Republica. Ela anda em zig-zag pelas ruas fugindo de tudo que lhe parece estrangeiro. Cansada de perambular pelas ruas, ela faz uma pausa no Jardim de Luxemburgo, se senta num banco na frente do Senado… Seu olhar é vazio, incapaz de perceber a beleza das flores em plena primavera… Ela se encontra desamparada, as lágrimas rolam em seu belo rosto. Um clochard se aproxima e pergunta:

Como você se chama?

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Marianne.

Por que estás chorando?

Ela confessa: – Eu perdi a fraternidade.

Não estou entendendo…

Vou lhe explicar. Eu sou Marianne, a efígie da Republica francesa, o símbolo da pátria. Eu encarno os valores republicanos franceses contidos no lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.  Na época dos nobres, Marianne era um nome pejorativo: ela era a servente dos nobres. Eu sou a filha do povo, represento a mulher combativa, revolucionária que vai dar abrigo, alimentar e proteger a todos. Há anos, sofro ameaças, mas tenho conseguido resistir. Todavia, ontem fui ameaçada por um homem chamado Nicolas Sarkozy e uma mulher chamada Marine Le Pen. Eles dizem que eu corro o risco de perder minha liberdade, se continuar lutando por mais igualdade. Eles dizem que se continuar defendendo os direitos humanos, acolhendo os estrangeiros, colocarei em perigo os filhos da pátria.

clochard retira do seu casaco surrado uma garrafa de vinho e dá uma boa talagada, oferecendo um gole pra Marianne:

Por favor, agora que sei quem você é, eu não vou deixar ninguém mais te intimidar. Em maio, vou votar pela primeira vez na vida. Farei isto por você. Por você, símbolo da republica. Iremos juntos reanimar a fraternidade. Toda a França mestiça vai se mobilizar, todas as crianças dos bairros pobres, das zonas sinistradas das cidades, das zonas rurais abandonadas irão te desenhar, em cor de arco-íris, bem colorida como símbolo de tolerância. Tua bandeira azul, vermelha e branca será colocada em cada esquina. Nos muros escuros do abandono, as crianças pintarão de todas as cores a palavra esperança. E no domingo,  dia 6 de maio, gritaremos todos juntos: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Nosso grito será tão forte que derrubará todas as fronteiras, todos os muros, onde circularão judeus, muçulmanos, cristãos, budistas, hindus, ateus. De mãos dadas enfrentaremos Sarkozy e Marine, eles serão obrigados a cruzar seus olhares e vomitar o ódio que os levam a criar fantasmas sobre o perigo das diferenças. Marianne, teu nome será aclamado e teus direitos resgatados.          

Escrito em 22 de abril, depois do resultado de primeiro turno das eleições na França.

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