Perigo: cinema brasileiro

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Por José Geraldo Couto, editor do  Blog do Zé Geraldo

Escrever sobre filmes brasileiros é pisar em ovos.

O crítico que deseja tratar de modo franco e independente das produções nacionais enfrenta duas ordens de pressão: de um lado, da ditadura do sucesso; de outro, da chantagem do fracasso. Eu explico.

A ditadura do sucesso

Se o crítico desanca um êxito de bilheteria como Tropa de elite, Chico Xavier ou Bruna Surfistinha, é acusado de arrogância, preconceito contra o grande público ou, pior ainda, inveja e despeito.

Usa-se para isso, de modo distorcido e leviano, uma frase célebre de Tom Jobim: “No Brasil, o sucesso é ofensa”. No contexto, o compositor, se não me engano, estava se referindo a Pelé – e claramente pensando em si próprio -, mas desde então a frase tem sido usada para desqualificar qualquer crítica a “vencedores”, sejam eles Ronaldo ou Xuxa, Fernanda Montenegro ou Luciano Huck. O êxito nivela “pelo alto”, o único critério de avaliação passa a ser a bilheteria, a audiência, o índice de popularidade.

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Não preciso dizer o quanto essa lógica rebaixa o pensamento, embota a sensibilidade, empobrece o espírito.

Por acaso, escrevi sobre os três filmes citados acima, e posso dizer com segurança que procurei ver cada um deles em sua especificidade de proposta e realização, sem nenhum parti-pris. Isso não significa que as críticas sejam acertadas, mas que seus defeitos se devem a minhas parcas luzes, não a algum tipo de preconceito.

O problema é que os realizadores desses campeões de audiência querem o melhor de dois mundos: os milhões da bilheteria e o aplauso unânime da crítica. Querem que seus filmes sejam vistos como produtos altamente vendáveis e como obras de arte.  Nem sempre é possível.

A chantagem do fracasso

Entre os blockbusters da Globo Filmes e os pequenos filmes “de autor”, que mais ou menos se conformam com uma inserção modesta no mercado exibidor, há uma enorme gama de filmes nacionais que se rendem a todo tipo de concessão (aos temas do momento, às fórmulas narrativas pasteurizadas, à dramaturgia dominantes, aos elencos globais) em busca do público… e fracassam.

Sempre que um crítico aponta as fragilidades e inconsistências desses monstrengos, é acusado pelos produtores da obra – e muitas vezes por solidárias (corporativas?) vozes de outros membros da comunidade cinematográfica – de jogar contra o cinema brasileiro, de afastar o público dos filmes, de fazer o jogo das majors americanas.

Alguns produtores e diretores são mestres nesse tipo de intimidação da crítica. Cacá Diegues, por exemplo, depois de brandir durante décadas a expressão “patrulhas ideológicas”, agora acusa quem não gosta de seus filmes de não gostar do Brasil. Só isso.

Nem todos são assim, claro. Há posturas e posturas. Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, que quase sempre tentou dialogar com um público amplo, muitas vezes fracassou. Foi malhado como poucos – e sempre reagiu com serenidade e elegância, dizendo que o papel do crítico é fazer crítica. Como grande artista que é, Nelson sabe que sua atividade se nutre dessa troca de olhares e ideias, ainda que por momentos essa relação seja de atrito.

Não estou aqui defendendo a leviandade e a irresponsabilidade de quem escreve. Sei que há muitos que usam o espaço e o aval que a mídia lhes dá para destilar rancores, exercitar a vaidade, fazer gracinhas. Mas estou falando de gente adulta e séria.

Existe o cinema brasileiro?

Talvez o erro de origem, a fonte primordial das concepções corporativistas e autoritárias, seja a ideia de que existe uma entidade chamada “cinema brasileiro”.  Ora, o que há em comum entre um filme de Julio Bressane e Tropa de elite, entre Eduardo Coutinho e Se eu fosse você, entre De pernas pro ar e Beto Brant?

Já notaram que, em geral, quem profere de boca cheia, a torto e a direito, a expressão “cinema brasileiro” é quem defende as posições mais conservadoras, as situações de privilégio adquirido nas últimas quatro décadas? Se alguém pensou em Luiz Carlos Barreto e assemelhados, acertou.

Penso que talvez seja saudável, ou menos mistificador, falar em cinema feito no Brasil, ou mesmo filmes feitos no Brasil. E tentar encará-los com a mesma isenção e distanciamento com que encaramos um filme americano, argentino, italiano ou tailandês. Claro, desde logo, que isso é impossível, mas nada nos impede de tentar.

Para fechar este texto que já está ficando perigosamente longo, talvez seja o caso de voltar à célebre frase de Paulo Emilio Salles Gomes, sujeita a tantos mal-entendidos: “O pior filme brasileiro nos diz mais respeito que o melhor filme estrangeiro”.

A leitura mais pobre dessa fecunda formulação reduziu-a a uma patriotada: “O cinema brasileiro é melhor que o estrangeiro”. Ou “Nós é nós, o resto é bosta”, para usar a linguagem das ruas.

Ora, Paulo Emilio estava muito longe de ser um Policarpo Quaresma ou um tolo xenófobo. Sua formação era francesa, seu livro de maior repercussão foi um estudo sobre Jean Vigo. Isento de deslumbramento e de provincianismo, o que ele disse, de forma cristalina, é que qualquer filme brasileiro diz mais sobre nós mesmos, eventualmente até nas suas inépcias e insuficiências, do que um filme estrangeiro. Isso, em si, não é bom nem ruim. É um fato. O desafio, para os críticos, é levar isso em conta na hora de avaliar um filme, para não cair nem na complacência nem na virulência descabida.

José Geradl Couto é crítico de cinema e tradutor, foi durante anos colunista na Folha, escreve suas criticas hoje em seu próprio blog e na revista Carta Capital.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.