Para uma Amazônia verde

 

Por Ricardo Abramovay

Pecuária, soja, energia e minérios: esses são os vetores estratégicos que norteiam a maioria dos atores privados e públicos na Amazônia brasileira. Os efeitos são bem conhecidos. Não se criam cadeias produtivas capazes de agregar valor ao que se faz localmente. A esmagadora maioria dos estímulos sinaliza aos agentes econômicos vantagens de um comportamento predatório que já comprometeu nada menos que 15% da maior área de floresta tropical do mundo e que está na raiz de sua imensa pobreza. Apenas 12% dos domicílios na Amazônia são beneficiados por saneamento básico. O próprio poder público contribui de maneira significativa para esse quadro desolador, não só pelo financiamento de iniciativas pouco inovadoras, como a pecuária, mas também pela implantação de obras que acabam resultando em pressão ainda maior sobre a floresta e pela generalização do trabalho mal pago e pouco qualificado. Dos 73 milhões de hectares derrubados na Amazônia, 60 milhões voltam-se hoje à pecuária.

A mudança nesse quadro desolador felizmente já começou. Os mercados de alguns dos produtos que dominam a ocupação da Amazônia submetem-se a pressões socioambientais crescentes, que conduzem, muitas vezes, à melhoria dos resultados de sua exploração, como no caso exemplar da moratória da soja. Ao mesmo tempo, o maior controle sobre o desmatamento, bem como a ampliação de terras indígenas e de reservas florestais, contribui para atenuar, de forma significativa, o ritmo da destruição que marca, de forma trágica, a história da região até aqui.

Esses avanços, no entanto, não são suficientes para enfrentar o grande desafio do século 21 em torno do qual se encontra a possibilidade de construir nada menos que “um novo capitalismo jamais imaginado pelos visionários de ontem”. É à análise desse processo incipiente que Jacques Marcovitch, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de um dos mais importantes estudos sobre aquecimento global no Brasil, a Economia do Clima, dedica seu novo livro: “A Gestão da Amazônia: Ações Empresariais, Políticas Públicas, Estudos e Propostas”. Esse grande desafio do século 21 pode ser descrito em torno de três eixos básicos.

Em primeiro lugar, é necessário fazer da valorização dos produtos e dos serviços da biodiversidade uma fonte consistente de dinamismo econômico e de coesão social. Está em jogo a passagem da economia da destruição da natureza para um sistema inteiramente baseado em seu conhecimento, a economia da floresta em pé. Não se trata apenas de proteção, mas de encontrar modalidades de uso da floresta capazes, ao mesmo tempo, de garantir a manutenção de seus serviços ecossistêmicos e a geração de renda para os que, ainda hoje, têm sua existência precária, tantas vezes, baseada em práticas destrutivas.

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Há, por exemplo, um imenso potencial nas dez mil espécies de uso medicinal ou cosmético e nas mais de 300 espécies de frutas silvestres até aqui catalogadas. Para que se tenha uma ideia do contraste entre os potenciais e o que se faz na prática, apenas três óleos essenciais (extraídos da copaíba, do cumaru e do pau-rosa) são hoje explorados comercialmente. Quanto à madeira, hoje quase inteiramente exportada, a indústria naval local e a construção civil em cidades médias poderiam ser beneficiadas por sua exploração. Mas, por incrível que pareça, não existe até hoje indústria madeireira na Amazônia.

Além de seus produtos, a floresta amazônica estoca uma quantidade de carbono equivalente a dez anos de emissões globais de combustíveis fósseis. Sem os chamados rios voadores (vapor d’água transportado por
massas de ar com um volume maior que a vazão do rio Amazonas), o regime de chuvas em boa parte da América do Sul estaria seriamente ameaçado. Um dos maiores desafios do novo capitalismo a que se refere Jacques Marcovitch consiste exatamente em criar mercados capazes de valorizar não só produtos, mas também os inúmeros serviços ecossistêmicos que a floresta oferece à sociedade.

Mas essas oportunidades não verão a luz sem o segundo eixo de organização desse novo capitalismo: a ciência. Apenas 5% dos cientistas brasileiros estão na Amazônia e em condições de trabalho pouco estimulantes. Além disso, o vínculo entre a produção científica e as demandas empresariais é ainda mais precário que no restante do país. O resultado é um círculo vicioso em que uma estrutura econômica de matriz quase colonial acaba inibindo a presença de uma pesquisa à altura do desafio de conhecer sistemas naturais tão promissores.

O terceiro eixo refere-se à participação social. Parte do conhecimento atual sobre a Amazônia vem de um conjunto de organizações não governamentais que aliam estudos de boa qualidade com a valorização da participação social, não só nas políticas públicas, mas num pequeno empreendedorismo que poderá florescer com base em vínculos com grandes empresas. O novo capitalismo terá que enfrentar o desafio não só de reduzir a pobreza e a desigualdade, mas também de manter vivas as tradições culturais dos povos das florestas, entre os quais se encontram 700 mil índios falando mais de 200 línguas.

Essa ligação entre ciência, iniciativa privada e organizações sociais está no próprio livro de Jacques Marcovitch. Ele elaborou um questionário que permite ao leitor conhecer as estratégias empresariais de dez companhias presentes na Amazônia, entre as quais Walmart, Natura e Vale do Rio Doce. Por outro lado, entrevistou também sete especialistas vindos do mundo universitário e associativo. O resultado é um dos mais ricos panoramas sobre o que fazem e querem fazer hoje alguns dos mais importantes protagonistas do destino da floresta amazônica brasileira.

Ninguém pode garantir que o novo capitalismo vislumbrado no livro de Jacques Marcovitch vai, de fato, tornar-se dominante. Mas não há dúvida de que sua construção tornou-se um item incontornável da agenda dos atores sociais da Amazônia, apesar da imensa e óbvia resistência que ele tem pela frente.

 

“Gestão da Amazônia, Ações Empresariais, Políticas Públicas, Estudos e Propostas”

De Jacques Marcovitch. Editora Universidade de São Paulo (Edusp), 312 páginas, R$ 48,00

Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Relações Internacionais da USP, é coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental, pesquisador do CNPq e da Fapesp. www.abramovay.pro.br

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Ricardo Abramovay

Professor-sênior do Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade-USP. É autor de "Muito além da economia verde" e coautor de "Lixo zero: gestão de resíduos sólidos para uma sociedade mais próspera", ambos publicados pela editora Planeta Sustentável. Mantém o site: www.ricardoabramovay.com/ e o Twitter @abramovay.