Papéis do Fórum Social Palestina Livre

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Em Porto Alegre, milhares de pessoas, de 36 países (inclusive Israel), começam hoje a debater ações internacionais contra ocupação

Por Cláudio César Dutra de Souza

Após ter sediado o primeiro Fórum Social Mundial, em 2001, e outros subsequentes, a cidade de Porto Alegre volta a ser palco de um evento internacional de grande porte: o Fórum Social Mundial Palestina Livre, que acontece entre 28 de novembro e 2 de dezembro. Participantes de 36 países, dos cinco continentes, já confirmaram presença nesse evento, que promete fazer história no sentido de alertar o mundo sobre as agressões cometidas por Israel contra os palestinos, mais especificamente na Faixa de Gaza.

O Fórum terá 158 atividades autogestionadas, promovidas pelas organizações participantes, que virão inclusive de Israel. Quase três mil pessoas já se inscreveram online. A programação destacará cinco grandes conferências, além de oficinas, seminários e outros eventos, articulados em torno dos eixos temáticos do fórum. São eles: a) Autodeterminação e direito de retorno; b) Direitos humanos, direito internacional e julgamento de criminosos de guerra; c) Estratégias de luta e solidariedade – boicote, desinvestimento e sanções contra Israel; d) Por um mundo sem muros, bloqueios, discriminação racista e patriarcado; e) Resistência popular palestina e o apoio dos movimentos sociais. A programação detalhada pode ser obtida no site do Fórum.

As edições anteriores do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre e em outras partes do mundo, tinham como objetivo a construção de alternativas à hegemonia do neoliberalismo, que marcava a virada do século. A crise financeira de 2008 e a crise atual em vários países da Europa mostram que a tese central de que “outro mundo é possível” é bem mais que retórica tola e utópica, como muitos diziam. As populações da Grécia, Espanha, Itália, Portugal e França, entre outros países, já se deram conta de que o seu aperto econômico é fruto de um conjunto de políticas irresponsáveis e excludentes, que os FSMs vêm denunciando desde o seu início. Na programação desses fóruns sempre houve um generoso espaço para a problemática palestina, na forma de atividades que objetivavam denunciar a ocupação israelense e a violência praticada contra a população civil, sob o argumento frágil do “direito de defesa” contra a suposta ameaça terrorista em seu território, encarnada pelo Hamas.

A decisão de organizar um fórum temático específico de debates sobre a questão palestina pretende desregionalizar esse conflito e inseri-lo em um âmbito maior, que aponta para a defesa de direitos humanos básicos e universais. Da mesma forma que existe hoje certa concordância sobre os efeitos nefastos das políticas neoliberais e sua absurda concentração de renda, é provável que muito em breve a situação palestina seja entendida como escândalo mundial, tal como foram o apartheid sul-africano e a limpeza étnica na época da guerra na Bósnia.

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Sob qualquer aspecto — jurídico, humanista, ético ou filosófico –, a opressão palestina assemelha-se aos piores momentos de insanidade da história humana. Objetiva-se ir além do discurso Israelense oficial, que insiste na tese da autodefesa, resumindo como “terrorismo” toda a forma de resistência às suas ações, bem como a “antissemitismo” as discussões sobre a irracionalidade de algumas delas. Existe muito mais do que isso em jogo e é essa, talvez, a função mais importante desse fórum: disseminar um conhecimento que, por outras vias, é sistematicamente negado ao grande público.

Enquanto o mundo assiste aos desdobramentos da Primavera Árabe, a Palestina continua vivendo seu longo e tortuoso inverno, que não irá acabar enquanto uma das muitas soluções propostas para a questão da soberania palestina não for aceita por Israel. Notadamente, não existe e nunca existirá um “conflito entre Israel e facções palestinas”, porque a supremacia militar israelense é tão óbvia que esse “evento militar” dos últimos dias deve receber o nome que merece: mais uma incursão militar israelense em Gaza, como parte de um projeto maior e sistemático de impedir a reorganização dos grupos políticos palestinos e, de quebra, destruir a já mirrada infraestrutura civil naquele território.

Sob vários aspectos, Israel pode ser considerado um “Estado-pária”, o que significa que ele não obedece as normas internacionais de conduta defendidas por organizações internacionais tais como a ONU. O fórum irá defender o fortalecimento e a expansão da campanha global que prega desinvestimento e sanções contra Israel, com boicote a empresas internacionais cúmplices das violações israelenses e das leis internacionais. Estão planejados, igualmente, boicotes acadêmicos e culturais a instituições israelenses, parceiras coniventes na ocupação e no apartheid palestino.

Em relação ao cerco de Gaza, estima-se que desde o seu início, há cerca de quatro anos, mais de 700 pessoas já morreram — a maioria, doentes que não puderam receber tratamento médico adequado; 80% da força de trabalho está sem emprego; 90% da água disponível para consumo é impotável; médicos, engenheiros, professores, mestres e doutores sem nenhuma perspectiva de trabalho amontoam-se nas filas de distribuição de comida da ONU, ao lado dos mais de 300 mil cidadãos que precisam de ajuda humanitária para completar sua ração alimentar diária; não é permitida a entrada de quase nenhum material de construção, impedindo a reconstrução dos danos causados pelos ataques israelenses à região.

Por fim, dado que Israel impede a comercialização de combustíveis para uso nas estações de energia elétrica, não é raro que os palestinos de Gaza fiquem dias em completa escuridão. Nessa perspectiva, fica extremamente difícil que “ambos os lados” sentem-se à mesa de negociações, como pregam Israel e Estados Unidos de forma puramente retórica.

Uma das justificativas para a incursão israelense em Gaza, iniciada no dia 14 de novembro — quando uma operação militar matou o chefe do braço armado do grupo Hamas na Faixa de Gaza, Ahmed Jaabali –, foi a de que mísseis lançados contra Israel eram de fabricação iraniana. Partindo dessa conexão equívoca, fica clara a intenção do projeto maior israelense de, finalmente, iniciar um conflito contra o Irã. O discurso manifesto, como sempre, é o de eliminar a ameaça terrorista do Hamas (democraticamente eleito e, portanto, apoiado por grande parte dos palestinos).

Contudo, é de se perguntar como reconhecer os membros do Hamas no meio da massa indistinta no território de Gaza. Eles usam uniformes, estão reunidos em uma sede oficial a decidir os rumos de sua atuação presente e futura? É evidente que não. Em Gaza, cada cidadão é potencialmente um apoiador, um simpatizante ou possui algum conhecido dentro do Hamas – logo, cada ser humano é um alvo em potencial. A desproporção dos ataques contra Gaza supõe um entendimento que vai muito além de uma resposta defensiva contra a suposta ameaça a seu território, algo que efetivamente não existe.

Seriam necessárias inúmeras páginas para descrever os crimes de guerra de Israel desde o início da ocupação da Palestina, em 1947 – e elas já foram escritas. É preciso ir além, e essa é a percepção que norteia os eventos que terão lugar a partir de hoje, em Porto Alegre. Significa a construção legítima e democrática de uma pressão junto à comunidade internacional a fim de parar o terror de Israel.

Infelizmente, desde que foi anunciado, o fórum vem sofrendo críticas de grande parte da imprensa e de entidades de todo o país ligadas a grupos simpáticos a Israel. As acusações descreve-no como “hostil a Israel”, evento que “apoia o terrorismo”, de caráter “antissemita” e posicionamentos “unilaterais”. É estranho que nada se fale contra a Anti-Defamation League (ADL), uma ONG internacional situada nos Estados Unidos que se supostamente luta contra o antissemitismo e o racismo mas, na prática, persegue intelectuais e ativistas do mundo inteiro que ousam levantar a voz contra aspectos sombrios da política israelense. Nas principais universidades do mundo, militantes israelenses frequentemente fazem ameaças a palestrantes e promovem distúrbios em conferências e seminários que não estejam de acordo com suas ideias. Os ataques contra o fórum não passam de uma pequena amostra do lobby israelense, que busca impunidade em nome de certos mitos.

É evidente que reações apaixonadas surgirão em diversos momentos, nesses quatro dias de debates. É impossível que não aconteçam. Contudo, a proposta do fórum é democrática — e querer impedir a sua realização denuncia interesses ocultos dos que usam o manto da “livre expressão” como sofisma legitimador de suas próprias conveniências.  Não existe sentimento racista ou antissemita — apenas se propõe o debate sobre as políticas de um país que até hoje não admite possuir um arsenal nuclear, ao mesmo tempo em que ameaça a segurança de outro, o Irã, que não representa perigo real ao mundo.

O cientista político Norman Filkenstein, filho de judeus sobreviventes do holocausto, já denunciou em vários momentos o uso do sofrimento do povo judeu como uma carta de chantagem, um coringa que concede poderes absolutos a um grupo contra outro, como se fosse uma imunidade perene e isenta de qualquer tipo de crítica. Também dentro de Israel, o grupo político de extrema direita liderado por Benjamin Netanyahu sofre pesadas críticas por sua atuação contra os palestinos. Soldados do exército israelense muitas vezes recusam-se a participar de incursões militares que contrariem os seus princípios. Organizações não-governamentais israelenses denunciam a violência e a arbitrariedade de seu governo nas principais universidades do mundo, sofrendo sanções tais como perda de emprego e outras perseguições.

Por outro lado, é necessário compreender o funcionamento do discurso de Israel, que condiciona sua população, desde muito cedo, a ver seu irmão semita como um inimigo, uma ameaça e até mesmo um pária. Alguns conseguem enxergar mais longe; outros, porém são capturados por esse discurso, que retroalimenta a indústria da intolerância por toda a zona ocupada e, por vezes, pelo mundo inteiro.

O Fórum Palestina Livre tem a participação do governo estadual e da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, do governo federal, da Federação Palestina e de outros grupos que apoiam a criação de espaços de debate pacíficos e produtivos, regidos pelo espírito democrático e legal. Movimentos sociais e grupos de pressão se constituem em elementos indissociáveis de uma democracia.

Está programada para a tarde de quinta-feira, dia 29, uma marcha em solidariedade à Palestina, fundamentada no princípio da liberdade de expressão garantida constitucionalmente. Esperamos que se respeitem as posições defendidas nesses dias como sendo parte saudável do jogo político. Que os opositores respondam com argumentos sólidos, ao invés de bravatas estruturadas no medo, no silêncio e na censura que tentam tradicionalmente impor aos temas propostos.

A todos os que vierem ao fórum, que venham de espírito aberto e vontade de debater. E que sejam muito bem-vindos.

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