Palestina: rumo a uma estratégia gandhiana?

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Após protestos da “Nakba”, ativistas falam em desobediência pacífica e pressões crescentes, até reconhecimento pela ONU e independência

Por Antonio Martins | Com pesquisa de Luís Nagao

Como se esperava, a repressão veio bruta. Catorze manifestantes árabes foram mortos (e centenas, feridos) pelas forças de segurança israelenses domingo, quando lembravam, em protestos, o 63º aniversário na Nakba – a expulsão, em 1948, de 700 mil palestinos de suas terras e casas. Algo, porém, fugiu ao script rotineiro dos conflitos anteriores.

Aos tiros disparados pelos soldados não se seguiram nem a tentativa de enfrentá-los a pedradas (marca das duas “Intifadas“), nem a divisão dos palestinos em grupos rivais (um fenômeno que se arrastou pelos últimos quatro anos). Houve resistência pacífica. A julgar por alguns relatos, esta forma de luta poderá marcar a luta pela fim da ocupação israelense, ao menos nos próximos quatro meses. E – talvez o maior paradoxo – o governo ultraconservador de Telavive parece cada vez mais intranquilo, diante da perspectiva de enfrentar pressão de manifestantes desarmados…

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Organizados durante dois meses, os protestos de domingo reuniram centenas de manifestantes. Na Cisjordânia, ocorreram, quase simultanamente, em três pontos principais: nas fronteiras de Israel ao Sul (com o Líbano) e ao Norte (com a Síria); e em Jerusalém e adjacências – inclusive o ponto de controle de Qalandyia. são obrigados a passar, todos os dias, os palestinos que vivem em Ramallah e trabalham na metrópole vizinha. Lá deram-se alguns dos acontecimentos mais significativos. Foram narrados, no Alternet por Joseph Dama, um jornalista free-lancer veterano, que escreve também para The Nation, Le Monde Diplomatique e Al Jazeera.

Reunidos em Qalandya, conta Dama, centenas de palestinos tentaram caminhar em direção a Jerusalém. Empunhavam apenas a bandeira quadricor de seu país – embora muitos sintam-se ligados, ou simpatizem, com facções como o Fatah e o Hamas. Foram rapidamente cercados por centenas de soldados (nas fronteiras, ao contrário, as manifestações surpreenderam o exército).

A repressão usou uma variedade especialmente agressiva de gás lacrimogênio – houve muitos casos de perda de consciência – e balas de borracha (por isso, neste ponto não houve mortes). Vinte pessoas sofreram ferimentos “graves ou médios”.

Em resposta, alguns manifestantes atirariam, mais tarde, pedras e até coquetéis molotov. Mas a reação principal não foi esta. Os palestinos reagruparam-se e voltaram a marchar rumo a Jerusalém. Foram novamente atingidos, mas mantiveram seu propósito. “O processo prosseguiu por aproximadamente sete horas”, conta, surpreso, o jornalista. Após conversar com alguns dos organizadores do protesto – entre eles, Fadi Quram, um dos porta-vozes do movimento juvenil 15 de Março, Dama concluiu: “a manifestação de Qalandyia foi um passo pequeno, porém crucial para a nova forma de resistência palestina pacífica (…) Inspirado por outras revoluções no Oriente Médio, o 15 de Março está abandonando a luta armada em favor de um modelo de ação baseado na desobediência, diante da ocupação israelense; na unidade palestina; e no isolamento de Israel por meio de campanhas de boicote”.

A estratégia do movimento ficou ainda mais clara segunda-feira, quando o próprio Fadi Quran participou, via webTV, de uma roda de debates organizada pelo site Democracy Now, e animada pela jornalista Amy Goodman. Ao longo do diálogo, o palestino, de apenas 23 anos, revela que, desde a convocação dos atos pela unidade palestina, em 15 de março (de onde seurgiu seu nome), o movimento tem empregado, é claro, as redes sociais. Mas acrescenta: “nosso trabalho fundamental é na base, de casa em casa, conversando com as pessoas, animando lideranças comunitárias”.

A este esforço de convocação, soma-se, ele explicou, forte treinamento “nas estratégias de não-violência de Gandhi e Martin Luther King”. Ao se organizar para o ato em Qualandyia, o movimento sabia que poderia ser atacado pela polícia ou militares; preparou-se para manter a marcha, mesmo nestas condições; e conseguiu fazê-lo.

Quran está convencido de que será possível, desta forma, derrotar a ocupação. Ele não compara o movimento que o 15 de Março organiza agora às Intifadas. “Penso em algo similar à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, nos anos 1960: diferentes iniciativas; gente que as organiza, em suas próprias comunidades, Caminhadas pela Liberdade ou campanhas de boicote. É o que começará a ocorrer na Margem Ocidental, em Gaza, nos territórios ocupados por Israel em 1948 e mesmo nos campos de refugiados”.

Esta postura significaria menos radicalidade? Não é o que pensa Quran. “Se, num determinado momento, a liberdade ainda parecer distante, a opressão que todos os palestinos sofremos pode levar a um levante. Mas nosso objetivo é marcar os próximos meses com um movimento crescente pelos direitos civis, com revindicações intensas de igualdade e justiça”.

Que o jovem articulador do 15 de Março tem em mente, quando se refere aos próximos meses? Uma entrevista de Moustapha Barghouthi, feita por Foreing Policy e a ser publicada amanhã por Outras Palavras (com tradução de Vila Vudu) ajuda a encontrar a resposta. Barghouti, um militante palestino que segue a tradição de Edward Said, discorre especialmente sobre a pacificação entre Fatah e Hamas – da qual foi um dos articuladores. Mas deixa claro, tanto na entrevista quanto num artigo recente, um objetivo de curto prazo: a unidade tem em vista, também, a próxima Assembleia Geral da ONU.

O reconhecimento do Estado Palestino por um número crescente de países, nos últimos meses, tende a gerar, em pouco mais de cem dias, um fato de enorme relevância. É muito possível que as Nações Unidas reconheçam a independência do país hoje controlado por Israel – e o admitam em seu seio. A decisão poderia ser parcialmente revertida pelo Conselho de Segurança da ONU, mas a nação que se dispusesse a impor o veto sofreria um imenso desgaste político.

Tal perspectiva assusta a direita israelense – eternamente obcecada em manter a ocupação. Para tentar evitar os desdobramentos, o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu irá encontrar-se em Washington, nesta sexta-feira (20/5) com Barack Obama. Um colega de governo, Ehud Barak (ministro da Defesa) qualificou o possível reconhecimento da Palestina pela ONU de “tsunami político”. Durante décadas, Netanyahu, Barak e seus antecessores evitaram a independência palestina, que se desdobrou em guerras e luta armada. Agora, temem um movimento cujas armas principais são consciência, redes sociais e sentimento de justiça.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras