Outro ano em que disputamos o futuro

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Nossa Retrospectiva-2012 sugere: sentidos do século 21 continuam indefinidos, mas alternativas tornaram-se nítidas. Aposta no pós-capitalismo parece ainda mais necessária

Um entroncamento ferroviário intrincado, em que todos os rumos são possíveis, ilustrava, há um ano, a série de matérias que Outras Palavras selecionou para construir um balanço do ano. A alusão era clara: 2011 – marcado pela Primavera Árabe mas também pela sobrevida das ideias neoliberais e pelo endurecimento das políticas de ataque aos direitos sociais em diversas partes do planeta – insinuava múltiplos futuros possíveis. Além disso, o antigo modelo da democracia representativa, em que os partidos políticos expressavam as visões de mundo coletivas, continuava a se desgastar. Por isso, as opções e atitudes autônomas de cada ser humano – base de uma nova cultura política – adquiriam importância inédita.

Doze meses depois, nossa Retrospectiva-2012 sugere que a tendência acentuou-se. Tal como sucedia há cem anos, e até o final anos 1920, ninguém é capaz de prever os sentidos do século 21. Porém, parece haver uma novidade. Com o passar do tempo, as opções vão se aglutinando: os muitos caminhos concentram-se em um feixe menor (e talvez mais claro) de alternativas.

Examine, por exemplo, o deslocamento, no Brasil e no mundo, dos partidários da ordem capitalista. Parecem cada vez mais dispostos a romper a relação que mantiveram, desde o início da guerra fria, com a democracia e os direitos civis. Veem-na como um entrave: algo que lhes serviu de adorno durante décadas difíceis mas que pode, em novo cenário, ser atirado ao mar como peso morto. Observe como Washington recorre aos drones para eliminar seus adversários, implantando uma pena de morte sem qualquer vestígio de julgamento legal. Repare como a União Europeia evita submeter a qualquer consulta popular as políticas de corte de direitos sociais. Volte ao Brasil. Que significam a repressão ao Pinheirinho ou a cumplicidade, do governo de São Paulo e da mídia, com políticas de assassinato policial que parecem copiadas às da ditadura (inclusive no detalhe de associar as mortes a “resistências à prisão”)?

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Felizmente, a busca de confluências parece visível também entre quem busca novos horizontes. Ao contrário do ano anterior, 2012 não esteve marcado por manifestações de rua comparáveis às dos Indignados ou do Occupy. Foi um ano para refletir, elaborar, preparar novos passos ambiciosos.

No plano teórico, avança a construção do que gostamos de denominar pós-capitalismo. Significa frisar que as lógicas associadas ao sistema hoje hegemônico (mercantilização da vida, lucro como valor supremo, concentração de riquezas, hierarquizações sócias múltiplas, redução da natureza a “recurso”, entre outras) estão obsoletas. Mas implica lembrar, também, que não serão substituídos pelo momento mágico da “tomada do poder” – e, sim, por uma série de revoluções culturais, em todos os planos da vida social.

Outras Palavras orgulha-se por ter acompanhado e tornado públicos os desenvolvimentos desse novo projeto emancipatório. Em nossas páginas, Immanuel Wallerstein sustentou que é preciso construir novos horizontes – porque o “sistema-mundo” vigente há cerca de cinco séculos tornou-se insustentável, mas pode ser substituído por algo mais desumano. Manuel Castells destacou a importância da disputa pelo futuro da internet, um espaço das relações humanas em que o poder do dinheiro e da desigualdade está sendo contestado quotidianamente. Viveiros de Castro sublinhou a vocação do Brasil para liderar uma saída civilizatória que vá além de velho desenvolvimentismo… desde que deixemos de nos render a ele!

Não nos satisfizemos, porém, com as possibilidades enunciadas pela teoria. Também no Brasil, parecem estar surgindo movimentos que materializam as possibilidades do que se chama de “nova cultura política”. Baseados na horizontalidade, des-hieraquização e autonomia, eles recuperam, contudo, noções como coordenação, pensamento coletivo, construção de estratégias e táticas. Também buscam novas articulações entre um futuro em que é possível prever a superação do Estado e um presente em que é preciso hackeá-lo, para continuar multiplicando direitos sociais e liberdades.

A Rede Fora do Eixo foi, em 2012, um dos espaços decisivos para construir esta transição. Outras Palavras passou a acompanhá-la em fevereiro. Destacou, mais tarde, sua transição. Ao longo do ano, ela passou a ser mais que um conjunto de coletivos culturais atraídos por valores não-mercantis. Assumiu a condição de articuladora de desejos políticos autônomos. Desmentiu, na prática, um conceito pobre, segundo a qual “a juventude não sai nas ruas e é despolitizada”. Articulou, nas eleições municipais de São Paulo, manifestações não-partidárias de 20 mil pessoas, contra o conservadorismo. Ao final do ano, animou o festival Preliminares, que projeta praticar concretamente, na maior metrópole do país, esta mobilização transformadora das multidões.

Outras Palavras manterá, em 2013, o empenho de acompanhar um mundo em transição. Buscamos resgatar, na era da Comunicação Compartilhada, um jornalismo crítico e profundo ao qual a velha mídia voltou as costas. Queremos construí-lo por meio da colaboração e do horizontalismo. Em menos de três anos, reunimos uma rede com mais de cem colaboradores e quase dez mil leitores diários. Um dos grandes propósitos do novo ano será expandi-la continuamente.

Não é fácil, mas é indispensável: exige, além do trabalho permanente de produção e edição de textos, uma terceira vertente. Trata-se de desenvolvimento de novos métodos de apuração e redação em rede, capazes de substituir com vantagens os antigos exércitos de jornalistas assalariados e dirigidos verticalmente. Em 2013, continuaremos mergulhados nesta aventura, esperando contar com sua companhia e cumplicidade. Boas leituras, ótimas festas, um ano de grandes batalhas e prazeres. Voltamos a partir de 7 de janeiro. Abaixo, os textos da Retrospectiva-2012:


(Janeiro) Castells debate os dilemas da internet

Num ano marcado por debates sobre futuro da web, sociólogo catalão sustenta: breve todo planeta estará conectado; Google e Facebook não são ameaça; grande desafio é manter liberdade na rede. Entrevista a Sergio Martin

(Janeiro) “Estamos usando o crack”
Em São Paulo, Estado desencadeia vasta operação repressiva na região da Luz. Para segregar metrópoles, abrindo espaço à especulação, usa-se o pretexto da droga — e condena-se usuários a políticas primitivas. Por Edmar Oliveira

(Janeiro) EUA terceirizam assassinatos de guerra
Washington insiste em liquidar fisicamente inimigos por meio de ataques de aviões não-tripulados. Parte das “missões de morte” é transferida a empresas privadas… Por Robert Johnson

(Fevereiro) A era dos extremos climáticos começou
Série de dados novos demonstra que se acentuam grandes secas, cheias, ondas de calor e desastres ambientais. É preciso agir já, contra reação em cadeia. Por Janet Larsen e Sara Rasmussen

(Fevereiro) Cultura: e se o pós-capitalismo estiver começando?
Outras Palavras entrevista animadores da Rede Fora do Eixo e passa a acompanhar coletivos que, ao longo do ano, passaram da produção cultural não-mercantil a inovações políticas destacadas. PorAntonio Martins Bruna Bernacchio

(Março) O Pinheirinho visto pela ciência política clássica
Por distintos motivos, Hobbes, Locke e Montesquieu condenariam sem vacilar a brutalidade do governo paulista. Mas… e Maquiavel? Por Luís Fernando Vitagliano

(Março) Nos bastidores do processo contra o Wikileaks
Às vésperas de Julian Assange pedir asilo na embaixada do Equador em Londres, seu advogado revela como EUA pretendem incriminá-lo; por que torturam seu suposto “cúmplice”; que lhe ocorrerá, se extraditado. Por Paul Jay

(Abril) Tudo pode estar por um segundo

Paul Mason, autor de obra que estuda movimentos como Primavera Árabe, Occupy e Indignados, sustenta: redes que desafiam capitalismo precisam se preparar para resposta brutal do sistema.Entrevista a Hilary Wainwright e Andrew Bowman

(Maio) Reportagem: assim se faz um escracho
No mês em que se multiplicaram as manifestações-relâmpagos para denúncia dos torturadores brasileiros, nossa reportagem descreve de dentro um destes atos e seus bastidores. Por Rôney Rodrigues

(Maio) Código Florestal: o discurso vazio dos ruralistas
Ladislau Dowbor encara a polêmica sobre desconstrução das leis ambientais e sustenta: para preservar natureza ampliando produção agropecuária, basta combater mau-uso da terra e apoiar pequeno produtor

(Junho) Precariado, rebeldia e renda cidadã
Um seminário debate a universalização das políticas de distribuição de renda por meio de salários independentes de trabalho. Nosso texto sustenta: esquerda não pode continuar sem propostas para tema. Por Guy Standing

(Julho) As Cidades Rebeldes de David Harvey 
Um grande teórico das metrópoles contemporâneas contesta hipóteses conformistas e vê nestes centros, colonizados pelo capital, laboratórios de outra sociedadeEntrevista a John Brissenden e Ed Lewis

(Julho) Útero, serviço à sociedade?
Por pressão das bancadas fundamentalistas, Congresso Nacional debate lei que reduz grávidas a objetos reprodutivos. Nosso texto compara este cenário a ficção tenebrosa e propõe: é preciso barrar ameaçaPor Marília Moskcovitch

(Agosto) Porém, já nascemos livres
Uma nova coluna descreve vida numa comunidade terapêutica e revela como ela dissolve relações usuais de família, lar e propriedade para criar vida comum e superar neuroses sociais. Por Katia Marko

(Agosto) Lula, Dilma e um projeto que pode se esgotar
Em meio ao debate sobre os sentidos do “lulismo”, sugerimos: programa neodesenvolvimentista dos dois últimos presidentes mudou a face do país, mas chegou a encruzilhada: ou se aprofunda, ou estagnaráPor Felipe Amin Filomeno

(Setembro) Outros valores, além do frenesi de consumo
Viveiros de Castro comparece em “Outra Política” – nossa nova coluna – e dispara: iludido por noção ultrapassada de progresso, Brasil pode desperdiçar oportunidade única de propor novo modelo civilizatório. Por Inês Castilho

(Setembro) Fraude no episódio que mudou a face do futebol
No calor dos preparativos para a Copa-2014, vasculhamos as origens do esporte-mercadoria e relembramos manipulação de tragédia em estádio inglês que iniciou elitização do esporte. Por Irlan Simões

(Outubro) Jejuvy: assim os guaranis recuperam a palavra
Viagem antropológica ao mundo guarani-kaiowa. Por que suicídios são protesto, ritual e porformance de cultura que sobrevive por um fio. Reportagem de Fabiane Borges e Verenilde Santos

(Novembro) Só o PCC ameaça São Paulo?
No auge da onda de assassinatos que apavora Estado, nosso dossiê revela: episódio foi iniciado e radicalizado pela Polícia Militar. Governo Alckmin omite-se. Mídia silenciaPor Antonio Martins

(Novembro) Wallerstein: “Nenhum sistema é para sempre” 
Para sociólogo, capitalismo não sobreviverá à crise, mas o que emergirá é imprevisível. Por isso, próximas décadas serão cruciais. Entrevista a por Lee Su-hoon

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras