Ousadia e potência em Branco sai. Preto fica

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Filme de Adirley Queirós combina realidade e imaginação, canibaliza múltiplos gêneros e supera narrativas tradicionais sobre oprimido e cultura popular

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Foi uma edição histórica do Festival de Brasília a que terminou na terça-feira, 16 de setembro). Não só pela decisão inédita, tomada previamente pelos produtores e diretores dos seis longas-metragens concorrentes, de dividir em partes iguais o prêmio de R$ 250 mil destinado ao melhor filme. Mas também pela força das obras exibidas, em especial do longa escolhido pelo júri oficial, Branco sai. Preto fica, de Adirley Queirós.

Se borrar as fronteiras entre ficção e documentário já se tornou quase corriqueiro, Branco sai radicaliza esse atravessamento ao fazer brotar da realidade mais brutal a fantasia mais livre e transformadora.

Concebido e filmado inteiramente na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, o filme parte de um acontecimento traumático na vida da comunidade: a ação policial que dissolveu com violência um baile black nos anos 80, deixando uma porção de feridos.

Entre eles, um homem que ficou paraplégico ao levar um tiro e outro que teve amputada uma perna esmagada pela cavalaria. Eles próprios narram sua história, enquanto tocam sua vida, o primeiro (Marquim do Tropa, premiado como melhor ator) colocando no ar sua rádio caseira, o segundo fazendo pernas mecânicas com material reciclado. Mas isso já pode ser ficção. Não importa saber.

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Canibalização de gêneros

O salto espetacular do filme consiste em deixar o solo seguro da reconstituição documental dessas vidas destroçadas e propiciar que elas próprias se reinventem na imaginação. Os sobreviventes do massacre se tornam então protagonistas de uma descabelada trama de subversão da ordem existente. Há algo da loucura anárquica do romance Os sete loucos, de Roberto Arlt, igualmente alimentada por um fértil imaginário popular que canibaliza todo tipo de referência cultural.

Espionagem, ficção científica, drama social, tudo isso se mistura com a maior desenvoltura – talvez a palavra certa seja desfaçatez – ao substrato documental, que em nenhum momento é esquecido. A trama fictícia e o registro factual são construídos e expostos com a mesma espessura, amalgamados de modo inextricável. O resultado é um dos filmes mais potentes e estimulantes dos últimos anos, que supera de um só golpe a vitimização dos oprimidos, a submissão colonizada a modelos narrativos hegemônicos, a folclorização da cultura popular e uma porção de outros caminhos fáceis que nosso cinema costuma seguir.

O espectador sai da sessão (pelo menos eu saí) com um sentimento paradoxal: uma tristeza profunda por um país que continua a esmagar e mutilar seus cidadãos socialmente mais vulneráreis e, ao mesmo tempo, uma quase euforia pela crença revigorada na potência libertária do cinema.

País do futuro, presente kafkiano

Pelo menos dois outros longas do festival merecem atenção especial: Brasil S/A, de Marcelo Pedroso (melhor direção, roteiro, montagem, trilha sonora e som), e Sem pena, de Eugenio Puppo (prêmio do público).

Não há espaço para discorrer sobre eles aqui. Basta dizer que o primeiro é uma coreografia de seres e máquinas, sem diálogos, que brinca (a sério) com nossa autoimagem – e nossos autoenganos – de “país do futuro”. O segundo é um documentário que revela de maneira original, e essencialmente cinematográfica, as entranhas do nosso kafkiano sistema penal como uma engrenagem cruel de controle e opressão social. Vamos falar sobre ambos oportunamente. Aqui, o trailer de Sem pena (o de Brasil S/A ainda não está disponível):

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.