Os Estados Unidos cansados de guerra

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Wallerstein desenha cenário da próxima eleição presidencial norte-americana e prevê:  sentimento anti-militar crescerá; Obama terá de mover-se à esquerda

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Daniela Frabasile

Os Estados Unidos estão atualmente envolvidos em três guerras no Oriente Médio – no Afeganistão, no Iraque e agora na Líbia. Mantêm bases militares em todo o mundo, em mais de 150 países. Têm relações tensas com a Coréia do Norte e com o Irã, e nunca descartaram a possibilidade de ação militar.

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Quando começou, em 2002, a guerra do Afeganistão tinha grande apoio da opinião pública estadunidense e em outros países. A guerra no Iraque tinha quase o mesmo apoio da opinião pública norte-americana quando começou, em 2003, mas muito menos defensores em outros países. Agora, os Estados Unidos semi-envolvidos na Líbia. Menos da metade do público estadunidense é favorável, e há muita oposição no resto do mundo.

As pesquisas mais recentes nos EUA mostram oposição não apenas à operação na Líbia, mas também à permanência no Afeganistão. Os pesquisadores estão falando em “desgaste de guerra”, tanto quanto possível, uma vez que é difícil argumentar que os Estados Unidos foram vitoriosos em algum desses conflitos.

O conflito na Líbia está indo em direção a um longo pântano. No Afeganistão, todos estão tentando imaginar uma solução política, o que significaria aceitar que o Talibã participe do governo e talvez mesmo controle sozinho o poder, em pouco tempo. No Iraque, os Estados Unidos planejam retirar suas tropas em 31 de dezembro. Ofereceram manter 20 mil soldados por mais tempo, contanto que o governo iraquiano solicite, e que faça isso logo. O primeiro ministro iraquiano Nouri al-Maliki pode estar tentado, mas o movimento liderado por Muqtaba al-Sadr [forte especialmente entre os xiitas pobres (nota da tradução)] afirma que, se ele o fizer, retirá seu apoio, e o governo cairá.

O mais interessante, no entanto, é o que pode acontecer na política interna dos Estados Unidos no ano que vem, frente a uma eleição presidencial. Desde 1945, o Partido Republicano planeja sua campanha como o partido que apoia fortemente o exército, e acusa o Partido Democrata de ser muito. Os democratas sempre reagiram procurando provar que não eram. Na prática não havia muita diferença nas políticas verdadeiramente executadas, qualquer que fosse o partido na presidência. De fato, as maiores guerras – Coréia e Vietnã – foram iniciadas com presidentes democratas.

O Partido Democrata sempre teve um grupo, considerado sua ala esquerda, mais crítico em relação a essas guerras, e esse grupo continua existindo e protestando. Porém, entre os políticos eleitos, esses democratas sempre foram minoria, e foram amplamente ignorados.

O Partido Republicano era mais unido em relação ao programa de apoio estável ao exército e às guerras. Raros políticos republicanos sustentavam visões diferentes. Eles vêm da ala ultra-liberais do partido, e o político mais conhecida com essa visão foi o deputado Ron Paul, do Arizona. Ele também foi um dos poucos políticos a julgar que o apoio ilimitado dos Estados Unidos a Israel era uma má ideia.

No momento, é este o ponto em que estamos, na corrida presidencial. Barack Obama será o candidato democrata. Existem dez ou doze pré-candidados, e nenhum deles é claramente o favorito. A corrida dentro do partido está totalmente em aberto.

O que isso significa para a política externa? Ron Paul busca a nomeação. Em 2008, ele quase não teve apoio. Agora, sua campanha vai melhor. Isso se deve, em parte, à posição forte quanto às políticas fiscais, mas suas posições em relação à guerra estão chamando atenção. Além disso, um novo candidato entrou na disputa. Ele é Gary Johnson, ex-governador republicano do Novo México. Também é ultra-liberais, e tem visões ainda mais fortes que Paul em relação à guerra. Johnson pede retirada total e imediata do Afeganistão, do Iraque e da Líbia.

Dado o amplo apoio de vários potenciais candidatos, certamente haverá programas de TV em que todos os candidatos republicanos irão falar e debater. Se Johnson fizer de sua opinião sobre a guerra o grande argumento da campanha, isso assegurará que todos os candidatos republicanos terão que abordá-la.

Quando isso acontecer, descobriremos que o chamado Tea Party republicano está profundamente dividido na questão do envolvimento nas guerras. Subitamente, todo o país estará debatendo essa questão. Barack Obama descobrirá que a posição de centro, que está tentando manter, moveu-se de repente para a esquerda. Para permanecer ao centro, ele também terá que caminhar à esquerda.

Esse será um importante ponto de virada na políticas dos Estados Unidos. A ideia de que tropas devem retornar se tornará uma grande possibilidade. Alguns irão se irritar, porque os Estados Unidos estarão exibindo fraqueza. E de certo modo, isso será verdade. É parte do declínio dos Estados Unidos. Irá lembrar aos políticos estadunidenses, no entanto, que entrar em guerras exige grande apoio da opinião pública. E nessa combinação de pressões geopolíticas e econômicas que todos sentem, o “cansaço de guerra” é um grave fator a partir de agora.

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Immanuel Wallerstein

Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/).