Os Condenados: 11º trecho da trilogia de Oswald

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“Carlos Bairão pensava que a morte era um triunfo: a repudiada de ontem, a só, a rapariga, ia ali tirada pelo trote possante de quatro cavalos, e todos instintivamente se descobriam”

Por Oswald de Andrade | Imagem Gustav Klimt


No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados. Na semana passada (2/8), a série foi interrompida excepcionalmente, devido aos preparativos para a mudança de endereço de nosso espaço de redação. Processo concluído, publicação retomada!

Na sequência anterior, Jorge d’Alvelos vê São Paulo incendiar-se culturalmente nas comemorações do centenário. O artista destrói algumas de suas obras. Ele vive lutuosa memória: a cidade toda conhece Alma. Certa noite, ela tem a velha crise contraída nos leitos. Madrugada, luz no quarto da jovem. Talvez estivesse acordada. Estende a cabeça até a janela. Apenas por uma fresta, vislumbra o desalinho do quarto. Ele passa-lhe a mão pela testa. Como que aninhada, ela suspira: – Sou tua… E na noite de corpos unidos, soluça o nome do outro amante: Artur. Jorge chega a premeditar um assassinato. Mauro agarra-a e a espedaça contra um móvel. Sai como um fugitivo. Ela fica estirada no sobrado. (Theotonio de Paiva, editor da seção especial “Oswald 60″)

 

TEXTO-MEIO

Na alva estrelada, Jorge d’Alvelos acorrido pediu a Deus, de joelhos, no patamar solitário, que fizesse parar a terra, para que não amanhecesse.

Lá dentro, junto de Milagre que dormia embrutecida da vigília, Alma gritava, estraçalhada de perfurações.

*-*-*-*-*

Estava desfigurado. Saiu cambaleando. Voltou com o clínico do bairro, na manhã insensível e luminosa. O homem velho e baixote interrogou-a.

– Foi um tombo da escada. Rolei até embaixo…

E de novo torcia-se, gritando.

Ele não quis intervir. Podia ser um caso grave. Aconselhou o internamento num hospital popular.

Numa reorganização de forças perdidas, Jorge d’Alvelos murmurou providências desconexas. Milagre partiu, buscar um táxi.

*-*-*-*-*

O automóvel atravessou a portaria engradada em negro da Rua Cesário Mota, contornou suavemente o jardim de cactos e ciprestes, e estacou à primeira porta da larga entrada em tijolo da Santa Casa de Misericórdia. Havia uma ambulância parada um pouco adiante. Jorge gritou por uma padiola ao enfermeiro da Assistência que o olhava.

Depositaram-na na sala da entrada, à esquerda.

Jorge ficou ali, um instante, inerte, idiota, vendo-a quase no chão, sobre aquela maca de feridos. Depois, penetrou desabaladamente pelos corredores extensos, pedindo pelo amor de Deus que lhe deixassem falar com uma irmã de caridade.

*-*-*-*-*

O médico que conversava com outro sobre a janelinha de Krause, aberta, pela manhã, na cabeça de uma trepanada, explicou-lhe que era preciso intervir logo. Houvera um alarmante começo de paralisia intestinal. D. Alma sofria decerto de uma velha anexite. A queda precipitou o material séptico na cavidade. Apresentava todos os sintomas… Fora um horroroso desastre…

*-*-*-*-*

Caíra a tarde. Puseram-na entre lençóis na maca rolante da pejada enfermaria. E o carrinho seguiu entre camas curiosas, até a sala grande de operações, clara, rigorosa, na sua instalação de armários e boiões, onde desinfetantes punham cheiros acres e cores amargas – verde, roxo, laranja.

Por cima, desenhava-se vazio o anfiteatro donde os estudantes assistiam às lições vivas do hospital.

*-*-*-*-*

Sem pinga de sangue no rosto citronado, reconduziram-na cautelosamente para a maca horizontal. No cortejo de irmãs e enfermeiras, Jorge ia, automático, solene.

*-*-*-*-*

Estavam na terceira manhã de hospital. Alma resistira ao choque operatório. Mas o nariz se afilara extremamente entre os olhos roxos e baixados. Amarela de cera, a doente passara assim todo o dia e a noite; depois tivera, pouco a pouco, uma normalização de estado geral, sem vômitos, que pusera doidas esperanças no coração de Jorge e fizera mesmo o médico interno pensar que a salvava.

A febre não subira nas crises da tarde. Mas agora, ao anoitecer daquele dia, Irmã Maria retirara o termômetro marcando quase quarenta graus.

Jorge sentiu gelo na espinha e veio perscrutá-la. Ela parecia dormir; descerrou o martírio dos olhos e, vendo-o extático, disse:

– Eu não queria morrer… Era tão bom quando tu chegavas em casa… Lá fora, a fanfarra do quartel…

Aterrado de estar só, ouvindo-a, ele chamou nervosamente a irmã que agasalhava outra doente. Ela veio na sua roupagem branca.

– Irmã – suplicou a enferma – dá-me o crucifixo…

A freira desprendeu a grande cruz de metal que lhe pendia do peito e, ajoelhando-se, fez Alma beijá-la.

– Deixa-o comigo, Irmã!

– Deixo, filha.

– Jorge, meu Jorge, que castigo! Vou morrer…

Ele quis falar, protestar, mas ficou olhando-a, imóvel, petrificado. Uma sensação fria penetrara-o, conservou-se dolorosa nas espáduas, nos braços, nas pernas; e teve a certeza física de que sairia dali, mataria Mauro e rebentaria os miolos a bala.

*-*-*-*-*

A tarde descera num imaculado azul lá fora: era junho sem frio.

A sala sussurrante caía em sombra. A enfermeira da noite veio saudar a doente e acender as luzes centrais que espalharam dos abat-jours de vidro, sobre os leitos inquietos, uma claridade ofensiva. Apagaram-nas depois, para deixar somente ao fundo uma lâmpada pressaga.

Jorge ia e vinha, olhando tudo: a passadeira incolor, a marcar um caminho sem fim, entre as camas, as doentes largadas como trouxas, as convalescentes em riscadinho… Alma que o detivera, a princípio, junto ao leito, deixava-o agora.

Mas ele parecia perseguido por uma ideia. Achegou-se, ansiado, oprimido de soluços. Ficaram naquele silêncio de desastre.

– Alma! – exclamou ele. – Quero pedir-te uma coisa… Crês em Deus, eu também. Tenho, desde criança, uma oração miraculosa. Vamos rezar juntos!

– Quero – disse a enferma, pondo nele os olhos verdes, magoados e distantes.

Então, no murmúrio da sala, Jorge leu em um papel o Salmo 90 de Davi. Alma acompanhava-o em tom frágil, de mãos juntas sobre os seios. Jorge tinha inflexões ardentes que se perdiam no sussurro das febres. Depois, a dela seguia, crédula, terna, suplicante.

– “Ele é o meu Deus, Nele porei toda a minha esperança, porque me livrou dos laços dos infernais caçadores e da rigorosa palavra. Ele te fará sombra com Suas asas e tu esperarás debaixo de Suas penas. As Suas verdades te cercarão como um escudo e não te perturbarão os temores noturnos, nem a seta que voa de dia, nem o ar contagioso que anda nas trevas, nem o encontro do demônio meridiano…”

Houve uma pausa. A doente reabriu os olhos marinhos, líquidos de lágrimas. A oração continuou calorosa, no desespero crescente de Jorge, entrecortada nos lábios frouxos de Alma.

– “O mal não chegará para ti. O flagelo estará longe de tua casa, porque, em teu favor, Ele mandou os Seus anjos que te guardarão em todos os teus caminhos…”

No corredor matinal, Irmã Maria interpelou-o.

– Escute, senhor. Por que não chama um padre?

– Ela morre?

– Não digo isso. Tenho visto outras assim se salvarem.

– Assim… nesse estado?

– Nesse estado.

– Mas o doutor me falou em peritonite…

– Ela está passando mal, precisa de conforto. Consinta que eu traga o nosso capelão, um padre velho…

– Amanhã – respondeu Jorge, abstrato.

*-*-*-*-*

A noite passou-se na mesma desesperança. Ele dormiu como sempre, na polé de uma cadeira exígua.

Irmã Maria veio muito cedo. A temperatura continuava alta. Os vômitos reapareceram. Reapareceram as dores fulgurantes e os soluços. A respiração era intercadente, oscilada. Jorge, que acompanhara a freira até o corredor, disse-lhe: – Traga o padre, mas avise-o de que não a assuste.

*-*-*-*-*

O doutor apareceu às nove horas. O capelão idoso, muito limpo na sua estreita sotaina, seguia-o.

– Trouxe-lhe um amigo – disse o médico à enferma.

Ela sorriu, vendo o sacerdote que se adiantava, falando:

– Minha filha… vai sarar logo… Está melhor?

– Assim… – murmurou ela.

– Então. Coragem! prosseguiu ele sentando-se à cabeceira do leito. Isto vai passar…

O médico apressado, no seu grande avental, afastou-se. Alma continuava a sorrir meigamente para o confessor. Jorge deixou-os, seguiu o doutor, interrogando-o. Tinham saído para o corredor.

– Só um milagre…

– Está perdida?

– É a minha opinião. Não pudemos debelar a peritonite. Houve ruptura das trompas na queda. Avisou a família?

– Ela não tem família.

– Esperemos um milagre – disse o médico despedindo-se.

Jorge voltou. Percebeu que Alma se confessava. Um soluço longo convulsionou-o todo. Atravessou vivamente a passagem entre os leitos e aproximou-se numa violência de choro.

O padre absolvia a doente reanimada, segurando-lhe a mão. Com passos vacilantes, Jorge ajoelhou-se junto à cama. E dilacerado de dor íntima, com a voz cortada, pediu perdão. O padre procurava levantá-lo, contê-lo, mas ele insistiu num tumulto de lágrimas:

– Perdão! Eu quero que ela me perdoe.

Tinha a máscara, torturada, franzida, lavada de pranto. Alma olhava-o comovida, sorrindo.

– Não, meu filho – disse enérgico o padre – Jesus perdoou tudo, basta!

Jorge debruçou-se sobre a mão de Alma: ela acariciou-o sem forças. E ele ficou ali, chorando aos pés do sacerdote.

*-*-*-*-*

A peritonite progredira, frustrando a drenagem laparatômica. Jorge, desiludido, num enlouquecimento, esperava ainda um milagre. Toda a sua fé infantil voltara. Deus podia tudo, podia também ressuscitá-la da começada agonia, extinguir-lhe a febre maldita, reter aqueles espantosos vômitos inúteis. Faria promessas doidas, surpreendentes.

– Senhor de Pirapora! Esculpirei o vosso milagre para a Sala das Graças! Subirei de joelhos o vosso altar carregando-a!

A freira veio acordá-lo do seu canto. Ele olhou-a com olhos vagos, assustados, sem compreender.

Ela havia trazido uma vela de cera já gasta por outros agonizantes e um pequenino livro preto de orações.

Seriam dez horas da manhã. A luz era doirada e azul. O médico ordenara que se abrisse a janela próxima para o jardim cheio de árvores. Lá fora o céu alto faiscava.

A enfermeira aproximou-se e logo depois o padre apareceu. Então, no silêncio que cortava a respiração opressa no leito, a voz de Irmã Maria ergueu-se numa fieira de preces.

Duas lágrimas isoladas correram pela face agônica. E, de novo, a voz pertinaz e cantante da freira elevou-se na glória matinal que enchia a sala.

Era uma ladainha que o padre acompanhava e, na distância, as convalescentes repetiam:

Santa Mãe de Deus

– orai por ela!

– Santa Maria Madalena

– orai por ela!

A litania ressoava: era um supremo apelo aos santos pontífices, aos confessores, aos monges e eremitas. Súbito, mudou:

– Sede propício/ Perdoai-lhe Senhor! Por vosso nascimento! Por vossa cruz e paixão!

A angústia dispnéica parecia crescer na cama, alongar-se, aflitiva, sufocante.

A freira acendeu a vela benta, chamou Jorge que se atirara de bruços na sua cadeira. Ele veio trôpego, colocou o círio na mão desfalecida de Alma, e, de joelhos, seguiu as orações.

A freira, ereta, apostólica, exclamava:

– “Parti deste mundo, alma cristã! Em nome de Deus padre onipotente, que vos criou; em nome de Jesus, filho de Deus vivo que por vós padeceu; em nome do Espírito Santo que se difundiu em vós; em nome dos Tronos e Dominações; em nome dos Principados e Potestades; em nome dos Querubins e Serafins…”

Jorge d’Alvelos não se reteve mais. Apertando frouxamente o círio na mão do seu amor agonizante, soluçou. Eram dois haustos de respiração violenta, incontida, que o tomavam, uniformes, isócronos, como se um braço invisível e de ferro o sacudisse implacavelmente pelo peito! Percebeu através da cortina de lágrimas, ao seu lado, os circunstantes. Eles permaneciam extáticos como modelos, em composição escultural, para um grupo da Desgraça.

Alma entrara em agonia. Com os olhos imobilizados para sempre, da garganta saíam-lhe sons enrouquecidos e surdos…

Houve um ligeiro tumulto. O padre erguera-se, aproximara-se. E de pé, engrandecido no quadro começou:

Kyrie Eleison!

Christe Eleison!

– Kyrie Eleison!

A doente agitava-se. Teve uma primeira contorção dolorosa de máscara.

– Vas espiritualis!

Rosa mystica!

Turris Eburnea!

Domus Aurea!

Foederis Arca!

Janua Coeli!

Janua Coeli!

Ela morria. Teve uma contorção mais dolorosa.

Janua Coeli! – clamou de novo o sacerdote, no silêncio horrível, de braços erguidos, nervosos, como a sacudir gonzos invisíveis.

E ela acalmou-se de repente. Partiu na direção da porta que o padre fizera estremecer e abrir-se, enquanto carrilhões a segui-la cantavam a glória de Deus na manhã.

*-*-*-*-*

Pelos vidros do táxi parado, Carlos Bairão que vinha com Torresvedras, viu o chauffeur e o guarda vermelho e rapado do largo portão dos fundos da Santa Casa se disputarem sem resultado. Gritou com raiva, pela janela, que era para o enterro.

O homem gesticulou justificativas e abriu lentamente, desvendando no terreiro, junto ao necrotério, dorsos negros e luzidios de cavalos emplumados e um carro com doirados no oblongo da caixa.

Desceram os amigos de Jorge d’Alvelos que o tinham deixado no quarto da Avenida São João, em companhia de Bruno e Mario de Alfenas.

E pela escada exígua, subiram até a parte inicial da capela mortuária, reservada aos pensionistas, que a piedade vigilante de Irmã Maria conseguira para o cadáver de Alma.

Dois internos do hospital, risonhos e moços, saíam dialogando.

Carlos e Torresvedras penetraram e viram um caixão sob um altar elevado, onde quatro velas, chorando as suas últimas lágrimas de cera, se apinhavam ante um Cristo de latão. Entre os castiçais, o Cristo, na cruz desmesurada de pau preto, parecia pregado ali, inutilmente, ironicamente, havia vinte séculos:

Outra mesa sustinha outro caixão, ainda recoberto pelo pano xadrez da casa funerária.

Torresvedras abriu o que se achava junto ao altar.

E numa capa celeste, sobre a roxa túnica, de olhos apagados e a expressão de quem suplica eternamente, por dores eternas, Alma d’Alvelos, desaparecida na magreza do próprio corpo invisível, parecia o cadáver de Nossa Senhora.

Apenas o nariz se lhe tornara mais adunco, a boca entreabria-ser chorando imutavelmente, as mãos não se viam sob a ampla capa da mãe de Jesus.

Um bafio denunciando podridões iniciadas fez os dois homens recuarem, fechando a morta. E como viesse Irmã Maria, ataram o caixão e tomaram as alças finas, auxiliados por um negro gordo que guardava os cadáveres e pela figura ensebada e velha do gato-pingado solitário do carro.

Fizeram passar o caixão pela abertura apropriada das grades. Gente vestida de riscadinho, convalescentes idiotizados das enfermarias, paravam vendo. Irmã Maria ficou compungida à porta do necrotério.

*-*-*-*-*

Houve uma expectativa respeitosa. E conduzindo-a, a carruagem de segunda classe, no garbo emplumado dos quatro cavalos, negros e sólidos, no ouro dos arabescos e das colunas, saiu numa apoteose.

O táxi levando os dois rapazes rolou atrás.

E logo, homens que passavam descobriram-se. Adiante, um senhor grisalho parou e tirou o chapéu. E nas calçadas das ruas, grupos operários que iam, moços petulantes, velhos e meninos saudavam também.

Carlos Bairão pensava que a morte era um triunfo: a repudiada de ontem, a só, a rapariga, ia ali tirada pelo trote possante de quatro cavalos, num coche preto e doirado, e todos instintivamente se descobriam.

O carro fúnebre rolava nas pedras, o táxi fungava atrás. O dia nublado de junho apagava as cores e as linhas.

De repente, Torresvedras moveu-se do seu canto, falou com a voz grossa, pegada na garganta:

– E agora?

Não disseram mais nada até o Cemitério. E o coche cantava nas pedras perguntando. E o táxi fungava atrás perguntando.

Carlos Bairão comprou uma maçaroca ridícula de saudades à porta do Araçá.

O florista, descarnado e solícito, ajudou-os a tirar o caixão, com o gato-pingado velho, lamentoso, numa sobrecasaca de ministro anglicano.

Na capela alta, com vidros de cores baralhadas, descobriram de novo a morta. Tinha o grande pescoço torcido pela marcha, a cabeça de cobre fulvo despencada e continuava a súplica perene no manto celeste de Nossa Senhora.

As manilhas do caixão cortavam os dedos dos quatro homens na imensa caminhada. Haviam penetrado por entre árvores funéreas e agora desciam a encosta terrosa dos mortos sem nome que têm covas alugadas.

Dois sapadores burocráticos, inexpressivos, nos uniformes municipais, vieram tomar o caixão.

Atiraram-no por cordas ao fundo de uma exígua abertura, junto à sepultura esquecida do avô que se chamara Lucas d’Alvelos. Carlos Bairão depositou o maço de saudades sobre o chão removido de fresco. Torresvedras quis contar os túmulos para saber facilmente a distância da primeira aleia, mas achou inútil.

À saída, depois das gorjetas, o florista polido e fúnebre, que acompanhara sempre os amigos do escultor, propôs:

– Se quiserem, eu posso fazer também uma cruz de cimento.

*-*-*-*-*

O cadáver nu, de cabelos atados numa toalha, foi levado, cautelosamente, até a parede do imaginário atelier.

Ele apanhara-lhe o dorso, despencado em ligeira curva. Um velho felino, barbudo e de boca furada, conduzia de costas o cortejo, tomando-a pelas axilas, e um grande diabo, ossudo, levava as pernas geladas para sempre.

Depuseram-na no estrado de pau, inerte e dura, murcho o ventre acima do triângulo negro e simbólico.

Depois, começaram a crucifixão.

Para lá, na vastidão respeitosa da sala, havia estátuas atadas aos punhos para trás, com retorcimentos fixos, todas recobertas como imagens em Semana Santa.

E havia ânforas e flores.

Iam crucificá-la na parede nua e branca. O velho levantando-a pelos inúteis seios, dava ordens impassíveis.

O outro batia já o seu longo prego. E apenas o braço que lhe haviam entregue, a ele, endurecera e resistia, empurrando-o para trás.

O velho esperava. O outro tinha uma cabeça de fúria. Era preciso dominar a consciente resistência do braço. Aos repelões o membro em ângulo cedeu, aceitou a linha reta da cruz, num craque-craque de ossos internos. Ele tomou o martelo e o prego longo, bateu a primeira pancada inútil na palma cartilaginosa. E dizia que era preciso haver mártires.

O velho atravessara vitoriosamente a mão que prendia. O outro baixara-se a perfurar os dois pés sobrepostos na mesma agulha de ferro.

Ele então bateu. E houve um tinir repetido de aços, apagado pela repulsa de borracha dos membros anquilosados e murchos.

*-*-*-*-*

Salpicaram gotas glaciais como remorsos nos braços musculosos e nus dos crucificadores.

E a cabeça de frango virou, o corpo suspenso desceu num peso bruto, alargando as chagas nos pregos e pondo em relevo estrias de panos, de nervos, de costelas.

Então, abriu-se a porta e um esplêndido homem nu, coroado de folhas, apareceu e gritou como um arauto.

– Sangue frio!

Ela permanecia toda estilizada na parede, que ficara como uma cruz de mil braços…

E Jorge d’Alvelos viu que era o cadáver de Alma que tinha crucificado para estudar anatomia… Ela despregou as grandes postas rachadas, latejantes, viva para ele…

O escultor abriu os olhos na escuridão de seu quarto. E percebeu a madrugada neutra num silêncio de vidas estranhas.

Onde estava ela? Escorregara-lhe dos braços aflitos. Onde estava? Levantou-se da cama num salto. Ela fugira…

Atirou-se para a porta: permanecia fechada na noite. Voltou, bateu os ângulos desertos, foi ao leito. Pareceu-lhe vê-la ainda. Levantou os lençóis, o colchão: não estava.

Estava longe. Onde? Na enfermaria. Não, mais longe. No necrotério. Não, mais longe. Na cova…

Jorge d’Alvelos sentou-se. Viu descer no escuro, num desequilíbrio sobre os ombros que tinha aconchegados, um mundo bruto e apagado de formas.

*-*-*-*-*

Pensativo, misantropo, nervoso, Jorge d’Alvelos saiu, depois de duas horas da tarde, do seu quarto da Avenida São João. Estava um tempo inconstante. Havia chovido, agora ficara claro. Uma ponta de sol varava a cinza do céu, fazendo brilhar as poças de lama das ruas, os trilhos dos bondes.

Jorge dirigiu-se lentamente para o Triângulo central de São Paulo. Subiu a ladeira íngreme e penetrou de repente na Praça Antônio Prado. Ia dizendo consigo: – o sobrenatural existe dentro de nós. A vida com Deus é hipócrita, sem Deus é cínica.

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.