Os Condenados: nono trecho da trilogia de Oswald

140721_Edvard Munch, Separation

“Um demônio novo, pouco a pouco, ia tomando conta dele, persuadindo-o, convidando-o. Na penumbra tonta, ao seu lado, Alma permanecia nua, no pijama sobre a carne.”

Por Oswald de Andrade | Imagem Edvard Munch

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados.
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Na sequência anterior, Jorge d’Alvelos, primo de Alma, volta ao Brasil. Artista ignorado, o escultor arma um atelier, seduzido pela mudança de ambiente. Fica horrorizado com artistas e críticos que conhece. Suas tendências para a escultura revelaram-se ainda no Amazonas. Alma resolve posar para Jorge. Ele a procura com força apaixonada. A jovem se retira. O aparecimento de Alma é um aviso de devastações e prazer. Fazem viagem a Barueri. Mauro Glade está no mesmo trem: combinaram de se encontrar. Alma não deixaria nunca de amar esse homem. Na pequena cidade, um ajuntamento colorido de feira. Mulheres mascaradas de gesso, prostitutas de São Paulo, famílias ingênuas, negras de trunfa. E o batuque guerreiro na sombra do samba: o tambor seco, igual, com o caracaxá e o ribombo longínquo do bombo. Era Pirapora. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60)

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Estava na lama da rua, indeciso de novo. Um sino feriu uma pancada forte e trêmula na torre enorme. Fez a volta do templo, recordando. Regressou ao hotel: o empregado encontrava-se de novo à porta.

TEXTO-MEIO

– Temos um pedido para a noite…

– Quem é?

– Um casal.

Como ficasse sentado longamente, não tendo ânimo de ir ao quarto, onde cairia sem solução no drama que o dilacerava, o homem falou-lhe:

– O senhor veio cumprir promessa?

– É.

Jorge pensou em tomar informações a respeito de Mauro, talvez fosse conhecido ali, mas achou-se ridículo e perguntou quem era o senhor que tinha chegado.

– Fazendeiro em São Simão. Já no tempo da defunta D. Augusta, ele vinha visitar o Senhor Bom Jesus.

Uma vontade saudosa apertou-o. Por que não iria lá em cima ao colégio da meninice? Por que não se dissolveria no chamado das orações?

Do Brasil todo, corriam para ali, numa confiança secular, os pais, as mães, as mulheres salvas de maus transes, os homens que tinham tido dramas na vida. Vinham todos inundar a Sala das Graças de fotografias até o teto, rostos de cera, mãos, torsos, pinturas ingênuas de chagas.

A imagem das águas, o Senhor dadivoso, de grandes pálpebras erguidas sobre o fulgor de eternidade, inundava-os de socorros invisíveis. E ele? Como voltara até o santuário?

*-*-*-*-*

Tinham saído para fora, onde o samba dos homens se despedaçava sob o samba das estrelas. A lua dançava muito negra no espaço. E o rio, espumoso e noturno, dançava.

A uma esquina, um grupo de carnaval ia e vinha, com música e folhagens, festejando uma dúzia de homens alinhados, impassíveis, soberanos. Era a esmola de um baile perante um acampamento de morféticos. No auge da competição dos corpos rítmicos, os dançarinos convidavam os lázaros com gestos. Mas eles sorriam apenas, extáticos, envolvidos de xales, com sorrisos longínquos, onde se escarrava a saudade da carne roída dos narizes, das orelhas, dos olhos.

Depois foi o revolto fim e um grito dos mutilados lentos:

– Deus lhes pague!

Alma pediu a Jorge que a levasse à bacanal noturna do Barracão. Penetraram na quermesse de luz mortiça, espaçada, onde trovejava o ribombo do bombo. Subiram. Parecia um palácio de colunas infinitas, onde uma luzida mascarada de negros festejasse.

Súbito, diante deles, o anão de piche abriu círculo, dançou. Era uma metade lépida e preta, grudada com tenazes de mãos em ancas polpudas que vibravam. Sob o chapéu enterrado até a boca de dentes imensos, as pernas trabalhavam, batiam os pés básicos, enlameados e enormes em vaivéns de samba e de maxixe.

E o coral empolgante, religioso, gritava de toda parte, por cem peitos metálicos de fêmeas e de machos, num desfalecido estreitamento de ancas e de sexos.

*-*-*-*-*

Na hipnose lúbrica do quarto silencioso ele sentia-lhe o hálito, os beiços carnudos. Apertou-lhe o rosto com as duas mãos. Ela cerrou os olhos.

– Amas ainda…

– Amo-te!

– E por isso arrastas-me a uma viagem em que devias ser dele?

Ela então perguntou:

– Queixaste?… Foste tu o ladrão…

– Nasceste para mim.

– E provocas ainda o homem roubado…

– Matá-lo-ia.

– Serias capaz? – sussurrou ela, de olhos interrogativos, a boca descerrada.

– Matar?

– Matar.

Uniram-se. Embolaram-se no leito.

*-*-*-*-*

Jorge d’AIvelos ficara a um canto num tomborete.

O apartamento que havia tomado para ela, depois da prometida renúncia, era entre silêncios e barulhos longínquos de bondes, num primeiro andar da Rua Scuvero, no Cambuci. O quarto atravancava-se de vasos, craiões, flores e livros – recordações trazidas da Europa pelo artista.

Um enorme abat-jour de ouro descia exageradamente a luz, encerrada num círculo, sobre um tapete central.

À janela do estreito patamar aéreo para o jardim mal cuidado, uma cortina branca enquadrava a silhueta vermelha de Alma.

– E falaste-lhe…

– Que remédio…

Voltara-se, crescera sorrindo.

– Responderei então à carta de Roma.

– Ela te visitava?

– Como tu.

– Ia ao teu atelier?

– Como tu.

– Foi tua amante?

Ele baixou a cabeça. Ela disse:

– Responde! Eu volto ao meu amor.

– És digna dele!

– Cala-te, Jorge. Faz hoje um ano que nos encontramos.

Jorge recordou a tarde em que a vira no Correio, pela primeira vez, depois da longa separação.

– Oito horas! – prosseguiu ela, desmanchando os cabelos. E atirou-se num salto pesado de gata, ao leito.

De fora, de um quartel vizinho, vinham sons de corneta na noite de ressonância. Depois, foi um brum-brum-brum de tambores. E a corneta, mais clara, cortou insistentemente o silêncio.

– Ouves? – fez Jorge, de pé, num súbito carinho. – Esta noite de recordação permanecerá na nossa vida. Escuta como se recortam bem essas notas, como tocam profundamente esses tambores… tudo para ficar gravado.

E aproximando-se, convincente:

– Como me falam os teus olhos! Rodeia-os uma inquietação.

Houve um silêncio persuasivo.

– Deixarás de ser a boneca que foste! Vê como é triste ser uma boneca… Que foste até agora? A boneca maltratada dos que te formaram longe de mim; depois, a boneca dele, desse salafrário! E a tua consciência, que é a minha consciência, morta, apagada, inútil! Será preciso que leves a minha vida para acordar em ti a mulher que és?

Ela murmurou:

– A boneca morreu…

– Quando?

– Agora. Não ouviste o funeral de tambores?

– Alma! – gritou Jorge, querendo beijá-la toda.

E ficaram escutando a corneta que tocava, cheia, sonora, na noite de estrelas.

A fanfarra de quartel cessou num último tru-tru! tru-tru! de tambores. E no silêncio inesperado, a voz dele cresceu, alongou-se emocional.

– Fiz-te passar pela coisa mais bela da vida… – exclamou ela.

– Por que?

– Pela desgraça.

– Alma!

– Beija-me agora e vê como é bom.

– Que lindo teatro!

Riram ambos. Houve um silêncio jucundo. Jorge d’Alvelos buscou seu pijama de listras numa cadeira, entre vestidos atirados. E apertou o botão da luz, dizendo na escuridão ainda doirada:

– Representamos bem hoje. Toca para a frente o nosso carro de ciganos!

*-*-*-*-*

Carlos Bairão promovia uma excursão a Santos, naquela noite enorme de lua.

Jorge d’Alvelos recusara-se a ir sem Alma. E numa efusão os amigos que tinham acabado de jantar num gabinete comum do Pierrot, decidiram buscá-la.

Além de Carlos e de Jorge, havia Mário de Alfenas e seu irmão Bruno.

A Cadillac foi tomar essência. E, conduzida por Carlos Bairão, deixou o centro da cidade pelo Largo da Sé.

– Vimos roubar-te para ir a Santos, disse Jorge, entrando.

– Em trem especial?

– No meu trem de setenta cavalos – anunciou Carlos que subira também.

– Vamos sós?

– Com os dois Alfenas.

– E o chauffeur?

– Eu mesmo.

– Vai fazer-nos derrapar na serra?

– Consequências de uma aposta – fez Jorge. – Como choveu toda a semana e a estrada está horrível, Bruno de Alfenas apostou uma ceia com champagne como Carlos não era capaz de descer a Curva da Morte com o pé no acelerador.

– E nós vamos nos prestar à experiência. Lindo! Vocês vão me esperar no auto…

Beijaram-lhe a mão e saíram para o escuro onde o carro estacara.

Ela veio muito grande, toda em jersey, recostou-se entre Jorge e Mário de Alfenas, ao fundo.

Sentado ao volante, tendo ao lado Bruno, Carlos saiu.

Conversando, passaram a garganta populosa do Lava-pés e tomaram a estrada do Ipiranga. Houve a primeira parada à saída de São Paulo: um homem com sono veio examinar e viatura sob o arco de ferro iluminado. Penetraram no estirão fofo e duro do Caminho do Mar. Num rasgar de bandeiras desfraldadas, Carlos Bairão gritou:

– Cento e noventa à hora!

A flâmula branca da Hípica Paulista fremia sobre os holofotes. Desceram de repente. Subiram. Tinham atingido as primeiras luzes de São Bernardo em dez minutos. Passaram, alcançando logo a atmosfera fria da Serra.

Bruno de Alfenas, voltado completamente para o banco do fundo, contava um passeio sensacional que fizera com o pintor Meira, o músico quieto Torresvedras e o impagável Barrinhos, todos bêbedos.

– O Meira bateu o recorde quilométrico do vômito. Foi molhando o caminho todo. Na Serra, o auto, um velho Hupmobile, guiado por um motorista de praça, virou sleeping-car – todos dormiam, inclusive o chauffeur. Resultado: demos de banda numa pedra e foi preciso terminar a viagem a pé. Pela estrada, o Barrinhos queria convencer o Torresvedras de que o devia pôr em ópera. Quando chegamos ao Largo do Rosário, às cinco horas, o Meira exigiu uma farmácia, senão morria. O Barrinhos, muito míope, viu uma porta acesa e levou-o para lá – era um açougue!

Riram todos. Apenas Alma conservava-se silenciosa e recurva. A descida fazia-se com súbitas derrapagens. Brecado, o carro guinchava perigosamente no declive. Subia do escuro um cheiro forte de borracha queimada contra o cascalho e à direita, abriam-se vales onde boiavam estiradas copas de árvores. A uma volta panorâmica, as luzes de Santos desenharam-se ao luar, perdidas num mapa de enseadas e montanhas. O auto marchava com velocidade cautelosa, contornando-os de repente sobre despenhadeiros sem fundo. Calavam-se agora os viajantes e da Serra vinham vozes de água e de folhas. A lua parecia muito próxima, acima da barranqueira.

Súbito, Jorge percebeu que a mão de Alma tocava ligeiramente a mão de Bruno, sempre Voltado para eles; e teve um recuo para o seu canto. Alma achegou-se também. Bruno pôs-se de novo a falar, repetindo os perigos que passara ali

Jorge sentia um mal-estar profundo e um ódio torvo invadirem-lhe o peito. Alma apertou-se mais contra o seu ombro. Num incontido gesto, ele enterrou-lhe as unhas na carne do braço. Ela não teve um gemido, um movimento de defesa.

O auto continuava a fazer ladeiras em curva, por entre enormes árvores pasmadas. Saiu, embaixo, no caminho estreito do Cubatão. Veloz agora, deslizava pela madrugada na direção de Santos.

– Que tens? – sussurrou Alma a Jorge.

– Nada.

Haviam atingido a estrada lisa, de pedra socada, beirando a cerca da ferrovia.

*-*-*-*-*

Jorge d’Alvelos sentia mais uma vez que não podia abandoná-la. Atirado de novo ao chão, no conjunto amado, debruçava a cabeça, sobre o colo preferido, que uma saia de gabardine branca, com largos botões, fechava.

De fora, no meio-dia azul, vinham baques repetidos de roupa, num tanque.

Sentada no leito, ela foi mansamente descobrindo os agasalhos íntimos, e ofereceu-lhe as coxas, entre rendas, para a carícia habitual.

À luz filtrada, eles descansaram ali numa reconciliação insistida e feliz.

*-*-*-*-*

Alma entrara com a carta amarrotada na mão, pela vingadora manhã, no atelier do Palácio. E disse:

– Sabes quem me perseguiu até aqui?

– Quem?

– Mauro.

Num irrefletido susto, não querendo por nada perdê-la, o escultor pensou num segundo em fugirem ambos para outros tumultos de cidades, onde ele os ignorasse. Ia propor… Mas ela ria, grande, fulva. Tinha mentido. Jorge devorou a carta. Era dele, despedindo-se, datada de bordo de um paquete americano.

*-*-*-*-*

Tomara nas mãos o seu antigo vigor.

Ao tocar o Brasil, compusera, num estouvamento, o grupo de As Amazonas e o Cavalo que passara logo em gesso.

No ímpeto da luta com a resistência de Alma, viera A Fonte da Vida.

Fora sempre um fragmentário. Em torsos quebrados, metades, estudos largados, concentrava numa predileção alegre e constante, a força reveladora de sua arte. Era um criador de mutilações.

O vasto atelier compunha-se assim: para lá em branco, as Amazonas com o animal; no cavalete central, a estátua de Alma, e esboços e trechos e torsos e bronzes vindos da Europa e fotografias das exposições e ânforas altas.

Alma aquietava-se em silêncios felizes, no divã de flores monstruosas, mãos perdidas entre os joelhos. Ele vinha beijar-lhe os olhos. Ela recusava-se a acordar daquela perplexidade de êxtase contente, na luz das manhãs.

*-*-*-*-*

E ele seguiu-a sem ser visto pelas ruas centrais de São Paulo. Havia chovido. Passara por ela num momento de acaso e não fora percebido. Decidiu então segui-la à distância, numa delícia de admiração ingênua. Onde iria? Ao Palácio das Indústrias decerto.

Alma trajava um vestido suave, onde, da gola redonda, das mangas secas, emergia a carne viva. Marchava sem pressa e seu chapéu vermelho e copado flutuava acima das cabeças, no movimento da tarde, na Rua 15 de Novembro.

Cortou direito o Largo do Tesouro, atravancado de bondes e vendedores de jornais. Jorge teve uma ligeira surpresa. Por que não descera na direção do Palácio? Talvez fosse para casa, sem lhe fazer a visita habitual. Ela estava agora perto do Largo da Sé. Não dobrou a Rua Direita, enveredou para os lados do Carmo. Ele sorriu satisfeito; ela iria ao Palácio das Indústrias e, numa fantasia de criança, escolhera o caminho mais longo.

– Chapeuzinho vermelho! – murmurava seguindo-a.

Ela ia descer pela ladeira íngreme do Carmo, até a várzea ajardinada. Tomou a Travessa da Sé.

Mas ela não desceu a ladeira curta do Carmo; tomou para a frente, dirigindo-se no mesmo passo tranqüilo e lento até a Rua da Boa Morte. Jorge deixou entre ambos maior distância. Havia poucos transeuntes. Ela passará a igreja e o colégio. Ele acompanhava-a surpreso, temendo ser visto.

Súbito, Alma parou em frente a uma casa baixa. Um moço saía. Ela interpelou-o. Ele voltou, fez a chave correr na fechadura. Ela desapareceu. Ele fechou de novo a porta e veio na direção do escultor. Ia passar por ele. Jorge interrogou-o.

– Pode dizer-me se mora naquela casa o Sr. Mauro Glade?

– Não conheço.

– Não é a casa dele?

– Não. É uma garçonnière de rapazes…

Fora andando. Jorge estacara. Numa obsessão eufônica, voltava-lhe cem vezes a frase que vinha dizendo: – o lobo te espera! o lobo de espera!

Num ímpeto, alcançou a porta, bateu; Alma assomou à janela ainda de chapéu.

Depois, veio calmamente, abrir.

– Que vens fazer aqui?

– É a casa de uma amiga. Queres entrar?

Jorge penetrou. Um corredor extenso levava até o fundo indeciso.

– Não vale a pena – fez ela.

E saíram, batendo a porta.

Voltaram em silêncio; um silêncio que se seguira à estupefação rápida de ambos.
Começou de repente a chover. Ocultaram-se meia hora, calados, a uma porta de sobrado. Depois, puseram-se a andar na mesma vaga direção.

*-*-*-*-*

Dois dias vieram e foram, inflexíveis e inúteis. Jorge engolia distâncias, descia alamedas, contornava praças animadas de algazarras infantis, perdia-se em bairros longínquos.

O seu raciocínio emperrara numa conclusão tremenda: Alma traía-o, entrara numa garçonnière, ele vira-a entrar, retirara-a lá de dentro. Não havia sofisma que a pudesse defender. Alma traía-o.

Subitamente, tomou um elétrico que passava para o centro. Desceu no Largo da Sé, esperou passeando para cá e para lá. Com um rumor surdo, chegou um bonde do Ipiranga, cheio de gente. Subiu, sentou-se. Ia vê-la pela última vez. Queria apenas que ela confessasse. Não obtivera nada do seu obstinado silêncio na volta daquela tarde. O bonde passou o Largo João Mendes desceu pela Rua da Glória.

Jorge apeou um quarteirão antes, tomou a Rua Scuvero e entrou rapidamente em casa.

Alma estava sentada no leito, mal vestida, na penumbra morrente. Continuou pregando a uma calça um largo monograma azul.

Jorge começou:

– Alma, não quero mais do que uma palavra tua, uma palavra de confissão. Perdoarei se a disseres. Não há nada de pior na vida do que a incerteza. Fala, conta! Tens um amante?

– Tenho.

– Quem é?

Alma erguera a cabeça, largando o trabalho, file sentou-se a uma cadeira.

– Conta!

– Um velho conhecido – disse ela.

– Um velho amante?

Ela calava-se.

– Esse telegrafista de quem me falaste no Jardim da Luz, nos primeiros dias…

Duas lágrimas involuntárias despencaram dos cílios baixados de novo.

– Ele?

Ela fez um gesto que não.

Houve um enorme silêncio.

– Quem é? Por tua mãe morta, fala!

– Um rapaz.

– Como se chama?

– Artur.

– Que faz?

– Não sei. Sei apenas que conversa muito bem e dança muito bem.

– Onde o encontraste?

– Na rua.

Calaram-se. Jorge sentia um aniquilamento definitivo cortar-lhe a vida.

– Como chegaste a ir lá?

– Tinha o endereço.

– E foste procurá-lo?

Insultou-a pesadamente. Alma não se moveu, olhando o tapete numa fixidez insensível

– Mas como foi? Como? Por que? Não te bastava o teu cáften?

– Nunca te traí com Mauro…

– E traíste-me com outro, agora, quando eu pretendia ligar para sempre a minha existência à tua… Perdeste-me… Perdeste-me…

A noite vinha de fora. Alma levantou-se, ficou toda nua, grande, fulva. Pôs um pijama de seda e veio enroscar-se no fundo do leito.

Uma mole sensualidade quebrava o corpo de Jorge. Deitara-se ao lado da amante poluída. O contato de uma anca, sob a seda, interpelou-o.

Um demônio novo, pouco a pouco, ia tomando conta dele, persuadindo-o, convidando-o. Na penumbra tonta, ao seu lado, Alma permanecia nua, no pijama sobre a carne. Jorge perguntou-lhe:

– Como te entregaste?

– Ia passando, ele estava à janela, fez-me entrar.

– E depois?

– Foi mostrar-me o quarto. Sentamos ao leito, para conversar. Uma aranha pequenina assustou-me. Ele riu, dizendo: araignée du soir, espoir! E deitou-me.

Jorge, tomado de uma volúpia espantosa, ao ouvir a cínica narrativa, queria minúcias, obstinava-se de dentes cerrados.

– Foi para mostrar os dessous novos que te entregaste?

A sua mão, fazendo-se automática, atingira-lhe o pijama que se rachava frouxamente. Ela deixou-se acariciar, acariciou-o também, com as mãos longas e brancas. Mas de um salto Jorge levantou-se, fugindo ao espasmo diabólico que o tomava. E ria agora num doloroso esgar:

– É a vida!

Veio de novo, disposto a torturá-la. Cingiu-lhe os seios com as mãos numa violência de bruto. Ela gemia, fugindo. Ele atacava furioso. Agatanhara-lhe a garganta.

– Pede-me perdão! pede!

Ela recusava-se, gemendo sempre. Pequeninas lágrimas apontaram-lhe aos cílios; e gritou afinal na sombra, sentindo-se esganada:

– Perdão!

Largou-a e fugiu para o patamar. Descera. Parou um instante à esquina. Depois foi-se, alquebrado e triste.

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.