Os Condenados: quinto trecho da trilogia de Oswald

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Outras Palavras lança série de textos para celebrar escritor cuja obra parece cada vez mais atual, na Cultura e Política

“Ele obcecava-se pelos ambientes prostituídos. Onde estaria ela? Dormindo ao lado do outro, o que a comprara”

Por Oswald de Andrade | Imagem: Toulouse Lautrec

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados.

TEXTO-MEIO

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Na sequência anterior, Alma vagueia pela cidade com o seu filho no ventre. Nessa condição, pensa em se matar ou viver entre a gente simples. Vai atrás de Mauro, no bordel. Ele está de viagem marcada. Lá recebe um trocado para comer. Passam o dia juntos. Como ela não tinha mais como ficar em casa, o telegrafista arruma um quarto para a jovem morar. O velho Lucas sofre um colapso e morre. O ventre aumenta. Alma passa a vender serviços de costura. O telegrafista paga dedicadamente o quarto. A dor inunda-a na hora do parto e a criança nasce com a fita umbilical dos malsinados. Com o filho pequeno, Alma repudia todos os homens que conhecera. Ameaçava a criança uma leucemia perigosa. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60)

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Mingaus complicados, medidas eruditas de farinha, num vidro próprio com leite contado e puro, toda uma diligente combinação de fortificantes naturais, ocupava agora a cozinha pequena e negra.

Num estonteamento ruivo, de cabelos despenteados, e numa desenvoltura de toilette que revoltava João e acendia os olhos mortos do oficial de polícia, Alma corria pela casa, levando panelas, trazendo caldos, pondo leite a ferver. A sua beleza era esplêndida, dadivosa, naquela seminudez. A maternidade completara-a. No vestido leve, tinha as pernas roliças e perfeitas, as ancas curvas e cheias, os seios retesos.

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Uma manhã, fez um estardalhaço lírico de choros, de gritos, de risos.

Acompanhado pela bocarra aberta da mulher baixinha, de chinó, e pelo cão antigo, ela fez entrar no quarto o telegrafista surpreso e contente de ser lembrado.

– Veja o meu barriguinha de angu!

Levantava nos braços tontos um nu roliço de carne tenra, capaz de fazer inveja ao mais gordo São João de estampa.

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Inventara uma língua nova, passava horas a construí-la no tête-à-tête dos beijos com o pequenino ser de olhos espantados.

No vocabulário angélico, a colherzinha que o salvara, despejando-lhe no bico o remédio do vidro grande, assumira enorme importância. Era uma colherzinha de D. Genoveva, oxidada pelo uso. Chamava-se a Calalá. O Baubau era o cão bobo do avô. E a boneca velha e desengonçada, de cabelos hirsutos e olhos vesgos, que ela salvara da infância, fora batizada de Neca Caleluda.

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Ele ia fazer dez meses afinal. O tempo passara num espetáculo. Estava rijo como um pequeno deus. Mas a cabeça enrugava-se-lhe às vezes, sob o peso de tristezas obscuras. A mãe assustava-se, gritando. Ele choramingava sentidamente.

E vinha a reconciliação num dilúvio de beijos, de carinhos, de balbúcios.

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Trocava-lhe os panos molhados, continuadamente, nas noites calmas.

Queria, num descompasso de sacrifícios, que ele sujasse sobre ela, inundasse-lhe de pipi a face, a boca… Que importava? Era o seu reizinho.

*-*-*-*-*

Na data natalícia do velho avô, vestiu-se elegantemente, pela primeira vez. Foi ao cemitério levar flores e, ante o túmulo raso, teve uma crise silenciosa de lágrimas. João do Carmo acompanhava-a, de fraque, na manhã paulista.

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Passados os meses de incerta e doentia existência, conquistado o primeiro ano vitorioso da vida, Luquinhas levantou a cabeça e o corpo sobre as pernas roliças. E solene, modelar, em meio do corredor calado, deu um grito.

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Fazia-lhe maroteiras à noite. Não a deixava dormir num contínuo rolar de perninhas e braços e risos. Cansavam-se afinal, bons amigos. Ela deitava-o, cobria-o.

Apagava a luz. E, na sombra, cresciam e flutuavam para os olhinhos espertos, o Himalaia dos travesseiros maternos, a Calalá, o bico suculento da mamadeira, o navio que era a cama. E de redor, todos os bichos.

*-*-*-*-*

O Carnaval veio e foi. O Baubau do velho Lucas morreu latindo debaixo de um caminhão festivo que levava fantasias.

*-*-*-*-*

Na noite gelada de São João, depois da solenidade do batismo, que fora pela manhã, na Luz, com João do Carmo, grave, segurando a vela paraninfal, e D. Genoveva e o capitão luzido, Seu Julinho trouxe, para um choro comemorativo, caras macilentas de serenatistas.

*-*-*-*-*

Um alvoroço estrugia na cozinha – choros, risos, gritos. Luquinhas, que já andava pelos cômodos, fizera uma travessura. Alma erguia-o num arrebatamento, como se dez mãos ávidas e espertas o quisessem prender. E raptava-o em cavalgadas ciclópicas pela casa. Sobre a fulva cabeça que ria, ele era Rolando, era São Jorge, era o General Osório.

*-*-*-*-*

Depois de uma inacabada série de tombos macios, descobrira a vida, num trepidar de passinhos incertos.

Para erguer-se, punha para o alto o corpinho à mostra, depois, num esforço, endireitava-se. Estava em pé!

E achara o corredor, a porta, o mundo.

*-*-*-*-*

Agora, descobria-se a si mesmo. Verificara num pasmo que a cabeça mexia, a perninha dobrava, as mãos batiam. E tinha dedos duros, grandes, sempre molhados.

Às vezes, estacava no corredor sobre a velha passadeira e gritava numa verificação de ouvidos atentos. O eco rompia o encantado silêncio dos seus olhos pasmados e redondos. Numa surpresa edênica, constatara a própria voz. E ficava escutando-a.

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Sumia como um rato arisco. Estava aqui, ali, desaparecia.

Iam encontrá-lo trepado no caixote de sabão da cozinha ou afogando, no banheiro vario, a desgrenhada Neca Caleluda.

Na sala, D. Genoveva, de óculos, ria, pedalando a máquina de costura.

*-*-*-*-*

Melancolias começaram, no entanto, a baixar sobre aquela imóvel paz.

Alma sentia nervos. Batia em Luquinhas que, com a dentição, tinha impertinências e raivas. Faltava-lhe a alegria fisiológica, que dá o amor fisiológico. Aborrecia-a, nas longas horas semanais, aquele obstinado romantismo, sem último ato, do seu melancólico “pequeno”.

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Luquinhas começou a comer e a falar. Por manhãs inteiras, lambuzava-se de pão molhado numa grande caneca de café com leite.

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Mãe e filho passavam as tardes na horta exígua dos fundos.

*-*-*-*-*

Na magoada visita daquela noite, Alma pediu a João do Carmo que não voltasse mais. Para viver, bastava-lhe a costura que tinha, com D. Genoveva.

Ele saiu, chocado daquela ingratidão. No profundo íntimo, prometia a si mesmo desforras sensacionais do destino.

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Mas, deixando a criança com D. Genoveva, Alma apareceu, na tarde seguinte, no desbotado quarto da Avenida Tiradentes. E numa inesperada reconciliação, o amor perdido voltou, casto ainda, mas forte, ululante.

Quase noite, ele a conduziu pelas escadas longas, até a porta. Voltou.

Sentou-se e observou fixamente dois grampos retorcidos de ferro, que havia erguido do chão.

E recordou, numa impressão física que lhe repuxava ainda os lábios grossos de criança, o beijo que ela lhe deixara ao sair, toda lilás e ouro, num vestido curto. Recusara-se ainda, em prolongada queixa infantil, a ser a amante prevista, fatalizada, conquistada. E dissera que se havia de casar, pois estava mostrando que não era tão ruim como pensavam.

– Viu, João? Passei pela Rua dos Clérigos. Aquela mulher que falava muito de mim, no começo, você se lembra? está desesperada. A filha fugiu de casa com um chauffeur. E eu hei de mostrar a essa gente que ainda encontro marido.

– E depois de casada?

– Serei séria.

– Amas-me?

– Amo-te.

– Queres que te arranje um maridinho?

Ela viera, aconchegando-se num súbito frio, deitara-se toda em seu colo, confiante, calada.

Mas, fitando o veludo negro do antigo relógio de pulso, saltara a fim de pentear-se diante do espelho e colocar o turbante gracioso que comprara.

Tinham ficado olhando-se.

– Até quando? – interrogara ele, fingindo-se ainda magoado pela expulsão.

– Irás ver-me… à noite?

– Irei.

– Bom que ésl

E, depois, quebrando um longo silêncio de súplica:

– Quero um beijo, João.

– Não. Não seria honesto. Vais te casar…

Tomara-lhe as mãos finas e longas; enternecido, cobrira-as de beijos.

No fim das escadas, deixara-a ir só pelo corredor, ficara espiando-lhe os passos elegantes e sólidos. À porta, ela tinha estacado, sorrindo, à espera. Ele fora beijá-la na boca e vê-la partir, toda lilás e ouro, no vestido curto.

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E, pela avenida extensa, passavam vendedores de jornais, anunciando tragédias, bondes chiavam nos fios elétricos, recolhendo massas macambúzias de gente.

Do alto, a noite caía numa palidez precoce de inverno.

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No longo recolhimento a que se votara para o filho, ia perdendo o antigo gosto amargo e divino da vida. Sentia-se deselegante, sentia-se tímida. E precisava amar…

Mauro voltou-lhe como um estilete pelo coração adentro. Se o pudesse rever! Se o pudesse ressuscitar ali, um instante, na rua noturna, no seu antigo faiscar de cigarro, os passos americanos, a figura recurva.

Ao transpor a porta da casa velha, numa angústia, procurou inutilmente na criança, que palrava de braços estendidos, uma ruga, um detalhe evocativo, uma graça máscula que o lembrasse.

*-*-*-*-*

Luquinhas tinha a cabeça grande, parecendo conter pensamentos desencontrados, desejos em garra, desesperos e fantasias.

O lábio inferior, em coração, punha-lhe uma graça feminina no rosto fechado. Era trepidante, violento e manhoso.

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Teve uma trágica indigestão. A febre queimava-lhe a barriguinha e as costas. Alma, num desvairo, brigou com D. Genoveva, atribuindo a moléstia ao seu pouco cuidado.

No dia seguinte, melhorando a criança, reconciliaram-se.

*-*-*-*-*

Alma retesava-se de raiva e de lágrimas, ante as atitudes descansadas do telegrafista, que lhe não mostrava horizontes nem lhe decidia a vida parada. Pensou em mudar-se. Mas resolveu ficar ali mesmo, esperando que alguém viesse, que alguém surgisse.

*-*-*-*-*

Encontrou Camila Maia, ao sair do Jardim Público com Luquinhas. Estava esfuziante e alta, num vestido rico, com punhos largos de pele, um chapéu de cetim apanhando-lhe toda a cabeleira negra.

Tinha um rapaz do comércio, que a adorava e um ricaço que a vestia.

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Alma sozinha, fazendo o filho dormir no quarto abafado, curvou a cabeça ruiva sobre a grandeza inexplicável da sua desdita.

*-*-*-*-*

Deixou Luquinhas, o telegrafista, a casa e, refazendo as maneiras antigas e a antiga beleza, reapareceu, num halo de glória, no meio catita e dançarino onde Camila se fazia.

Na volta longa de automóvel por Santo Amaro, o rapaz alto e solícito, de bigodes negros e curtos, que vinha ao seu lado, em frente ao outro par distraído e amoroso, chupou-lhe os lábios suculentos. Chamava-se Artur e disse-lhe que tinha uma garçonnière, na Rua da Boa Morte, agora que não viajava.

*-*-*-*-*

João do Carmo não podia compreender aquela rápida transfiguração. Pressentia o estouro da sua incompleta fortuna. Ela mesma recusava-se nervosamente a beijá-lo na despedida das visitas noturnas, regulares e quietas.

A ideia do casamento, francamente exposta, crescera-lhe na íntima passividade sentimental, apesar dos protestos da sua desfalecida covardia.

Vivia envenenado pelo fel contagioso de Dagoberto Lessa.

Na sua capa espanhola, um ar espectante de rafeiro, o escrevente fizera-lhe entrever, sentado e calmo em sua frente, no quarto, que sabia o que se passava. Conhecia Camila, péssima companhia… Aliás era opinião da cidade que João estava se enterrando.

Uma revolta estuou no peito do namorado, um heroísmo de sentimentos invadiu-o.

– Enterrando, como? A dívida que fiz já paguei. Concorro com o quarto apenas, uma quantia pequena…

Dagoberto torcia o bico cético.

– Até o Lobão já me disse que você é um ingênuo em crer nessa mulher…

– Inveja de vencido.

– Disse coisas horríveis.

– Repita…

– Que ela é amante para dois meses. Mulher conhecida pelo país inteiro.

– Cão!

Haviam-se calado.

Um sentimento daquela venenosa injúria mexia no peito de João do Carmo. Ele sentia mais que nunca que a amava. Era seu dever defendê-la, ampará-la, salvá-la, dar-lhe, numa prodigiosa solidariedade, a pobre honra do seu nome.

O escrevente, vendo-lhe a atitude sombria e magoada, mudara.

– O diabo é o meio em que ela viveu, um meio corrupto… O tal Mauro…

*-*-*-*-*

O poente na Praça da República fazia tela vermelha às árvores e às hermas escuras.

João do Carmo atravessou o jardim. Sentia precipitar-se a sua tragédia. Mais do que nunca, o amor enraizado estuava, farfalhava, subia. Era seu dever salvá-la. Via num gelado terror o meio infame que a tentava de novo. As narrativas de risonhas partidas com Camila davam-lhe minutos medonhos. O pessimismo inveterado de Dagoberto sufocava-o. Ficava aterrado ante a miserável hipótese de uma volta aos rendez-vous supliciais.

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Jantou no tumulto diferente de outro restaurante, perto do Braz.

Havia uma Estação da Luz panorâmica, na parede do fundo. E a alma multifária do bairro cantava pelas cem goelas desafinadas de um orquestrão de campainhas.

Comeu sem sentir.

Foi atravessar a noite silenciosa, rondando a rua de lampiões, sem saber se ela estava dentro da casa ou não chegara ainda.

Regressou numa extenuação, quando já os bondes pesados saíam e carroças cheias rodavam para os mercados.

Estacou. Chegara à porta do casarão de cômodos. Para as bandas do Tietê, havia um começo de aurora vermelha.

*-*-*-*-*

Soube por Dagoberto que a portuguesita de cabaré que voltara para a companhia de Frederico Carlos Lobão, fugira de novo para o Rio. Procurou o boêmio traído. Ele ia sair. Estava no fim da escada. Trazia uma maleta nas mãos, desbordava intenções de viajar.

Inutilizava um cigarro por tragada nervosa. Tinha a palheta enterrada nos olhos enormes.

*-*-*-*-*

Andaram longamente falando confidências. Um condescendia em ser o público amável do outro, preparando no soturno cérebro o que expor também, defender e criticar.

A vida comprimia-se nas duas humanas caixas apaixonadas, onde se musicava o futuro triste, o passado horrível, o presente sem remédio. Um conforto, exigido mutuamente, enlaçava as duas almas aliadas, na luta contra o inexplicável, na justificação comovida dos atos, na apoteose das próprias transfigurações.

Eram dois pálidos cavaleiros da Palestina dos devotamentos. O mundo, se os escutasse, erguer-lhes-ia epopéias, fá-los-ia legisladores e santos, dar-lhes-ia cortejos. A cidade passava por eles na tarde longa e humilde.

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Frederico Carlos Lobão não se conteve mais. Levou João do Carmo ao bordel donde fugira a travessa mulher que o perdia.

Numa sala de hotel familiar, com oleografias emolduradas nas paredes, coristas de opereta delambiam-se em romances exagerados com bacharéis de fraque.

Um piano ressoava.

A uma mesa do fundo, uma briga estalou. Um moço moreno, teso e de pince-nez, largara o prato e o copo e, levantando, insultava. Disse um último palavrão e saiu.

Uma mulher magra chorava, num lenço. As outras desolavam-se em altas vozes:

– Ora, o Maneco! O Maneco!

Quando a ofendida se consolou, expandiu-se para o ambiente. Era uma mulher de sentimentos e de educação. Tinha família.

– Acalma-te, Tereza! – diziam de redor.

Mas ela prosseguiu, redobrando de fúria a cada conselho. Súbito, voltou-se para os dois homens tristes que se haviam sentado, pediu-lhes desculpas e pôs-se de novo a comer.

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Muito branca, nas sandálias altas, Alma deixou perceber que se passava qualquer coisa de anormal, de sério, de definitivo. João quis saber, numa volúpia de calvários.

Perguntou-lhe se conhecia o Teles Melo da Expansão Elétrica… um pouco capenga.. Dava-lhe uma casa…

Ele acedia, pronto a todos os holocaustos que a favorecessem. No seu íntimo, exagerava-se uma boa vontade, onde lá dentro, no entanto, o profundo amor de sua vida se despeitava, calmo, resoluto, terrível.

Nela, passavam clarões tristes, logo vencidos.

E ele pediu para beijar Luquinhas antes de partir.

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Um cabaré chamou-o. Uma orquestra guinchava. Do teto chinfrim, pendiam enfeites de papel verde e amarelo.

Grupos de homens e mulheres bebiam e esgoelavam. O cabaretier dominava o tumulto. Tinha mãos enormes e uma cara de cônego.

A música parou. Uma mulher veio sentar-se à sua mesa. Era de Lisboa. Tinha os olhos brilhantes e os lábios rubros. Ele pediu-lhe que cantasse, depois de oferecer-lhe um licor.

– Queres que eu cante?

Deu uma viva risada e indagou:

– E que há de ser? Uma coisa de saudades?

– Qualquer cantiga.

– Sei canções de Portugal. Ai que já lá vai um ano!

– É bonita Lisboa?

– Mais do que o Rio de Janeiro.

– Mais do que o Rio!

– É sim, homem.

Depois de um silêncio, João perguntou-lhe que fazia.

– Vou amanhã ensaiar uma opereta nova. Você quer vir ao Apolo?

– Posso ir.

Ela virou o cálice, levantou-se cantarolando pela sala. Depois disse:

– Ora, o Palhares não veio. Venho já, sim?

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Alma, numa presença real aflitiva, não o deixava.

Ele obcecava-se pelos ambientes prostituídos. Surpreendia-se evocando-a nas silhuetas de sudário, procurando reatar nas vidas canalhas gestos seus, o futuro seu. Um rolar confuso de pressentimentos desfiava-se-lhe no peito. Onde estaria? Dormindo ao lado do outro, o que a comprara.

E num eco doloroso e profundo, batiam nele todos os barulhos da vida.

*-*-*-*-*

Pela porta volante da casa alegre, um homem grisalho entrou num atropelo, empurrado por uma espanhola gritante. A mulher exclamava:

– Anda! Por aqui! Por aqui! Buro homem!

Sentaram-se perto dos dois amigos solitários e o burguês reagiu:

– Basta, mulherzinha danada! Você acaba me esfolando vivo. Anda, vai buscar vinho…

– Eu não! Chama o garçon, buro!

Ruidosa, galharda, pediu champagne.

– Eh! Não vê que eu pago. Champagne na crise! Olha, o café este ano não sai da fazenda.

– Que! Você não é fazendeiro… É buro!

– Não sou? então não pago champagne.

A mulher resolveu-se por um vinho do Porto. O burguês riu satisfeito. Ela indignou-se, saiu estabanadamente para a outra sala. O homem sorriu amável, dizendo:

– Foi… mas volta. Não vê que ela perde o vinho do Porto, nesta crise. Anda tudo em crise, até a vergonha… Eu, um pai de família… Puff! Também, um cabaré alegra a gente.

Disse que era viajante. Bebeu, achando excelente a vida. Depois, foi atrás da mulher.

Lobão começou então a invectivá-lo. Tinha vontade de ir para Buenos-Aires ou para o Oriente, para bem longe daqueles burgueses que se satisfaziam com uma Lola e um vinho do Porto. No fundo do seu humano coração, a portuguesita banal dançava com outro, infernalmente.

Iria acabar os seus dias numa terra ignorada e estranha onde fosse o forasteiro indecifrável.

– In-de-ci-frá-vel!

Da outra sala, pela porta volante, subiu um alarido: risos, gritos de mulheres, escalas desordenadas de piano. Depois a voz do cabaretier comandou:

Allons! Messieurs, dames! Un peu de gaité dans la salle! Um! Deux! Trois!

Palmas ritmaram-se na algazarra. Acompanhada do piano, uma voz débil elevou-se:

Je suis le co-co de Chi-cago!

João do Carmo sentia-se torvo. Ante a inconsciência festiva do mundo, vinham sufocá-lo, em ronda, pálidas tristezas.

A voz do cabaretier sugeriu un cri d’admiration pour Mlle. Fruli. De novo houve palmas ritmadas.

Lobão queria sair, ir para o Oriente. João percebeu que o outro deixá-lo-ia para se deitar. Teve medo de ficar só. Preferia estar encolhido naquele barulho. Pediu-lhe que ficasse.

A porta volante escancarou-se. Reapareceu a espanhola com o burguês. Ele vinha dizendo que perdera no jogo. E ela exigia a bolsa nova que esquecera dentro do automóvel.

Sentaram-se. Havia caído uma mosca no copo abandonado. Ela exigiu vinho do Rheno. Discutiram preços com o garçon acudido. O homem disse que na fábrica, no Bom Retiro, custava a metade.

A mulher farfalhava na cadeira. Veio a garrafa. O burguês ofereceu aos dois amigos, de novo quietos.

– Sem-cerimônia! Coisa que nunca tive na vida!

Contava histórias de rabichos. A mulher insistia:

– Olhe, amanhã você tem que trazer a bolsa, hem?

O tumulto alegre redobrou com a chegada de mais gente. Gritavam: Vive les carabins, ma mère! Non, ce sont des cocos, de vieux copains!

E o cabaretier ordenou un cri d’hystérie, percuciente, na sala.

*-*-*-*-*

Alma instalara-se com Luquinhas num bungalow atarracado das Perdizes. Possuía jóias e móveis, louça frisada de ouro, uma aia alemã para o pequerrucho. E o automóvel verde do eletricista passeou, nas tardes quentes, a sua renovada beleza pelo Triângulo cheio.

*-*-*-*-*

Luquinhas, numa transfiguração de jerseys caros, tinha um grande medo intranquilo do “lambisombem”.

Os seus cabelos cacheavam-se em ouro disperso.

Nas manhãs luminosas, saía para os parques da cidade, com brinquedos e a criada.

E, na volta, vinha acordar mamãezinha com pontapés repetidos e bambos na porta fechada do quarto, onde o “lambisombem” morava.

*-*-*-*-*

O engenheiro dava-lhe níqueis e tinha um pavor de que aquelas mãozinhas lhe lambuzassem as calças magníficas.

Mas, num deslumbramento, Alma, nas toilettes mais finas, tomava-o, mordia-o, chupava-lhe as carnes tenras e brancas. Tinha a volúpia de ser urinada pelo seu crescido valete de copas.

*-*-*-*-*

João do Carmo compôs um livro todo de sonetos.

(Continua na próxima semana.)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.