Os Condenados: 19º trecho da trilogia de Oswald

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“Em Jorge, repercutiu a emoção larga das viagens, das descobertas de portos nas madrugadas. Dura sorte o prendia ali, ele, feito para as travessias”

Por Oswald de Andrade | Imagem: Claude Monet, Impressão. Nascer do Sol (1872)

Na sequência anterior, em seu atelier, Jorge D’Alvelos se emociona com a nova criação. Em suas andanças, vislumbra o antigo sobrado onde Alma morou. Trabalha nos relevos de um teatro novo. Muda-se para uma chácara de Sant’Ana. Na vivenda moram um agricultor, a mulher, Rita, e a cunhada de quinze anos. O escultor sente atração pela jovem e é amado por Rita. Viaja ao Rio a trabalho, quando, no corredor do trem noturno, uma mulher interessa-se por ele. Amanhecem num hotel. Retornam juntos a São Paulo. No escritório do engenheiro Garças, negam-lhe uma indenização pelos trabalhos executados, a pretexto de modernismo. Jorge deixa o homem com a cara ensanguentada, e foge. Contra ele pesa uma queixa-crime. Os jornais agravam a agressão. Carlos Bairão e um amigo propõem ao escultor um refúgio seguro, no litoral. O marítimo Quim João zelará pela sua segurança. (Theotonio de Paiva, editor da seção especial “Oswald60″)

A Marina trepidou na Ponta da Praia. Os homens da lancha manobraram. Jorge chegou mais para junto do banco onde ficara a maleta do Castro, minúscula, de tela, onde tinha toda a sua roupa. Uma alegria de escapar a possíveis presídios, tomou-o. E sentiu com felicidade o mar do exílio, balouçante, líquido e imenso.

Claro Dutra que se levantava na proa, junto ao mastro chamou-o. Ele não pôde ir. Uma emoção sentava-o. Depois ergueu-se a custo, olhou o desdobrar escuro da costa.

TEXTO-MEIO

Atravessaram a baía, saíram.

O mar largo anunciou-se numa fusão de massas brônzeas. Rumaram para a ilha, onde um buquê de coqueiros ardia na tarde.

Contornaram os rochedos, procurando desembarque. Uma menina de branco, virginal e agreste, esperava-os no ancoradouro de pedras.

– Como se chama? – perguntou o exilado.

– Vitória Agonia.

Tia Amélia apareceu numa risada sem dentes. Foram ver o chalé erguido cem anos atrás por um nauta flamengo.

Percorreram os picos amontanhados, o recôncavo da enseada, as rochas longas.

Claro Dutra e Carlos Bairão iam regressar a Santos.

Abraçaram-se. A Marina trepidou de novo. Ele ficara só, junto à menina selvática.

Sentou-se a uma pedra. A Marina passava-lhe em frente, numa reta, levando-os.

*-*-*-*-*

A gente da ilha o havia tratado compassivamente, deixando-o isolar-se no chalé que habitava ou na ponta alongada dos rochedos.

Ele esqueceu as horas, olhando as ondas. Claridades laminavam a distância panorâmica. Nos coqueiros agrestes e crestados, um pássaro cantava o recolher do dia.

Uma saudade de possíveis amores vinha depor-lhe na imaginação sensualidades calmas, refletidos crimes, nefandos atos praticados conscientemente.

*-*-*-*-*

Pressentira na chegada, no contato mais direto com a natureza, uma volta a Deus. Desiludia-se agora.

A divindade pairava naquele cenário murmurante de águas. Mas envolvia-lhe o coração como o mar barulhento envolvia o rochedo duro em que o tinham abandonado.

*-*-*-*-*

Andara sem rumo, pelo dia inédito, descobrindo itinerários. Uma tristeza a pouco e pouco surgiu, enegreceu tudo – de ficar ali no chalé roído e velho ou vendo na tarde as velas alinhadas recolherem da pesca, pelo mar inexpressivo.

*-*-*-*-*

E sentiu de repente que a prece nascera num ocaso alaranjado de exílio sobre o mar.

*-*-*-*-*

A Marina reapareceu uma tarde, trazendo Carlos Bairão, efusivo, gritante, absurdo naquele silêncio.

Tiveram uma noite boa e tranquila no chalé.

Carlos desde que o trouxera a Santos não tinha subido mais à Capital. Deixara-se prender pela boêmia elegante e praieira de Claro Dutra. Tinham estado num hotel do José Menino, justamente em companhia de Marcos Gurgel, o amigo de Nora, recém-chegado da América.

O seu otimismo reluzia – decerto andava tudo bem em São Paulo, adivinhava na cor do céu e do mar. Uma cartomante predissera…

No quarto superior do chalé, onde Jorge dormia isolado do pavilhão da família, conversaram até horas altas, ouvindo no escuro o pipilar dos morcegos.

Na manhã seguinte partiu, prometendo se ficasse em Santos, trazer à ilha Marcos Gurgel que o exilado queria conhecer.

A família do pescador era composta de tia Amélia, Mariinha, minúscula, de preto, Clarice de sete anos e a sobrinha de treze – Vitória Agonia.

Dois agregados chamavam-se Bentinho e Seu Luiz.

– Eram taciturnos e magros.

*-*-*-*-*

O mar tivera rugidos à noite. Pela manhã de neblina azul, muito cedo, punha sob a janela do chalé negro, entre árvores, uma rústica fanfarra. E era sempre grande e inquieto, líquido, festivo e sem fim.

Jorge vira cair a tarde sem se mover do degrau de pedra bruta da encosta. Tinha os pés nus, doloridos de cardos. Sentia nas menores ramificações musculares uma carga de vida nova. Reabilitava-se fisicamente, dolorosamente.

*-*-*-*-*

Carlos Bairão não tornara mais. Decerto teria voltado a São Paulo num novo enlevo sexual, prosseguindo a sua vida dilapidada de grande burguês.

Talvez Claro Dutra viesse vê-lo.

Dar-se-ia ao incômodo?

E Marcos Gurgel? Podia ter regressado para junto de Nora.

Uma real impossibilidade de démarches fatalizava os olhos de Jorge diante do mar que o cercava. Aquela primeira semana acalmara-lhe as nervosas precipitações do instinto. Ante o oceano largo, as serras e a floresta do litoral, tinha uma sensação de eternidade imóvel. Para que correr, afligir-se, chorar? A vida naquele casto ermo, era isenta dos fervilhamentos das podridões. A própria fisiologia aproximava-o da animalidade dos pássaros da terra e do mar. Havia festas de velas brancas para os seus olhos nas manhãs estáticas. Uma fita de neblina anelava o recôncavo. A gente boa da ilha trabalhava calmamente. Seu Luiz, num gorro de marinheiro, varria as boas folhas tombadas nos caminhos de pedra, nos pontilhões, nas veredas terrosas. Uma proa de transatlântico, rumando para Santos, destacava-se vagarosamente do cabo abrupto dos morros.

Ia tudo calmo e pacífico.

Entretanto no íntimo de Jorge um espinho ficara, apostemando-lhe a tranquilidade. A lembrança de Nora inquietava-o. Que seria feito dos olhos amendoados e claros nos cílios irrequietos?

Talvez nunca mais pudesse vê-la. Em torno dele crescera decerto a onda dos desafetos, das perseguições encorajadas, dos martírios planejados. Se tivesse permanecido em São Paulo, enlouqueceria talvez pela porta fácil das manias de perseguições. Um amigo que passasse sem lhe tirar o chapéu, uma saudação mais fria, um olhar indiferente criavam-lhe na cabeça alarmada uma convicção funesta de desprestígio humano. Sabiam de todas as suas misérias, aumentadas, glosadas num júri perene. Um implacável veredicto parecia acompanhá-lo. Discutira longamente a sem razão daquela hostilidade nos bancos dos parques, ao vento, na solidão benéfica do seu quarto.

Mas subitamente o desmentiam. Claro Dutra oferecera-lhe o asilo encantado da ilha, onde o apertava uma vontade de crer novamente, naquelas horas imóveis.

A dedicação do marítimo Quim João, a amizade da gente pescadora, tudo o confortava. Sobre ele velavam meia-dúzia de devotações.

*-*-*-*-*

O céu alaranjava-se do lado do ocaso. O mar estava muito verde no recanto de pedras.

Um grilo chamava a noite quieta, outro além respondia, outro, outro. Ele deixou o chalé antes que o sol recolhesse. E viu a família de preto reunida no ancoradouro. A Marina aproximava-se num arfar de motor.

Junto ao mastro vinham três pessoas de pé. Jorge distinguiu numa emoção a figura elegante de Claro.

Os dois homens que vinham com ele acenaram. Eram Carlos Bairão e um desconhecido. A lancha fez uma curva para atracar. O exilado tirou da cinta o revólver e salvou com seis tiros a imprevista chegada.

Foi um aperto confuso de mãos. Apresentaram-lhe Marcos Gurgel.

Como que instintivamente, o artista se afastou com ele para a ponta rochosa sobre o mar. Os outros dois deixaram-nos.

A noite subia sem rebuços, sem mistérios. Uma paz vermelha recortava os montes. Jorge então perguntou ao homem cavalheiresco se conhecia Nora. O outro comoveu-se num rápido enleio. Passaram a porta franca das confissões. Marcos Gurgel amava outra mulher, mas roído de tragédia buscara em Nora o conforto talvez de um idêntico martírio.

A noite recortava sobre a rocha a figura concentrada e nervosa do visitante. As suas palavras tinham sido simples, emocionais. Jorge olhou as ondas e o horizonte noturno, onde duas luzes distantes tremiam. O homem falava ainda, falava sempre. Era o protetor devotado de Nora.

Um grande repouso iniciara-se no coração de Jorge, onde o amor latejava. No coração da terra um grande repouso iniciara-se também.

A lua alçou-se, minúsculo aro sobre a costa fronteira. E uma procissão de luzes vinha pelo mar. Era um navio. Dois círios iguais e trêmulos caminhavam lentamente, solenemente. Jorge escutava, vendo. O homem disse a história do seu amor inquieto, falou ainda de Nora, da apaixonada confissão que ela lhe fizera do absurdo idílio com Jorge, o homem que não amava.

Os círios cresciam no mar, parecia segui-los um frêmito longo e mudo de estandartes retesados ao vento. No centro, uma luz verde brilhava, serena. Era a procissão da esperança pela noite fechada. A lua derramava no mar um tapete claro. Sobre a cabeça do homem que declamava, havia milhões brancos de estrelas. E a procissão lenta, solene, passou ao vento, devagar nos mastros iguais, nas luzes iguais, nos cordames, nas âncoras, nas bandeiras pavesadas.

*-*-*-*-*

Tinham recolhido ao chalé negro para jantar uma peixada trazida por Quim João na lancha. Os cinco homens sentaram-se rodeando a tosca mesa quadrada, sob a luz fumarenta do lampião.

Jorge estava em frente a Marcos Gurgel. Caro centralizava.

Tia Amélia e as meninas vieram trazer as sopeiras fumegantes, numa misturada conversa, onde a malícia de Quim João epigramava risadas animais, de olhos miúdos.

Jorge pressentia em Marcos Gurgel a mesma tristeza sua.

Claro Dutra contava aventuras do mar como em Maupassant. Comentaram-se os tintureiros ferozes da barra. Referiram-se proezas simples, naturais da gente litorânea. E o jantar escoou-se numa alegria rude de acampamento, numa concórdia roeada pelo mar.

Na partida noturna, a lancha que levava Claro e Marcos arfou entre saudações. Jorge e Carlos que ficavam salvaram longamente.

Os dois amigos foram sentar-se no rochedo. A lua nova caía. As estrelas brilhavam foscamente. E vendo Carlos Bairão estirado sobre a pedra, na blusa de marujo que lhe cingia o pescoço, Jorge sentiu o peso de sua prescrição.

Nora ia ter de novo, a seu lado, Marcos Gurgel, mais devotado que antes.

Jorge sentiu silenciosamente que agora a amava. O seu coração era vivo demais para estagnar.

*-*-*-*-*

Carlos Bairão partiu.

O mar estrondava na rocha, solapando as rochas seculares.

*-*-*-*-*

Bem-te-vis amarelos, estufados de pena, vinham catar as baratinhas ligeiras do porto.

Quim João tardava a aparecer. Um dia mandou a Jorge jornais de São Paulo. O exilado abriu as folhas amarrotadas na travessia. Procurou o seu nome. Percorreu inutilmente as colunas cheias, soletrou as estrelinhas, releu. Parecia-lhe que o mundo devera ter parado ante o seu comovido exílio. Como se iludia! Em São Paulo, comentava-se o casamento de uma soprano célebre na Espanha; preparava-se um faustoso banquete para a recepção do novo embaixador argentino; demais, automóveis atropelavam crianças, soldados espancavam presos, advogados cretinos recebiam festas de homenagem.

Os jornais também não comentavam a glória perene daquele mar.

*-*-*-*-*

E Nora? Um nevoeiro silencioso esbatia-lhe a figura, relegava-a já para planos confusos. Numa incapacidade de adivinhações olhando o mar, Jorge ignorava o que poderia ter sucedido no regresso de Marcos a São Paulo. Os jornais também não falavam dela, de seu calado amor, de sua cândida desgraça.

*-*-*-*-*

Entretinha-se nas longas horas de expectativa dos transatlânticos, a conversar com os práticos que se revezavam na lancha de Quim João. O contágio daqueles homens marinhos dava-lhe o desespero dos entraves da terra. Eles só discutiam travessias, partidas, expedições, naufrágios. E Jorge ambicionava ter aqueles olhos afeitos às incertezas, às neblinas e aos horizontes fugidios.

A cidade humana aparecia-lhe horrível na sua mesquinharia de contenções, de suplícios, de raivas, de glórias anãs.

Não compreendia mais as elegâncias de Nora no seu boudoir perfumoso, nem aristocracias e nem confortos.

A pedra onde se perdia dias inteiros ao sol ou à bruma, às estréias ou às ardentias, parecia-lhe o suficiente abraço da terra amorável. Para que mais?

Uma barba enruivecida enrolava-lhe o rosto tornado moreno. Os seus músculos retesavam-se, viviam na riqueza matinal das natações.

A sua máquina fisiológica funcionava num ritmo igual ao do dia sereno. Vinha-lhe um desprezo pelas cruzadas citadinas de hipócritas devotamentos, de falsos sacrifícios, de mentirosos ideais. Os jornais que guardara assumiam ao comentário perene do mar largo, proporções de trágica comicidade. Falavam de caridade humana, afirmavam códigos de ética, bendiziam atitudes políticas envenenadas da mais cínica exploração burguesa.

O mar rezava sempre nas rochas. No horizonte cresciam as velas mudas. E o céu criava novos ocasos.

*-*-*-*-*

Saiu na imensa manhã pela vereda de pedras agrestes. Um pássaro marinho piava tristemente, repetidamente, na neblina. Um inseto negro ferreteava o ar. As velas de novo alinhavam-se no horizonte quieto.

De repente, um sabiá coloria a ponta de um galho balouçante. Havia pipilos, conversas de aves aquáticas e assuadas imprevistas de bem-te-vis no mato.

Uma corruíra passava. E o dia em folha, como saído das mãos da criação, desdobrava para o alto a asa azul, acompanhando o sol.

Aquele abandono no rochedo dava-lhe no entanto ímpetos de chorar. Sentia um desamparo definitivo na alma descrente. Devia ser assim o inferno – na distância de todos um milagre perene de azul. E vagas noções de catecismo voltavam, retomavam posições inacreditáveis no exílio panteísta.

Um cigarro naquelas horas desertas, uma rosa silvestre miúda, amarela e quente que lhe deixava na mesa tosca do chalé a figura branca de Vitória Agonia, tudo ganhava proporções .extremadas. Ele respirava sofregadamente a flor miraculosa; sabia-a desperfumada e aspirava-a. Não era a flor, era o gesto humano que a trouxera. O cigarro que acendia carinhosamente significava o amigo que viera vê-lo na ilha perdida.

A natureza ciclópica, o mar imutável, a floresta ruidosa, nada significavam ante a prece lacrimal de uns olhos. A floresta e o mar, enfim, o cenário vazio da terra parecia parar numa finalidade atingida, sem lutas, sem metamorfoses, sem migrações. Apenas nele a centelha humana se debatia.

*-*-*-*-*

Uma rubescência sobre os coqueirais da costa, cânticos de pássaros, vozes de nautas. A ilha amanhecia no mar encrespado.

A Marina atracou. Da janela do chalé, Jorge viu desembarcarem Quim João lesto e sadio, e seus homens. Desceu.

O vento batia rudemente. As ondas alargavam-se grossas, montanhosas, fundindo-se em massa verde-garrafa. Espumas prateavam cá e lá.

Quim João viera esperar o maior navio da carreira do Brasil. Era o Brabantia da Companhia Holandesa.

Tia Amélia serviu o café saboroso com o pão fresco trazido. Quim João brincava com ela. Uma correspondência forte, animal, de alma que desconhece artifícios, sem pudores procurados, enleava aquela gente do mar.

Eram iguais na viva inteligência, na graciosa iniciativa, na pronta resposta. Jorge revia, na sua memória, a torva consciência fechada das populações centrais, muito mais submetidas à exploração de senhores e capitalistas que as faziam desconfiadas e silenciosas. O mar, ao contrário, libertava de uma certa maneira. Obrigava a gestos, a vozes altas, a arrojadas empresas.

Chamavam Quim João. O Brabantia estava à vista. Jorge foi depressa para a ponta do rochedo.

Na manhã indecisa, as três chaminés amarelas sobre o casco possante caminhavam entre os mastros, elevando para o alto um tênue fumo negro.

O sol não deixara ainda o seu escrínio de morros. Nenhuma outra embarcação no horizonte. Apenas a lancha, com a bandeirola desfraldada, deixou o ancoradouro, investiu o grosso mar em demanda do transatlântico.

O Brabantia caminhava em marcha lenta, possante e solene. E em Jorge repercutiu a emoção larga das viagens, das descobertas de portos nas madrugadas, das visões risonhas de costas. Dura a sorte que o prendia ali, ele, feito para as travessias, para as partidas dos grandes barcos, para o assenhoramento de continente e de mares.

A gente de bordo levantava-se decerto no alvoroço do porto pressentido. E talvez o visse naquela pedra oceânica, inutilizadas as grandes asas travessas.

O navio desaparecera. A lancha, sem bandeira, recolhia também, já longe, mergulhando e subindo. Sobre a sua cabeça pairava sereno um voo de procelária.

*-*-*-*-*

A noite desceu com o luar amarelo e as estrelas muito claras entre os coqueiros.

*-*-*-*-*

Todas as lembranças de emoção marinha fixada na poesia vinham visitá-lo. Folheara a ilha como quem folheia a Tempestade de Shakespeare. A história de Élida, A Senhora do Mar de Ibsen, aparecia-lhe no encantamento envolvente das ondas. Aquelas três cabeças fulvas e selvagens de meninas levariam mais tarde para a terra o secreto compromisso de um noivado funesto com o mar. Ai! de quem amasse nas cidades empoeiradas uma filha de faroleiro. Chegaria vingadora a hora do nauta desconhecido que reclama os seus direitos pela voz oceânica das recordações.

Os desembarques matinais dos homens encapotados da lancha faziam-no viver deliciosos minutos de infância com Júlio Verne ao lado.

E mesmo Robison Crosué que lhe aparecera sempre caricatural e litográfico, com índios palermas e roupas carnavalescas, retomava direitos de humanidade. O homem só de De Foe, sem amor e sem gritos, começava a interessar o homem só que ele era, sem amor também e sem eco para os seus gritos que amorteciam a pouco e pouco nos barulhos da água.

As primeiras semanas do europeu no desterro verde do continente achado punham-lhe estremecimentos tristes. Como devia ter sido o Brasil inicial para os abandonados que viam perder-se para sempre, nas ondas crespas, os últimos panos das últimas caravelas. Que adeus devia ter sido o deles nas noites começadas.

Essa inquietação de voltar ao foco humano, de tornar ao lar, de rever a simpatia das civilizações possuía-o agora numa hipertensão. Era um chamado feito de pedidos lacrimais, de desencontrados gestos, de aflições infantis pelos rochedos.

Ele queria refugiar-se na arte que por vezes o serenara como um deus. E a santificação e a calma só eram possíveis na correspondência entusiástica das compreensões. O Brasil que lhe assombrara a infância, reaparecia-lhe ali naquele símbolo da rocha entregue a todas as ventanias dos céus, a todas as tempestades do largo. Ele precisava voltar aos repousados silêncios dos ateliers criadores. Um chamamento invisível empolgava-o naquele exílio. Deixaria o país brutal que lhe dera o berço hostil. Encaminhar-se-ia para a glória humana das lutas e das redenções, onde suas mãos trabalhariam a própria terra.

*-*-*-*-*

Jorge saiu para o luar do céu benfazejo. As ondas cantavam na rocha solitária. Era um brinquedo de espuma sob o êxtase vertical da lua. Voltou ao perdido chalé. Vitória Agonia deixara flores silvestres em cima da mesa.

Recostou-se ao leito, pensativo.

E súbito uma vontade de chorar acordou nele. Seria lá fora o lamento inútil do mar? Um frenesi feito de desamparos torcia-lhe o corpo até as unhas, eletrizava-o.

O mar longínquo cantava para ele tudo o que morrera.

*-*-*-*-*

A ilha era perfeita. Uma Calipso sutil velava pelos seus dias iguais. Como o inquieto Ulisses, Jorge sentia crescer-lhe no peito a tosca esperança das jangadas.

Depois de comer na toalha rude, servido por Vitória Agonia, ele rezava ao mar que lhe mandava, pela janela carcomida, o sopro direto das procelas, desde o continente africano.

– Nunca me desabituei de ser pobre! Nunca me desabituei de ser bom!

O mar incutia-lhe de novo um deísmo agitado. Pensava em castigos, em perdão.

Numa impotência de gestos, percebia o irremediável de sua situação na distância. Lá em cima, em São Paulo, espoliavam-no talvez, tiravam-lhe o que lhe restava, tripudiavam-lhe sobre a honra, o nome, a vida.

Não podia voltar enquanto os tribunais não decidissem de sua sorte. Tornara-se um instrumento tenso demais. Estalaria corda a corda se o levassem à prisão. Por isso aceitara nervosamente o alvitre apressado da fuga.

Defendera a vida como quem defende uma transfiguração.

Vitória Agonia, selvática, de cabelos encordoados e a carne salgada das espumas, sorria à tristeza, ao seu silêncio. Parecia compreender as amarguras que evocava. Era Alma na infância seminua do Amazonas naufragado.

Um pássaro saudoso estridulava no calor.

Ele saía do chalé recostado à criança branca. Faziam a volta das pedras entre os coqueiros, chegavam à ponta do rochedo.

Velas adejavam na brisa forte.

O mar rendado em cinza tinha um grande claro de sol no meio.

*-*-*-*-*

Um bem-te-vi punha sarcasmos na floresta longínqua.

Uma grande onda de sono faquirizava o litoral sem fim, onde a calaçaria seminua nem sequer ousava mendigar.

Um torpor suave e bom apoderava-se dos membros inespertos de Jorge no chalé. Ele acordava com Vitória Agonia ao lado trazendo-lhe uma xicarinha de café ou uma cálida rosa silvestre. O mar marulhava sempre. Ela contava-lhe histórias de pesca, tinha apanhado dois paratis barbudos, uma garoupa.

O bem-te-vi insistia, longe, numa caçoada feliz.

Sob a condenação daquele sol, a preguiça brasílica empilhava séculos de história vazia, entorpecidos de sexualidade, ensanguentados de feudalismo.

*-*-*-*-*

Uma amizade natural, uma instintiva união de defesa, estreitava mais e mais ao novo habitante da ilha os restos da família de luto.

Uma opressão nervosa do peito prendera-o três dias no quarto. E a gente do pavilhão revezava-se em visitas longas, queria mandar à terra, numa incrível travessia, o bote minúsculo do porto, a fim de avisar Claro Dutra e trazer o médico.

A mudança climatérica provocara uma crise na sua saúde estragada. Em São Paulo, no tumulto das ruas ou no silêncio do Clarim, ele sentia a vida penosa que lhe ia por dentro. O coração tantas vezes golpeado, obedecia mal ao funcionamento regular da máquina física.

Agora, à restituição das cores e das forças pelas primeiras semanas marinhas, sucedera um abatimento pálido, uma teimosa reação maléfica.

Melhorou lentamente. Já ia à janela ver as vozes do porto, quando a lancha chegava.

Pássaros cortavam o calor aos gritos e a água estrondava sempre nas pedras. Pelas noites negras, como um ser benfazejo, o cão holandês da ilha ladrava vigilantemente. E havia cicios de morcegos no chalé.

*-*-*-*-*

Coincidiu a convalescença com a chegada de Claro sob um grande chapéu praiano. Ele mesmo conduzia a Marina na tarde mansa. Saíram pelas rochas numa efusão de histórias. Não recebera notícia nenhuma de São Paulo.

O mar tinha laivos lilases por entre as lâminas verdes do pôr do sol.

Jantaram servidos por Vitória Agonia. E Claro partiu pela noite fechada do porto.

*-*-*-*-*

Isolado de novo, Jorge começou a sentir a perturbação do contato virginal e selvático da menina da ilha.

Os olhos de Vitória Agonia às vezes engrandeciam-se numa raiva angustiada, do sexo talvez, do pressentimento, da vontade. Arfava-lhe o peito trêmulo na vizinhança do hóspede. Ela tinha os lábios úmidos das sereias. Treze anos de animal livre. Seios anunciados como mastros, pernas retesas e alvas, os cabelos emaranhados pelo vento salivoso do largo.

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM