Os Condenados: 17º trecho da trilogia de Oswald

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E na seriedade dos olhos onde se confessavam todos os crimes, todas as covardias, todas as vontades falhadas, mas também os martírios anônimos, as tentativas de vitórias fecundas, o escultor viu passar uma promessa contente”

Por Oswald de Andrade | Imagem Kees Van Dongen

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A partir de hoje, passamos a publicar “A Escada”, terceira e última parte da trilogia do romance “Os Condenados”, de Oswald de Andrade.

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III
A Escada

Então ele viu em sonho uma escada cujos pés estavam apoiados na terra.
Gênese C. 28

Na madrugada de inverno que retardava o sol, Jorge d’Alvelos acordou no abandono de seu quarto.

TEXTO-MEIO

Lá dentro a família dormia indiferente à sua mágoa, estranha, apenas compassiva. Ficou pensando em de novo partir.

Levantou-se embrulhado no seu velho pijama escocês, donde os botões de alamares se despregavam. Foi até a grande mala, repositório ambulante de sua vida. Retirou do fundo um álbum fanado de cartas e pôs-se a relê-lo sobre o leito de ferro que se desconjuntava na látea penumbra.

*-*-*-*-*

“Tenho medo de que uma explicação arrepie ou pelo menos desoriente a nossa carreira sentimental. Que pena!
“Éramos tão feitos um para o outro! Chegamos através de tanto brinquedo a nos amar tanto!”

“Vida da gente.

Será possível que se possa amar tanto assim? Às vezes tenho ódio de ti, sinto vontade de te fazer morrer.
“Mas de repente chega uma carta tua, bela como esta que veio, amorosa, suplicante.
“Amo-te. Dir-te-ia agora um milhão de vezes sem cessar, os meus olhos abrasados nas tuas áureas pupilas, a minha vida dependendo da tua boca, do arfar do teu seio, da queixa do teu corpo. Minha Mary Beatriz, és o doce guia! O contrassenso mais lindo que a lógica da vida podia ter criado. Acreditaria hoje em Deus por tua causa.
“Basta de besteira. O nosso futuro terá de ser combinado algebricamente, friamente. Um futuro de rabona e vestido branco”.

“Choraram os olhos de cigana. Que importa? O senhor quis que eles chorassem para que os pudesse beijar mais lindos no encontro. Quis que a sua boneca de cabelos fartos e negros sofresse para ter depois no noivado excelente a delícia da cura entre braços amorosos”.

“Meu enlouquecimento.
“Imagina a vida partir-se e afastar-se da gente!
“Sinto um sofrimento que chega à paradoxal surpresa de ser um ser despedaçado e vago que se sobressalta e chora longe de mim.
“A existência nesta terra mortal é bem isso – a busca de uma coisa que está em nós e longe de nós, uma imagem ideal do nosso eu, um céu sonhado ou perdido”.

“Que saudade me punge! O amor assim, como eu o tenho, é um cancro de cuja dor se vive.
“Ainda agora no atelier escurecido de estátuas, vendo entrar a noite pelos olhos loiros das janelas, senti a ferida bendita roer-me o fundo íntimo do peito. E a tua imagem exaltou-me em febre, fulminou-me em pálida síncope, atordoou-me como um apelo de Deus. Oh! Miss Incrível como te fizeste amar! O ano termina. O ano que começou em maio, lembras-te? A sala da exposição internacional, a sala onde nos achamos. Depois, fui esperar-te no nosso primeiro andar. Estavas linda, carnuda, de lábios molhados… se me lembro! E mentiste para me contar os teus receios. Pela primeira vez nas asas da tua fantasia, levantavas a verdade dos teus vinte anos doentes.
“Talvez fosse o primeiro dia do meu amor por ti esse pedaço de maio batido de sol e cavalgado de nuvens. Passaram-se seis meses e hoje amo-te assim. Se em cada um dos dias que se foram, sem temor, me apunhalaste à cruz da tua eleição”.

“Amor, amor lindo.
“Como preciso te falar, dizer coisas incríveis. Como é urgente enlaçarmo-nos numa mesma vida, numa provisória eternidade!”

“Meu trágico enlevo.
“Estás doente e longe de mim. O mal que pisa baixo quer empolgar-te nas suas mãos enluvadas. Tu que és a minha ressurreição.
“Lembras-te daquele dia em que visitamos juntos a Madona dei Giglio, no porto onde barcos encalhavam?
“Depois de atravessarmos os atoleiros verdes da margem, nos beijamos ante o sagrado refúgio e o rio calmo e grande na paisagem violenta.
“Que te seja benéfica a terra iodada em que estás”.

“A tua carta de ontem trouxe um pouco de tranquilidade a esta alma-motor. Chegou até minha agitação o silêncio claro do teu quarto e o bocado límpido do céu que te cobre.
“Falas-me no futuro, logo esperas por ele, logo ele não pode falhar.
“Estou só no atelier. Será meio-dia. Vai lá fora céu azul. E aqui dentro céu azul.
“Sabes que te amo? É a última novidade, a única que te saberia dizer sem mentir”.

“Encontrei esta manhã o Ugo. Falou-me de seu talento matrimonial. É feliz porque se casou com a obsessão.
“Tem três filhos de fazer inveja à Casa de Savoia.
“Ontem pensei em ti com exaltada saudade. Nas noites longas sem ti, faz-me companhia a tua sombra augural.
“Tastavella exigiu que voltássemos à sala clara de café onde éramos habitués, a fim de renovar com a tua presença longínqua a efusão das horas que aí tivéramos juntos.
“Mas a tua sombra benéfica não gosta do tilintar de risos e de copos. Ela apenas consente descerrar as asas carinhosas e sutis na penumbra pensativa do meu deserto eleito. Ontem à noite procurei uma bruxa da Via Appia, para que com os olhos em Saturno e mergulhada no futuro, me dissesse coisas espantosas. E a megera me anunciou que havias de morrer criança. Responde-me que ela
mentiu, herdeira efetiva do anjo que guardava, roçando as asas enormes pelas cortinas, o meu leito de criança!”

“Como cresce o amor neste exílio.
“Toda a vez que te perco, aumentas de estranha luz, sobes de ímpeto no meu caminho, assombras a minha vida. Nesta persistência demorada de ocaso, assalta-me de novo a ideia dolorosa de perder-te… Em todo pôr de sol há um braseiro extinto. É a morte de um dia.
“E o desaparecimento persistente, nítido e loiro deste grande dia azul de hoje enche-me de mágoa. O teu coração, Mary Beatriz, encerra para mim as promessas simples da vida. Se um ocaso como este me atingir um dia pela tua mão salvadora, permanecerei cego como a noite que baixa e mergulhado numa recordação palpitante de estreias”.

*-*-*-*-*

Apagou a lâmpada elétrica.

O ocaso descera. E ele sentia, na madrugada que azulava a vidraça nua do seu quarto brasileiro, que tinha os dois olhos vazados de lágrimas. Descerrou a janela para ver. Fora, entre cânticos de galos, as estrelas caíam.

*-*-*-*-*

Era assim que Mary Beatriz se destacava do passado como um gesto. Ela movia-se, andava. Ele permanecia quieto, vendo-a, numa frialdade contida do ânimo impávido. O seu amor revivia num restabelecimento de atitudes amigas e mortas. Voltavam as horas uma a uma.

Não podia continuar assim. O horizonte do campo exaltava sua vida interior. Alma d’Alvelos jazia confundida no sepulcro novo de Mary Beatriz.

Despediu-se inesperadamente da família, feudal e inútil, que não mais o pudera absorver. Partia. Voltava à capital.

*-*-*-*-*

O trem e o céu dessas terras, vasto a perder-se, fazendo ressoar as pancadas das porteiras brasílicas na névoa, o cheiro dos currais e o mugir das vacas presas, toda liturgia campônia das primeiras sociedades terrenas num país rescendendo ao banho do dilúvio.

E a escravização do homem pelo homem.

*-*-*-*-*

Estava novamente em São Paulo.

Povoou de esboços um grande atelier num andar térreo da Liberdade.

Agora que se votara definitivamente ao internamento das cidades, pensava como podia ter sido diferente a sua vida.

Recordava a invasão das primaveras brasílicas, a cavalo, esplêndido, moço, como podia ter sido.

Um pássaro cantava. Um pássaro azul bicava uma folha de árvore imensa e quieta. E o sol e a estrada.

Tinha saído dentro da noite. Fora ao centro, perdera-se nos bairros banais. E como por todas as pessoas que encontrava, visse a alegria inconsciente e sem vergonha da vida, teve o ímpeto de estacar todas, uma a uma, e perguntar-lhes se não tinham chorado um dia e paralisar a desprevenida festa das calçadas e dissolver os ajuntamentos divertidos, ir de homem a homem, de mulher a mulher, evocando: –Não te lembras mais, ele! ela!

Dizer aos que sorriam: – Escuta, nunca sofreste? Nunca perdeste aquela que amavas? E de sua dor ver nascerem milhares de dores anônimas… E ir assim pelas ruas abrindo um séquito imenso de macerações.

*-*-*-*-*

Mário de Alfenas levou-o a um cabaré para distraí-lo.

Gerações sucediam-se nos velhos ambientes de deboche.

Jorge não conhecia ninguém. Mário apresentou-o ao engenheiro Bandeira, ossudo e grisalho. Reconciliara-se com a Lucy da Pensão Chiquita e pagava champanha aquela noite.

Mostraram ao artista um mago estranho da cidade.

Era um sujeito entroncado que parecia ter sido achatado propositalmente por qualquer dedo sobrenatural.

Lia o destino nas mãos e conversava com os astros no sereno das noites citadinas. Contava que pusera o Antenor Lima na panela.

– Vão ver como ele rebenta.

Havia contatos de carnes brancas e rostos gravados de calvários.

Uma mulher de cabelos curtos veio sentar-se à mesa, ao lado de Lucy, insignificante, grudada ao engenheiro que se embebedava numa íntima festividade.

Mário de Alfenas, muito sério, confessou, a Jorge, que tinha também um caso, uma dançarina do Apolo.

O mago conhecia-a. Fizeram-lhe o necrológio tímido.

Chamava-se Arlete. Era uma criatura de bons sentimentos.

O engenheiro de repente perguntou à roda se Lucy não era uma mulher ideal.

O champanha decrescia nos copos.

Um bêbedo levantou-se e dirigiu a orquestra, de pé, com os braços incertos e pesados.

Corpos uniam-se nos maxixes.

E o amor estuava, suplicante como ante os portais fechados de um templo.

O mago esquecera os olhos pequeninos na fumarada azul da sala. Obstinava-se numa face de pesquisa quieta.

O escultor interrogou-o.

– Estou vendo Cristo Nosso Senhor.

*-*-*-*-*

Saíram na madrugada avançada. Despediram-se.

Jorge veio só pelas ruas.

As fábricas anunciavam o fim da noite, um apito espevitava-se no azul ferrete, passavam os primeiros bondes acesos, uma velha mendiga vomitava de fome, sentada à soleira de uma igreja escura. Cometas de quartel acordavam a cidade.

E Cristo subia do teto do dancing, alto, espectral para o ninho das auroras.

*-*-*-*-*

Um grupo de rapazes e velhotes tinha invadido o atelier.

Viera, trazido pela admiração incansável de Carlos Bairão.

Era um ajuntamento de partidos pelo meio, de semi-homens supremos que ensaiavam, numa incapacidade lancinante, atingir o que chamavam “os estados superiores da terra”. Intitulavam-se os artistas da cidade.

Alguns já maduros, aceitos em rodas pasmas, outros na angústia de lutas incompreendidas, aumentadas pelas misérias de seus lares convulsos, os demais boêmios imprecisos, revoltados à-toa, todos sob o íncubo de maldições e desastres.

Ante as modelagens, pararam na elevação religiosa dos compreendidos.

Eles, que constituíam o beatério da arte, escapados tristes do mundo, para um fundo limoso de estesia sacrista, que eram na terra brutal e indiferente o apostolado macilento da oração das artes lívidas e saíam em bichas processionais, de opa macerada, levando a lamparina de suas almas medrosas atrás dos desviados andores e das pequenas adorações, – eles ali se enchiam de uma magoada consciência de sua utilidade humana, e no choque das próprias confusões, que lhes trazia a afirmação daquela vitória de homem, fundiam-se como escravizados numa integração final.

O artista mantinha-os num risonho acolhimento, sentia-lhes a impotência eloquente e numa compassiva dor os estimava.

Queriam explicações e rumos para satisfazer-lhes os subjetivismos duradouros, davam denominações lancinantes aos grupos esboçados.

Jorge tirou cautelosamente o pano de sua última obra encoberta ainda.

Tentara na greda úmida do Brasil fazer a caminhada das primeiras camadas raciais.

E num ritmo de cavalos sobre-humanos, achatou-se na prancheta – lívida como a terra – a procissão de cruzes, bandeiras, maternidades, moléstias, êxtases incubados, falsas santidades, destrezas paralíticas, – toda a verdade trágica da primeira gente emigrada para o degredo verde dos Tapuias, com bentinhos, franciscanos e rosários, sob um céu lírico, por um mar insensato, num delírio nômade de lucro.

Fitando de perto os terrosos, os amarelos bisnetos vivos dos rapaces conquistadores, curvos sob o defeito longo dos defeitos domésticos, dos fetiches da honra, dos amuletos sentimentais, da fidalguia suspeita e da glória bastarda dos navegadores e dos bandeirantes, Jorge d’Alvelos sentiu sua obra apequenada e pálida.

Mas eles, ao contrário, extasiavam-se, compreendiam.

E na seriedade dos olhos onde se confessavam todos os crimes, todas as covardias, todas as vontades falhadas, mas também os martírios anônimos, as tentativas de vitórias fecundas, o escultor viu passar uma promessa contente.

Tinham saído aos dois, aos três.

Eram, com exceções, decaídos de famílias estabelecidas no continente num estouvamento de fidalguia, estendendo o seu domínio por gentes e escravos, campos e serras. O império dera-lhes baronatos, a terra trabalhada pelos negros dera-lhes ouro. E no país assombrado haviam-se vinculado a preconceitos tentaculares de glória paroquiana, feudais senhores de chapelão e barba, gerando numa sexualidade redobrada pelo degredo, rebentos inúteis e pomposos, falhos rombudos de orgulho nativo, pedaços anacrônicos de Meia-Idade portuguesa. O tempo trouxera a libertação dos escravos legais e as novas imigrações. E a terra cansara de dar a moeda rubra na ponta verde dos velhos cafezais.

Sobre a geração do Centenário, estalara a crise econômica no combate cego com as novas estirpes, vindas já depois da guerra e da revolução bolchevista, sem o trambolho dos brasões, o lastro pesado das fidalguias ilógicas, o aluvião dos bentinhos caseiros, das guinés morais, dos atavismos líricos e das canseiras históricas.

Jorge ergueu-se, andou e, numa confiança comovida, fez desmoronar, da extensa prancheta, numa bola informe e ruiva sobre o chão do atelier, o passado crepuscular de seu povo.

*-*-*-*-*

Carlos Bairão obtivera para ele um contrato de cimalhas e decorações. Terminou tudo depressa.

Na manhã desocupada penetrou numa igreja. Era a mesma, onde na soleira a velha mendiga vomitava dias atrás.

Jorge nada mais tinha que fazer de urgente. Sentia os braços inertes, o coração angustiado. Não se achava mais capaz de empolgamentos nem de decisões.

Na nave imensa, ajoelhavam-se devotas. Um sacerdote paramentado, seguido de um coroinha, dava-lhes a eucaristia numa pressa massada. Fechou o santuário, foi-se.

Ante um inexpressivo altar, um outro padre rezava em altas vozes inexpressivas.

Não era sincera aquela prece. Aquele homem não era sincero.

Jorge sentia numa desolação, todo o quadro de graças feito para os pequenos consumidores.

Lá fora, na aridez das ruas, dos quartos humanos, das praças tristes, os homens buscavam à-toa os direitos caminhos de Deus. Deus era como esses bichos de sotaina, covarde e libidinoso, vesgo de julgamento, sedento de vingança. Os seus acólitos, que acolitavam as classes ricas, cínicos, de olhos torvos, festejavam a vida em satiríases ocultas, desmoralizavam inocências numa repetida e cautelosa hipocrisia.

Apenas uma consciência formal e duvidosa enrijava os tempos modernos da Igreja.

*-*-*-*-*

Jorge d’Alvelos acendeu o atelier. Deitou-se ao divã acariciando a pequenina esfinge de doze mamas que o vira suicidar-se. Era a vida inapreensível e fugidia. Era o insaciado mistério.

Ele sugara-lhe os peitos túrgidos e imurcháveis, bebera-lhe o leite amargo e o leite maravilhoso e não conseguira tomar-lhe ainda o definitivo sentido.

Os seus olhos recurvos e côncavos continham os olhos de Alma sacrificada e os olhos salvadores de Mary Beatriz e os olhos do íncubo que lhe falara por noites isoladas e os olhos do mago que vira de pé, Cristo na fumarada do rendez-vous americano.

Em cada rosto calvo de homem, em cada figura flamejante de mulher, Jorge perscrutava sempre a solução.

Embarafustara numa ânsia de naufragado que se salva pela afirmativa das possantes teogonias, com catedrais, sinos e composições de consciência no escuro espectral dos confessionários. E, num pálido assombro, vira, sobre a cabeça dos incensadores macerados, na pompa calculada do culto, pela porta dos sacrários aparecer a cabeça lúbrica do deus Capital.

O artista queria acreditar. Acolhera-se ao signo moral e poético de Kant e de lbsen. Mas identificava-o de repente nas colheitas do tostão miserável das massas em que os exércitos de salvação propagavam, com bombos e cânticos, a opressão voraz dos imperialismos.

Chafurdava então no pior romantismo, o que permanece comente e fideísta nos corredores infernais do mundo. E cria ainda nas Madalenas preparadas dos bordéis como também na positivação terrificante de todas as preces, de todos os gestos para o alto, de todos os apocalipses sonhados ou escritos.

*-*-*-*-*

Percebeu, de repente, que estava no Lava-pés, ruidoso e animado naquela noite de sábado.

Saíra à-toa no jogo ininterrupto dos trapézios cerebrais. E, andando, descera insensivelmente à Glória.

Agora ia subindo como anos atrás a Rua Scuvero. Nunca mais revira o sobradinho marcado pela lembrança lancinante de Alma. Iria para lá numa peregrinação tímida, pois que o acaso para lá o conduzia.

Uma mulher de olhos bonitos, sob um chapéu de larga copa, as mãos enluvadas e um expressivo rolar de ancas cheias, veio na sua direção e vendo-o parou num sorriso – Jorge d’Alvelos!

Ele apertava a mão oferecida sem saber.

– Não me reconhece? Antônia, a modelo que recusou…

Vagamente na memória do escultor, falou uma lembrança de história em que Lino de Albuquerque, desencontrado de gestos, varava pelo atelier do Palácio das Indústrias com uma mulher pela mão. Era ela.

– Continua a ser modelo?

– Não. Foi só para servir aquele ingrato!

– Tem notícias dele?

– Nunca mais.

Jorge sentiu, conversando na sombra com a mulher fácil, uma ligeira perturbação de macho.

– Aonde vai?

– A farmácia, buscar um sabonete.

O sobradinho na distância atemorizou-o. Pensou que não devia prosseguir até lá. Aquela mulher posta ali vedava-lhe a visita inconscientemente tentada. Voltou com ela até o cotovelo rumoroso do Lava-pés. Num portão, um homem macerado tirava três notas longas de uma flauta rústica. Crianças cantavam em rodas multicores.

– Quer ir esperar-me em casa? – fez a mulher sorrindo. – Dou-lhe a chave.

– Onde é?

A mulher deu o endereço. Morava na mesma casa que Alma habitara.

Jorge disse:

– Passarei por lá depois.

Despediu-se. Foi descendo mais pela artéria quebrada.

À porta de uma casa amontoava-se gente. Dançava-se lá dentro aos pulos. Festejavam um casamento.

Dobrou por uma rua deserta. Andou sob árvores espaçadas. Depois, ouviu uma corrida de passos sonoros atrás dele. Voltou-se.

Uma preta adolescente, de trunfa, gritou-lhe numa voz debochada:

– Tá com medo de mim?

Aproximava-se. Jorge fitou a esquisita aparição e perguntou-lhe o que fazia.

– Besteira!

De uma esquina saíra um outro homem. Na mesma corrida de passos sonoros, ela foi perseguir o outro.

*-*-*-*-*

Era assim a vida, um jogo e uma mascarada. Dir-se-ia que tudo tinha secretas correspondências, dissimulados avisos, ligações invisíveis mas perfeitas.

E o sentido disso? Haveria de fato uma caixa de teatro no interior impalpável da existência terrena e como contrarregra o inflexível deus de todas as religiões?

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.